DUAS NOTAS PULSADAS DA MESMA CANÇÃO

PRIMEIRA NOTA: DÓ – O diretor da Fundação Medicina Tropical, o dermatologista Sinésio Talhari afirma, com a veemência imperiosa que a ilusão do cargo subalterno lhe proporciona, que vai desativar trinta e cinco leitos, levando no ato à demissão de mais de cento e quarenta funcionários, entre médicos, técnicos de enfermagem e outros. Ou seja, profissionais imprescindíveis ao funcionamento da instituição médica. Esta decisão, como é óbvio, atingirá diretamente o atendimento público em seu direito de assistência médica. Em um estado em que inexiste política de saúde pública, este ato é sentido e entendido como uma afronta aos direitos democráticos da população. O predomínio da lógica-burocrática sádica. Para explicar sua lógica, o diretor diz que o dinheiro usado para pagar os funcionários é de outra instância: para pagar plantões. O que, segundo ele, está errado, e não quer depois ser acusado de um erro administrativo. Cabe lembrar que este expediente já é praticado há muitos anos, inclusive por ex-administradores amigos e seus avaliadores ao cargo, ato que praticou durante todo este tempo de sua gestão. Neste caso, duas inquirições saltam: 1) Por que só agora ele entendeu que estava cometendo um erro? 2) Por que, sabendo do erro administrativo, ele, como ocupante de um cargo de confiança indicado pelo governador, não conversou com o governador sobre o caso e produziu uma solução que atendesse os profissionais e a população, como se espera de alguém que se movimenta em sociedade pela práxis democrática? Será que, não sendo um democrata, ele teme falar com o governador de um caso ‘tão sem importância’? Quando para os funcionários da instituição, apresenta-se arrogante e prepotente. No cerne da força imperiosa, alguns médico emitem suas opiniões às escondidas. Para uns é incapacidade administrativa misturada com prepotência. Para outros, ele está querendo chamar atenção para que o governador se sensibilize com a situação. O que confirma a opinião dos primeiros. Como a instituição foi criada no tempo da ditadura pelo médico Heitor Dourado, na época com a subserviência de muitos que posteriormente lhe substituíram no cargo de diretor. Já existem supersticiosos professando que trata-se da maldição ditatorial, pois quase todos os diretores que por lá passaram administraram nesta lógica e em benefício familial.
SEGUNDA NOTA: SI – Ontem, médicos realizaram o dia de protesto contra a situação deplorável em que se encontra a categoria. Um justo direito democrático trabalhista. Lutar por um causa profissional concernente a salários dignos, local e material condizente com a práxis profissional, nada mais justo. Embora uma grande parte não entenda assim. Entretanto, o que deveria também ser discutido é o grau de alienação em que vive uma influente parte da categoria e o corporativismo, cuja ação é sempre em detrimento da população. Estas duas subjetividades são as principais causas da inexistência de uma atividade profissional composta pela relação médico-população. O que faz com que péssimos atendimentos, decorrentes da limitação científica e ausência de vivência comunalidade, coloquem sempre em confronto alguns médicos e pacientes. E ainda sirva para criação de uma opinião que todos os médicos são iguais: não têm a profissão como uma prática de serviço público democrático. Nem tanto injusto e nem tanto justo. Aqui no Amazonas, a maior parte dos médicos não é engajada em prática de serviço público democrático. O que faz com que a minoria que realiza esta prática ou seja ocultada, ou confluída no mesmo bolo dos alienados e corporativistas. Dois exemplos: Quase sempre o sindicato médico só se prontifica quanto a questões de ordem salarial; dificilmente à qualidade ética-científica da profissão. No caso de médicos envolvidos em situações contrárias à profissão, como no caso, agora, na Fundação Tropical, e quando um paciente é diagnosticado com uma doença ou terapia errada, como no caso do médico ortopedista do Getúlio Vargas, ele não atua. Como também o Conselho de Medicina. A luta é válida, mas vai além dos salários.