COLUNA DO MEIO…

EM QUE SE SUSTENTA A INSUSTENTÁVEL SUSTENTABILIDADE?

O Meio Ambiente nos fornece Serviços Ambientais e é preciso cuidar para que seus recursos finitos sejam utilizados de forma sustentável e as gerações futuras não passem por privações. Dessa premissa surgem os códigos que norteiam o trinômio: Desenvolvimento – Meio Ambiente – Sustentabilidade, que pode ser simplificado em Desenvolvimento Sustentável e, a princípio, prepara um cenário para o investimento no discurso “ecologicamente correto” de muitas instituições. Mas o Meio Ambiente, tal como é concebido, não existe. Tão somente institui-se como uma definição redundante, porque “ambiente” não precisa de um complemento “meio” para lhe dar sentido. Essa definição normativa de Sustentabilidade surgiu na Conferência de Estocolmo, em 1972, na qual participaram 113 países que discutiram uma possível “abordagem do ecodesenvolvimento”, até ser renomeado para “desenvolvimento sustentável”. Ele deve obedecer a três critérios: eqüidade social, prudência ecológica e eficiência econômica. O Desenvolvimento Sustentável, supostamente, busca conciliar um desenvolvimento econômico com uma preservação ambiental, que levaria ao fim da pobreza no mundo.

A Conferência aconteceu na época do auge da ditadura militar no Brasil e o governo brasileiro liderou um grupo de países (considerados em desenvolvimento) que faziam oposição a um reconhecimento do problema ambiental mundial. Para o governo ditatorial de Emílio Garrastazu Médici, a principal poluição era a miséria que se estendia pelo país, e para o ministro do Interior Costa Cavalcanti, a prioridade era “Desenvolver primeiro e pagar os custos da poluição mais tarde”. Nessa lógica, os problemas ambientais surgiam da pobreza e o desenvolvimento do país não poderia ser comprometido por causa do ambiente, prejudicando as exportações. Já que todos tinham direito ao crescimento econômico, o Brasil da Ditadura liderou 77 países na defesa do crescimento e num ato de “protesto” estendeu uma faixa com os dizeres: Bem vindos à poluição, estamos abertos a ela. O Brasil é um país que não tem restrições, temos várias cidades que receberiam de braços abertos a sua poluição, porque nós queremos empregos, dólares para o nosso desenvolvimento”. E esse era o Milagre Econômico!

Mundialmente, quem deveria liderar a luta era o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), estabelecido pela Conferência de Estocolmo, e tem como missão a proteção do meio ambiente no contexto do desenvolvimento sustentável e, assim, garantir a adequação dos meios de exploração dos recursos naturais às especificações do meio ambiente. Atualmente, as estratégias mais comuns das instituições (academia, ongs, escolas) utilizadas para se atingir as metas é a Educação Ambiental (que também já não está mais sozinha nessa corrida), a Educação para o Desenvolvimento Sustentável, a Ecopedagogia, a Educação para a cidadania, a Educação para a Gestão Ambiental e outras que estão surgindo…

Outra estratégia estabelecida é a disseminação do meio ambiente lucrativo, que a partir da valoração dos serviços ambientais (produção de oxigênio, a capacidade de produção de água e equilíbrio do ciclo hidrológico, fertilidade do solo, vitalidade dos ecossistemas, a paisagem, o equilíbrio climático, entre outros) se objetiva “fazer com que dois mundos diferentes se encontrem: o mundo da natureza e do mercado. (…) Pagar por serviços ambientais é uma solução para um problema criado essencialmente pelos nossos padrões de produção e consumo. A verdade é que enquanto não se valorar a natureza, não teremos êxito nessa questão“, como disse o secretário-geral do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). Esse mecanismo de pagamento por proteção aos serviços ambientais é relativamente novo e considerado estratégico para o estabelecimento do desenvolvimento sustentável. Seu princípio está na recompensa para quem protege o meio ambiente e os serviços oferecidos por ele.

E se depender do governador-guardião-da-Amazônia, Eduardo Braga, essa moda vai se estabelecer. Ainda inserido na lógica da pobreza como causa da degradação, ele afirma que “é sabido que a pobreza é um dos principais fatores de degradação do meio-ambiente e por essa razão o nosso governo criou o programa Bolsa-Floresta, que vai incentivar o desmatamento zero, proporcionando uma pequena ajuda mensal aos guardiões da floresta, para inverter essa lógica”. Mostrando que apesar do esforço de alguns em participar das discussões e agir para a mudança, há sempre aqueles que pegam carona e tentam se aproveitar das situações para conquistar para lucrar. A fragilidade dessas medidas impostas pelo “guardião da floresta” não estão interessadas na procura de novos conceitos que nos permitam renovar, inventar novas práticas ecológicas.

Muito diferente do Desenvolvimento Sustentável proposto pela ministra Marina Silva: “Novos tempos exigem novas mentalidades e atitudes que gerarão novos produtos. E uma das questões que está sendo debatida em todo o mundo é a necessidade de se preservar os ecossistemas para que eles possam assegurar os serviços ambientais, tão importantes para a vida”, que não cai no embuste do meio ambiente lucrativo e não se prende ao que o discurso da economia de mercado impõe. Mas tem uma preocupação em trazer às discussões essas “novas mentalidades”, se aproveita do que está instituído para criar outras práticas que incluem o engajamento ético-político que trabalha para a mudança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.