Em Manaus, escolas da iniciativa privada vendem a educação como produto associado a dois aspectos mercadológicos e de forte apelo marketista: o foco nos ditames do mercado de emprego, e a tendência de associar educação e moral.

A educação como produto, seja oferecida pela iniciativa privada ou pelo Estado, é sempre associada com a moral. Considera-se uma boa educação aquela que transmite os valores nobres e faz com que o aluno possa, em sociedade, reproduzir os signos que aprendeu e incorporou.

Processo de apropriação da faculdade cognitiva do ser humano, o conhecimento é confundido com informação e se perde a potência do educar, a fim de produzir corpos hábeis para a produção de capital, e passivos para qualquer outra espécie de criação. Neste aspecto, a moral tem um importante papel.

Diz o filosofante Nietzsche que toda moral é uma moral de classe. Ela carrega valores e dizeres que afixam posições dentro das relações sociais e institucionais, seja qual for a instância (seja ela macroscópica, como nas instituições, seja capilar, atuando diretamente nos corpos e na família). É portanto de se esperar que, numa sociedade hierarquizada, e que vende como ideal de existência o sucesso econômico (através da exploração do outro), que a moral seja identificadora, selecionadora, classificadora. Produz-se assim o consumo incorporal dos valores de classe, que leva algumas pessoas a tomarem para si estes valores e fortalecerem os microfascismos cotidianos (o ódio da classe média aos elementos que carregam dizeres/signos das chamadas classes baixas, como o ódio à prostituta, ao mendigo, a impossibilidade da mídia e da autoproclamada elite de suportar um presidente advindo das classes trabalhadoras e que deu certo, por exemplo).

Vista desta forma, a moral é não apenas um item importante do se dar bem na subjetividade hostil do Capital, mas habilidade e valor necessário e cobiçado para as famílias bem adequadas a este modo de produção de subjetividade.

Do que entende-se facilmente que, aliado a um engodo marketista de futuro promissor através dos signos informacionais que o mercado de empregos segrega, a disseminação disciplinar da moral nas escolas funciona como um chamariz para pais que entendem seus filhos como investimento econômico e vêem, pelo ressentimento do fracasso que foi sua existência, a possibilidade – abortada – de “se dar bem” através do sucesso dos filhos. Com isso, distendem na temporalidade do existir os mesmos elementos laminadores da autonomia, alegria e criatividade das crianças enquanto corpo-singularidade pelos quais foram capturados quando eles mesmos eram crianças. Resultado de quem não conseguiu ler o mundo e compreender o si para além do Si.

Como o marketing não tem compromisso com o conteúdo, e o produto consumido é a própria ilusão que o marketing produz, e não o anunciado, o que estas escolas, sejam públicas ou privadas não podem oferecer é educação. Como não sabem que educação é processual de produção de modos de ser através dos encontros que aumentam a potência de agir, expandem a consciência e engendram a inteligência coletiva, tem que se contentar em apenas vender a quem quiser comprar o falso brilho da ilusão.

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