OFENSIVA DE ISRAEL CONTRA PALESTINOS: “GUERRA JUSTA”, PORQUE GUERRA NÃO HÁ

Algumas pessoas e mídias ligadas ao ciclo da corrupção que desagrega as comunidades, não somente em termos morais, mas também em seus movimentos políticos e jurídicos, gostam de classificar a ofensiva de Israel contra os palestinos como uma guerra. Contudo, não conseguem nem alcançar a compreensão mais limitada de guerra que reside no confronto real ou virtual entre dois corpos divergentes. Algo que não ocorre no caso em questão. Deste modo a ofensiva israelense contra os palestinos não se constitui como uma guerra. Toda a demonstração do poderio militar, tecnológico e midiático israelense, bastantes superiores aos foguetes e pedras e paus com que contam os palestinos, evidencia bem o quanto não há dois países em confronto, mas, isto sim, um país que está liquidando por completo um outro. A quantidade de mortos, esclarecem ainda mais este fato. Do lado de Israel já foram alguns mortos, entre os quais alguns civis. Do lado dos palestinos já são muitos mortos, entre estes muitas crianças, e estes números tendem a crescer. Embora isto, por si próprio, não determine quem possa estar com a verdade.

Outro fato, esclarecedor da inexistência de guerra neste caso, é o quanto Israel está inclinado em celebrar sua luta como um instrumento ético e de limpeza do mal que se instalou no mundo. Isto se configura como uma celebração mítica-religiosa da guerra e logo em sua banalização. A guerra é secular e laica e foi isto que a modernidade tentou revogar da tradição medieval. Clausewitz definia a guerra como “um ato de violência cuja intenção é compelir nosso oponente a realizar nosso desejo“. Paul Virilio, citando o almirante Friedrich Ruge, diz visar a guerra (total) “destruir a honra, a identidade, a própria alma do adversário”. A guerra é uma força destrutiva, devastadora, intensidade orgânica e inorgânica que pretende abater de vez seu adversário, seja o deixando morto ou o escravizando. Ela nada tem de sacralização.

ISRAEL E SUA BELLUM JUSTAM

Mas, ainda que a ofensiva militar de Israel sobre Gaza não possa ser compreendida como uma guerra, um conceito que remonta às antigas ordens imperiais se adequa a esta situação. Bellum justum, guerra justa. Toni Negri e Michel Hardt dizem que, inicilamente, a guerra justa baseia-se, “primordialmente, na idéia de que, quando um Estado se vê diante de uma ameaça de agressão que pode pôr em risco sua integridade territorial ou sua independência política, tem jus ad bellum (direito de ir à guerra)”. Este conceito tradicional de guerra justa conjuga justamente a banalização da guerra e a celebração da luta como um instrumento ético. No entanto, este conceito de bellum justam surge atualmente de outra maneira. Toni Negri e Michel Hardt dizem:

“Longe de apenas repetir noções antigas e medievais, entretanto, o conceito atual apresenta inovações verdadeiramente fundamentais. A guerra justa já não é, em sentido algum, atividade de defesa ou resistência, como era, por exemplo, na tradição cristã de Santo Agostinho aos escolásticos da Contra-Reforma, como necessária à “cidade mundana” para garantir a própria sobrevivência. Ela se tornou uma atividade justificável em si mesma. Dois elementos distintos combinam-se neste conceito de guerra justa: primeiro, a legitimidade do aparelho militar desde que eticamente fundamentado, e segundo a eficácia da ação militar na conquista da ordem e da paz desejadas.”

Por mais que possam existir, ou Israel insista em dizer que seu ataque militar contra a Palestina tenha motivos de defesa de sua soberania, seus interesses estão em ressonância com a ordem capitalística. Senão por que o estado de passividade dos líderes de países envolvidos no Capitalismo Imperial, que insistem em ser ineficazes e anêmicos em suas ações para um cessar-fogo. De outra forma, Israel estaria apenas sendo usada pelo Império.

O IMPÉRIO

Deste modo, a guerra justa é um dos sintomas da ordem estabelecida, ou melhor, da ordem desejada pela subjetividade capitalística imposta pelo império. O conceito de império caracteriza-se por colocar em movimento uma dinâmica ético-política. O império se fudamenta pela ausência de fronteiras. Ele não tem limites e sua temporalidade é posta como eterna. Por esta razão, sua ordem é engendrada com a subjetividade capitalística, pois a sua dinâmica ética-política necessita abarcar os valores universais que foram cristalizados pelo capitalismo. Portanto, há um direito internacional e uma paz universal requisitada pelos países considerados soberanos no atual sistema capitalista. Logo, todos aqueles que não estiverem conscientes de que a “democracia” imposta pela ordem imperial não é a melhor para seu território e seu povo, representam uma radical ameaça. São, portanto, transvestidos de terroristas e perigosos ao equilibrio e plenitude da paz e do direito de todos no planeta. Então o Iraque tem que ser invadido e a ofensiva de Israel contra a Palestina deve ser vista como uma limpeza do mal da Terra. Israel não apresenta um interesse em uma guerra em que a virtude (potência) seja celebrada pelas poiésis marciais e pela força material e imaterial dos homens, ela deseja liquidar os Palestinos, pois este é o inimigo que tem que ser banalizado mundialmente como o que interfere e põe em perigo a ordem e a paz universal.

A FORÇA POLICIAL

A força deve ser evitada no império. Ela, a força, deve surgir como uma esperança. “O império é formado não com base na força, mas com base na capacidade de mostrar a força como algo a serviço do direito e da paz” (Tucídides, Lívio, Tácito, Maquiavel, Negri, Hardt). Bem mais do que um confronto, uma guerra, a força na ordem imperial, é policial. A força policial é que deve assegurar a essencialidade da justiça que garante a paz e os direitos universais. E a força policial deve abranger tudo, dos comportamentos ao erário. Ela deve vigiar, mas também intensificar esta vigilância ao extremo até o controle da regulação de hábitos, costumes e práticas produtivas. Até que o poder passa regular a vida social, acompanhando os detalhes de sua produção. Israel está envolvida nesta rede de regulações da viada social e age como uma espécie de agenciador dessa ordem. Por mais que ele tenha seus interesses particulares de nação, ele já está envolvido na globalização capitalista imperial. Daí Mustapha Barghouthi dizer:

“E eu lerei nos seus jornais, amanhã, que tudo isso não é senão um ataque preventivo, que é somente um direito legítimo, inviolável, de autodefesa. A quarta potência militar do mundo, seus músculos nucleares contra os mísseis de ferro fundido, de papel machê e de desespero. E naturalmente vão me precisar que não se trata de um ataque contra civis e aliás como poderia sê-lo, se os três homens que conversam sobre a Palestina, aqui, no meio da rua, são para as leis israelenses um núcleo de resistência e portanto um grupo ilegal, uma força combatente? se nos documentos oficiais somos marcados como uma entidade inimiga e sem o mínimo freio ético, o câncer de Israel?”

6 thoughts on “OFENSIVA DE ISRAEL CONTRA PALESTINOS: “GUERRA JUSTA”, PORQUE GUERRA NÃO HÁ

  1. E pensar que este mesmo povo que pratica esta carnificina um dia foi também massacrado por um louco. Agora é a vez deles fazerem o mesmo. Querem dizimar a Palestina. Jogam bombas de fragmentação no povo palestino como soltamos foguetes de ano novo. E não adianta falar que isto é uma mentira pois vemos todos os dias na televisão as bombas se fragmentando no ar e espalhando-se como fogos de artifício em cima das cidades palestinas. O ser humano realmente não tem um futuro promissor. Somos todos umas bestas. Tenho nojo.

  2. Companheiro Anônimo,
    o autor deste texto chama-se a Inteligência Coletiva, que perpassou este bloguinho intempestivo e o perpassou enquanto fluxo de dizeres e afetos construtores de novas formas de sentir, perceber e agir.
    Valeu!

  3. Digo para o Eduardo la de cima.
    Este estado de Israel em questão não é o da Bíblia
    Este que ataca os Palestinos é um estado criado pelos EUA
    e Deus nao apoiaria uma coisa dessas!!
    ate mais

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