Iván Cepeda, senador e filósofo, representa o partido Pacto Histórico na Colômbia |Crédito: Vanessa Romero/AFP
A vitória de governos alinhados à direita e à extrema direita em países da América do Sul não deve provocar uma ruptura nas relações do Brasil com seus vizinhos, embora represente um novo desafio para os projetos de integração regional defendidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A avaliação, feita por uma fonte com grau elevado de informações no Planalto, é de que haverá um enfraquecimento dos mecanismos multilaterais latino-americanos, como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), mas não um rompimento das relações entre os países.
Segundo essa leitura, o cenário regional exigirá do Brasil uma estratégia mais pragmática, priorizando negociações bilaterais em vez da reconstrução de consensos políticos em organismos regionais, hoje atravessados por diferenças ideológicas entre os governos.
Na quantificação de um diplomata, a percepção de que o Brasil estaria “cercado” por governos hostis é exagerada. Ele citou que, com exceção da relação mais tensionada com o presidente argentino Javier Milei, os novos mandatários têm sinalizado disposição para manter canais de diálogo com Brasília.
O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, por exemplo, reagiu de maneira considerada construtiva à mensagem de felicitações enviada por Lula. O chileno José Antonio Kast também teria demonstrado interesse em manter interlocução durante a próxima Cúpula do Mercosul.
A expectativa do governo brasileiro é de que temas como infraestrutura, integração energética, combate ao crime organizado e resposta a desastres naturais continuem aproximando os países, independentemente das diferenças políticas.
Para o Itamaraty, esses interesses concretos tendem a se sobrepor às disputas ideológicas, sobretudo porque o mercado brasileiro continua sendo estratégico para os vizinhos e porque, na avaliação do governo, muitas das promessas de cooperação feitas pelos Estados Unidos à região não se materializam.
O diagnóstico interno é de que caberá ao quarto mandato de Lula manter viva a agenda de integração sul-americana, ainda que em um ambiente institucional menos favorável do que aquele existente nos primeiros governos petistas.