LULA, SOBRE TARIFAÇO: “NINGUÉM GANHA MENTINDO CONTRA O BRASIL”
Declaração foi dada durante evento para anunciar novos investimentos no SUS
Durante agenda realizada na tarde desta sexta-feira (17), no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comentou o novo tarifaço dos EUA contra o Brasil.
O presidente esteve no Rio para visitar as instalações da Carreta de Saúde da Mulher, instalada na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), e o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO).
Em sua fala, o presidente Lula afirmou que só vai se manifestar de maneira mais categórica sobre o tarifaço quando o presidente dos EUA, Donald Trump, o fizer. O líder petista também classificou as alegações para as novas tarifas como “mentirosas”.
“Vocês percebem, companheiros da imprensa, que eu falei pra caramba e não falei do tarifaço? Não vou falar, porque a notícia tem que ser o SUS. A notícia tem que ser as nossas carretas. A notícia tem que ser o tratamento das mulheres. Por isso, eu vou deixar para falar do tarifaço quando o Trump falar. Quando o Trump falar, eu falarei. E, quando ele não falar, eu não falarei, porque nós vamos mostrar que, contra o Brasil, ninguém ganha mentindo.”
Mauro Vieira reage a tarifaço e declarações de Rubio: “grosseiras e arrogantes”
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou, nesta quinta-feira (16), as declarações do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, como “grosseiras e arrogantes” e “inaceitáveis”, após Rubio acusar o presidente Lula de não negociar de boa-fé com Washington.
A reação ocorre depois de o governo Trump confirmar, na noite de quarta (15), a imposição de uma tarifa de 25% sobre exportações brasileiras, com entrada em vigor em 22 de julho, medida que o Brasil considera “unilateral” e “arbitrária” e para a qual promete retaliação e acionamento da Organização Mundial do Comércio.
Em nota divulgada nesta quinta (16), Vieira não poupou palavras para responder às afirmações de Rubio, publicadas nas redes sociais durante a madrugada.
“As declarações do secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros”, afirmou o chanceler. Em seguida, foi ainda mais direto: “Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo”.
A tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, confirmada pelo governo Trump, foi conduzida com base na chamada Seção 301 da lei de comércio estadunidense, instrumento unilateral que permite a Washington investigar e punir práticas comerciais de outros países sem necessidade de aval multilateral.
Para o governo brasileiro, o procedimento em si já é contestável: “As investigações da Seção 301 são procedimentos unilaterais do governo dos Estados Unidos e não há justificativa para a adoção de tarifas contra os produtos brasileiros”, disse Vieira. O uso desse mecanismo, na avaliação brasileira, dispensa o diálogo e ignora os argumentos apresentados ao longo de meses de negociação.
Histórico das negociações e acusações
Vieira apresentou um balanço detalhado do esforço diplomático brasileiro para rebater a acusação de má-fé lançada por Rubio. Segundo o chanceler, desde março de 2025 foram realizadas mais de 30 reuniões entre autoridades dos dois países, em níveis presidencial, ministerial e técnico, presencialmente, por videoconferência e por telefone.
Só com Rubio e com o representante de comércio dos EUA, Jamieson Greer, foram 11 contatos diretos, incluindo o encontro entre Lula e Trump na Casa Branca. “Desde o primeiro momento, o presidente Lula buscou diálogo e enfatizou sua disposição de negociar”, afirmou o ministro.
Além do volume de contatos, Vieira destacou que o Brasil participou formalmente da investigação dos EUA, apresentando duas defesas escritas e enviando uma delegação de alto nível a Washington. A decisão final dos EUA, contudo, ignorou os argumentos apresentados.
O chanceler também foi ao ponto das justificativas técnicas invocadas por Washington. Sobre as críticas dos EUA ao Pix, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central (BC), Vieira foi categórico: “Não é sério falar em competição desleal”, afirmando que o Pix é uma infraestrutura pública de pagamentos, não um subsídio a exportadores.
Quanto às alegações sobre desmatamento, o ministro as classificou de “absurdas”, citando a redução comprovada da devastação na Amazônia e no Cerrado desde 2022 como evidência de que o argumento não se sustenta.
Motivações e próximos passos
O ponto mais grave levantado por Vieira diz respeito à origem política da escalada tarifária. O chanceler relembrou que, após uma carta enviada por Trump ao presidente Lula, em julho de 2025, as tarifas foram elevadas de 10% para 50%, em uma decisão que, segundo ele, teve “expressa motivação política”.
Nessa carta, Trump ameaçou o Brasil com a alíquota de 50%, caso o processo contra o ex-presidente da República, Jair Bolsonaro, não fosse imediatamente interrompido, e foi justamente nela que teria sido dada a instrução para abertura da investigação sob a Seção 301. A tarifa final de 25% resultou desse processo.
A vinculação entre uma demanda política interna brasileira e uma medida de política comercial estadunidense é a prova de que o tarifaço não tem racionalidade econômica.
A nota oficial brasileira também criticou a colaboração da família Bolsonaro com a investigação dos EUA, apontando para uma dimensão política doméstica que extrapola o campo estritamente comercial.
Diante desse quadro, o Brasil anunciou que vai retaliar e buscar soluções junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), contestando a legalidade e a legitimidade do procedimento unilateral adotado por Washington.