ENCONTROS CASUAIS

! Era uma vez uma cidade com um povo muito crente e devoto. Certa manhã, o pastor chegou diferente dos outros dias, foi ao púlpito, olhou confiante os fiéis e sentiu a cumplicidade religiosa. Não era para menos: era o mais respeitado e venerado representante de Deus da cidade. Não esperou os cânticos iniciais e fez sua revelação angustiante. Contou que na noite anterior Deus lhe aparecera e afirmara que não existia. Os fiéis riram, acreditando ser mais uma das tiradas para motivá-los. Mas não era. E continuou, com ênfase, contando a revelação de Deus. Tudo não passara de um erro histórico. Ele não era Deus dos habitantes deste planeta, mas de um outro planeta. Os primeiros profetas se enganaram em suas visões e O tomaram como seu Deus. Os fiéis, desesperados, perguntaram como iriam viver sem um Deus. O pastor respondeu que sempre viveram sem Deus. Todas as orações foram para o nada, já que não havia Deus para os homens. Foi então que um jovem levantou-se e disse que se Deus não existe o homem tem que ser seu próprio criador e seu destino. Os fiéis choraram longamente e foram saindo da igreja. Na rua, viram pela primeira vez um mundo sem sombra e lamento. E em uníssono, soltaram uma estrondosa gargalhada. No outro dia, o pastor contou que Deus aparecera e lhe contara ter havido um equívoco: ele existia e era Deus dos homens. Os fiéis sorriram e responderam não precisar mas de um Deus. Sabiam como viver suas vidas. E que, desde o dia anterior, a igreja passara a ser apenas um local de agradável encontro fraterno.
!! As juras de amor afirmavam ser o casal mais apaixonado de Manaus e que, com tão concreto amor, jamais se separariam. Nem terremoto, tornado, tsunami conseguiriam esse feito. Certa tarde, entediados com a vida de classe média bem nutrida, cujo entretenimento é o óbvio inócuo, resolveram inovar: usar pela primeira vez um ônibus. Felizes, entre beijos e abraços, chegaram à parada e nem precisaram fazer sinal: havia umas dez pessoas para entrar. Entraram contentes como exploradores de um novo mundo. Passaram na catraca, sem lugar para sentar, ficaram em pé. O espreme-espreme fez ficarem mais colados um no outro e os beijos eram inevitáveis. Cada parada mais gente entrando e o calor aumentando. Ele reclamou, ela sorriu. Os dois reclamaram e se separaram. Ela disse eu te amo, ele não respondeu. Ela ficou calada, recebeu uma cotovelada e uma mão na bunda. As freadas e caídas nos buracos apavoraram os dois, separados por outros corpos. Ansiedade, pânico, queriam descer, mas não podiam. Até que o ônibus chegou ao ponto final do bairro. Eles desceram, ficaram em silêncio, então cada um telefonou para os parentes para irem buscá-los. Nunca mais se falaram. Ele se apaixonou por outra jovem, e ela fez um blog para analisar e dar opiniões sobre os governos municipal e estadual, mostrando o quanto o povo sofre pelas péssimas administrações públicas.
!!! No conforto do lar, acompanhado por duas boazudas, alguns envelhecidos uísques e um encrespante filme pornô, ouviu arrombarem a porta. Correu para pegar o berro, mas não deu tempo: a polícia chegou primeiro e lhe deu voz de prisão. Pirou de vez. Tinha sido acusado por estelionato, falsidade ideológica, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, adultério, contrabando, sonegação fiscal, mas estava limpo, falou aos policiais. Para fortalecer o argumento, disse que seu advogado, com sua incomparável inteligência, tinha conseguido derrubar todas as acusações e ele era um homem livre. Um dos policiais mostrou-lhe um documento e disse que ele até poderia se livrar de todas as acusações, mas só depois que seu advogado, com sua incomparável inteligência, fosse aprovado em insuspeita prova da OAB.
!!!! A princesa o beijou e ele virou um príncipe. E tinha de aprender os ofícios para ser rei, tinha até de aprender a beijar para casar com a princesa de um encontro casual. De tudo, o estranho era que, a despeito de poder e riqueza, crescia dentro de si um terrível medo da morte. Arranjou então um cururuzão, botou em cima de sua cama e fugiu. A princesa, quando viu o cururu, beijou-o, beijou-o, e nada. Um dia foi ao jardim, o sapo aproveitou para fisgar moscas; apesar do nojo, a princesa não interferiu, pois para ela parecia que ele se divertia. O sapo aproveitou e escapuliu para a lagoa. A princesa correu desesperada, e fica lá beijando sapo cururu, na esperança de encontrar seu príncipe encantado. Enquanto isso, o rapaz, agora sem nome, sem riqueza e, principalmente, sem medo da morte, segue por aí pelo mundo…