DAS VÃS TENTATIVAS NEOLIBERAIS DE CAPTURAR FERNANDO PESSOA

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DOS ENTENDIMENTOS DO SECRETÁRIO

No início de 2007, numa reunião dos diretores de escola do Distrito Rural, quando se usava uma poesia de Fernando Pessoa numa daquelas dinâmicas inúteis, o Secretário de Educação de Manaus, Cyrino Júnior, querendo demonstrar a sua verve pedopoiética, resolveu falar da “dialética” da poesia de Fernando Pessoa. Como essas reuniões são exaustivamente burocratizadas, o Secretário talvez achasse que faria algum comentário fortuito e passasse logo à pauta mais “séria”, mas um gestor presente resolveu entrar na discussão, dizendo-lhe de chofre que “Fernando Pessoa nada tem a ver com dialética”. O Secretário estufou-se, empostou a voz, e foi buscar autores como Lênin e Engels para confirmar o que dissera. Ao que o gestor, mostrando a que viera e sua autonomia não subserviente à hierarquia dos cargos, falou de uma dialética falseada, usada como válvula de escape dos intelectualóides bem situados à esquerda faminta e, a partir dos estudos do filósofo italiano Toni Negri, passou a expor a diferença entre teoria marxista realizada com características específicas de acordo com o tempo em que Marx viveu, mas, como Marx pensava num grau muito elevado de entendimento, há a presença de enunciados que se atualizam constantemente — e prática marxista — a linha de atuação para modificação e suplantação do estado de coisas capitalístico. E terminou dizendo que não se pode dizer que Fernando Pessoa produza uma dialética, o que ele cria é uma linha contínua, que parte do infinito-antes-de-tudo num movimento intensivo desterritorializante…

Chegou até este bloguinho que no Manaus Educa realizado pela SEMED, o Secretário Cyrino Júnior recitou (não declamou) uma poesia de Fernando Pessoa. Dessa vez será que o Secretário leu ou continua apenas a preencher as lacunas administrativo-pedagógicas justamente com o poeta português que criou uma linha philopoietai diferente de toda falseação e travamento da vida. Se os entendimentos do Secretário continuam os mesmos, a lacuna que separa ele de Fernando Pessoa é a eternidade.

DOS ENTENDIMENTOS DO SENADOR

Depois de presentear várias ‘autoridades’ com o livro no qual Gustavo Franco rebatizou oportunisticamente alguns textos econômicos de Fernando Pessoa (o qual publicamos abaixo), o senador Arthur nosso orgulhoNeto (PSDB-AM), vem agora dizer que para quem for contra a Globalização, a Privatização, ele não usará nenhum economista não, mas o poeta Fernando Pessoa.

Seria por isso que a SEMED contratou o atucanado Gabriel Chalita para palestrar no Manaus Educa? No caso do senador, parece que ele força em permanecer em perpétuo enunciado da galhofa moral que confirma o desentendimento do que vem a ser a poesia de Fernando Pessoa. Sabendo-se que a poesia de Pessoa e seus heterônimos é uma poesia para sentir com alma, coaração e tudo, pode-se inferir que há blocos rígidos de discursos dominantes que se ressentem, não se deixando abstrair no corpo senatorial a suavidade para passar os fluxos de alegria intensiva liberadores das potências da vida.

Como nossa contribuição político-educativa dos sentidos e do espiritual, vai aí o artigo que fizemos quando do lançamento do errôneo livro de Gustavo Franco, ou melhor, da aberração que ele tenta cometer aos escritos de Fernando Pessoa, enquanto o poeta-filósofo caminha incapturável.


DOS MAUS INTERPRETADORES DE FERNANDO PESSOA

Nietzsche fala de bons interpretadores e maus interpretadores. Os que pegam a flecha deixada por outro filósofo e a movimentam e os que interrompem o movimento deviniano do ser, reduzindo a velocidade de suas partículas quantuum, paralisando-o e absorvendo seus fluxos no buraco negro.

Entre estes péssimos interpretadores está Gustavo Franco, segundo alguns, na paranóia-personificação, o verdadeiro pai do Plano Real, que colocou-o como irmão enjeitado do dólar a partir da falseada “paridade”, o que fez Fernando Henrique, com a ajuda da mídia golpista, ganhar a presidência do Brasil por duas vezes. Sendo eles, então, Gustavo Franco e FHC, que consolidaram a economia brasileira à mercê do Fundo Monetário Internacional (FMI) e devolveram a pátria inanimada à nefasta alternância inflação/deflação. (O governo Lula pode até ter seus equívocos, mas quem ouve ainda o apito do FMI no nosso quintal? As notícias (como novidade) sobre a inflação são sempre de queda. Alguém lembra ainda o que é deflação?). Pois não foi esse mesmo Gustavo Franco que resolveu pegar alguns textos sobre economia, de Fernando Pessoa — o poeta que esquizofrenizou, cindindo as crostas do real e fazendo saltar a multiplicidade do ser —, e tenta assassinar uma das singularidades que compõem a heterogeneidade pessoana a partir de sua má interpretação. Aliás, pior, nem a isso chega, é apenas deturpação, má-fé, aviltamento, pois ele apenas republicou os textos, colocando oportunisticamente outros títulos de acordo com sua concepção de economista neoliberal: privatização, globalização, marketing, entre outras, são algumas das sugestivas intitulações, que servem à tentativa de enquadrar a heteronomia econômica de Fernando Pessoa como um neoliberal, como ele afirma e gostaria que fosse.

COMÉRCIO EXPLOSIVO E MERCADO GLOBAL

Franco não entendeu francamente o conceito de ‘comércio’ de Pessoa, que nada tem a ver com globalitarização e privatizações. É uma idéia de quem pensava pelas causas e não pelos efeitos. Está na origem do comércio, enquanto relação que escapa ao estado constituído em todas as épocas. Na modernidade, o comércio vai possibilitar que as produções materiais e imateriais sejam negociadas livremente do controle do estado aristocrático, como afirmaria Habermas. O Estado que se livra da responsabilidade de serviços públicos indispensáveis com subterfúgios nefastos nas regras cristalizadas no Mercado Global, como a privatização, tornando a população refém de ‘oligopólios’ (outra expressão que, na era pós-Lula, perdeu um pouco a sua força), está associado ao enfraquecimento de relações comerciais claras e sua apropriação, agora, pelo Capitalismo Mundial Integrado, como fala o filosófo da ecosofia, Félix Guattari. Portanto, Fernando Pessoa nada tem a ver com o Neoliberalismo. Coisa que os neoliberais tipo Gustavo Franco e Fernando Henrique, etc, não têm os elementos perceptivos e afetivos para compreender; uma vez que, ao contrário do philopoietai, não vêem ou sentem o mundo, apenas tentam manipulá-lo conforme seus mesquinhos interesses.

Talvez o pai do quimérico ‘real’ fhciano apenas esteja querendo parecer entre os seus iguais inteligente e sensível. Faltou inteligência para “ler dentro do enunciado”, ele somente “preencheu lacunas”, como diria Deleuze; os sentidos foram embrutecidos, por isso ele afirma com “orgulho” (que é pior até do que a abjeção, segundo Spinoza) que “faria tudo de novo do mesmo jeito”.

BEM-AVENTURADOS MEUS IMITADORES…

…porque deles serão meus erros. E não é que a sumidade maior da política amazoniquim resolveu entrar na jogada? O verborroso senador Arthur Neto, que, na sua limitação intelectual, não pôde dar o toque filo-econômico ao amigo, passou foi a divulgá-lo, presenteando-o a uma lista de ilustres; consta que FHC e Lula estão entre os presenteados. Primeiro, Gustavo Franco não leu Fernando Pessoa; ler não é tão somente decodificar os signos lingüísticos. Segundo, Arthur, que leu Gustavo Franco, é que não leu mesmo. Dos presenteados, FHC nem precisava, porque contou com os francos entendimentos de Franco nos seus meio (governo Itamar) e dois mandatos tanto como secretário do Ministério da Fazenda quanto como presidente do Banco Central; o resto da história é conhecida na realidade que a população passou devido à fantasia deles. Lula se aceitou foi só pra mostrar que não tem ressentimento àqueles que o fizeram trabalhar dobrado para arrumar a casa, como se diz.

Assim, como no caso do envelope com um pozinho branco, ano passado, que lhe enviaram no congresso, assinado Nietzsche, e que Arthur, querendo-se humorista, disse não vir de alguém da esquerda, porque senão assinaria Marx e não um filósofo de direita, o supra-sumo da inteligência política barezinha mais uma vez nada entendeu.

Daqui a pouco essas sumidades dirão que Fernando Pessoa era até a favor da colonização, só porque não compreendem a vitalidade de suas Mensagens:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.

EM TEMPO…

O Teatro-Esquizo da AFIN, desde 2001, tem levado, gratuitamente, a escolas, associações, univer- sidades, comunidades, o vetor teatral “O Filósofo Fernando Que Não Era Só Pessoa”, composto de poemas e prosa de Fernando Pessoa e seus heterônimos.

A quem interessar também uma conversação filopoética sobre a obra desse multifacetado poeta, filósofo, economista, o núcleo Esquizo-Literário da AFIN se dispõe a compor, gratuitamente, apenas pela comunalidade poetizante…

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