MANAUS: UM PASSEIO PELA NÃO-CIDADE
Roteiro de Um Caso Ortopédico
— Uma Análise BioPolítica —
O recente e ainda não terminado caso do metropolitano itacoatiarense acompanhado pelo Bloguinho Intempestivo evidencia o entrecruzamento dos diversos discursos que compõem a chamada medicina moderna, ou medicina de mercado, que é aplicada com especial esmero em Manaus e no Estado do Amazonas. Uma vez que foi possível a elucidação dos erros que quase custaram a perna do cidadão, e que os personagens finalmente foram conhecidos, esta coluna convida o leitor a tentar escutar o que alguns enunciados proferidos nesta história exprimem, e de que forma se constitui um serviço público de saúde que não leva em conta os aspectos mínimos para a criação de comunidades.
1. O ENUNCIADO DA BUROCRACIA INEFICIENTE DO MARKETING GOVERNAMENTAL
O cidadão não conhece a cidade, não sabe para onde se dirigir. A ambulância o leva para a rodoviária, ainda que sem ter recebido sequer os primeiros cuidados necessários à sua moléstia. A situação evidencia duas contradições criadas pelos próprios governos municipal e estadual. Primeiro, a ausência de um serviço de saúde que atenda os municípios do chamado interior do Estado, fazendo com que as pessoas tenham que sair dos seus locais de residência e encarar, muitas vezes sem nada conhecer de Manaus, o que já é difícil para os próprios manauenses: conseguir um atendimento efetivo na área da saúde.
O marketing metropolitano não contava com essa. Se levarmos em conta a organização administrativa e política da Região Metropolitana de Manaus, que engloba o município de Itacoatiara, o cidadão não pode sequer ser acusado de ter procurado o serviço de saúde errado, já que as duas cidades fazem parte agora, administrativamente, da mesma jurisdição social. Evidência de que a RMM não existe nem no papel. Com a situação cotidiana de centenas de interioranos que precisam vir a Manaus para tratamentos de saúde, ou mesmo para situações mais simples, pelo fato de não haver nas proximidades de sua residência nenhum serviço mínimo de atendimento médico, se evidencia o buraco no marketing governamental, e a falha na burocracia de governo.
2. O ENUNCIADO DO CORPO COMO PRODUTO-PRODUTOR
A medicina de Estado, que se formou em conjunto à formação dos Estados burgueses tem por objetivo menos um conhecimento do corpo como matéria de expressão singular no auxílio ao desenvolvimento de seus fluxos biopolíticos do que o controle destes fluxos, sua normatização e formatação em função da produção da mais-valia. Para tanto, a medicina ‘evoluiu’ no sentido de manter o corpo em funcionamento para a produção do capital. Os saberes constituintes engendrados nas relações existenciais e sociais que já existiam desde o tempo de Hipócrates foram capturados pelo saber constituído do Estado, de forma que a medicina passou a ser de exercida somente sob sua tutela, e o saber médico, passado mediante o ritual da faculdade: o curso de medicina.
Assim, a medicina passou a produzir enunciados sob o corpo, criando um corpo de saberes que outorga ao médico uma força institucional capaz de retirar inclusive os direitos civis de um paciente. Uma vez que é o Estado quem dá ao cidadão que se submete ao ritual do curso de medicina o direito de atuar como médico, usando estes saberes, é também responsabilidade do Estado quando este profissional desconhece sua importância comunitária e que seus saberes pertencem à coletividade. Há responsabilidade ainda por parte das entidades de classe, que infelizmente atuam somente em defesa da individualidade da profissão, sem analisar a partir de uma perspectiva diversa do corporativismo. Quando o médico-interceptor enuncia uma terapêutica diferente da prescrita pelo médico-professor, sendo esta ineficiente e até mesmo prejudicial à cura da moléstia, como vimos, segundo o médico do CEFRAM, ele o faz por acreditar erroneamente que os saberes lhe pertencem, e que por isso pode emitir sentenças sem o exame necessário da situação. Oh, ilusão! Mais constrangedor ainda – para eles – é perceber, pela reação do médico-aluno em aceitar a terapêutica do interceptor em detrimento da do professor sem questionamento, é perceber que médicos com este tipo de atitude não são exceção, e que na hierarquia interna, aceitar este tipo de inferência sem o questionamento crítico faz parte do aprendizado dos recém formados.
3. O ENUNCIADO ECONÔMICO SOBRE O CORPO-CONSUMO
Pode-se dizer que a medicina de Estado é completada pela medicina de mercado. A medicina no capitalismo financeiro se transformou em uma espécie de mercadoria especial: com a idéia do Estado mínimo em deixar de ser o provedor dos serviços necessários ao funcionamento de uma cidade, e apenas ser a instância que garante a prestação destes serviços (leia-se privatizações), a saúde também resolveu entrar na jogada. Em Manaus, que é foco da análise da coluna, o gerenciamento e administração direta do serviço médico na rede pública é feita pelas cooperativas. No caso do HUGV, o recursos são repassados via UNISOL, que é uma fundação criada pela própria universidade, para gerenciar os recursos advindos da União. No entanto, este sistema de cooperativas já demonstrou que obedece à lógica de mercado, em detrimento do corpus científico da medicina, ou mesmo do bom senso.
O médico-interceptor tem seu diagnóstico e indicação terapêutica carregados pelo enunciado econômico, sem ter feito a leitura deste enunciado. Por isso ao mesmo tempo em que responsabiliza o SUS (erroneamente) pela falta de material, toma a decisão de não internar paciente que necessita deste procedimento, alegando questões de ordem de gestão financeira. Em seguida, quando confrontado pelo médico-aluno, que contrapôs o seu enunciado ao do médico-professor, o interceptor carrega a força do saber médico para intimidar o aluno, e faz um diagnóstico fora do real. Confusão enunciativa? O resultado não tem nada de confuso: o paciente certamente perderia a função da perna, caso sua acompanhante não questionasse a fala do ‘doutor’.
FIM DA AGONIA?
Da mesma forma os governos que agem em função da contenção de gastos (saúde é gasto?), e delegam a responsabilidade sobre a saúde, que é constitucionalmente sua, a entidades particulares, com fins lucrativos, deixando a população à mercê do saber/poder médico institucionalizado, perdido em meio aos diversos enunciados que atravessam seu corpo, sem que ele tenha chance de compreendê-los.
É necessário que as pessoas que trabalhem a medicina comecem a fazer a leitura de sua realidade social, e de onde estão inseridas, a fim de utilizar estes saberes, que pertencem à comunidade, a fim de enfraquecer esta linha dura do Capital, que pretende os corpos objetos dóceis a serviço do lucro.
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