Dizem que religião não se discute. Lógico que se discute. Embora tenha saído do nome do grito de terror do insólito, a produção do indefinido, o Mana, como escrevem os filósofos Adorno e Horkheimer. Mesmo como neurose de base manifesta como superstição, como afirma Freud, carrega a lógica discursiva da história humana. Ainda mais quando trata-se de uma religião que a mais de dois mil anos se propagou pelo mundo inteiro com a intenção de ser tida como única verdade teológica como o judaísmo/cristão/burguês.

A religião não escapa do pensamento. E sua matéria a ser examinada é seu corpus de doutrina de juízo. É o juízo que fundamenta a religião. É ele que carrega todos os elementos do poder. Está espalhado em todos os territórios e estados de coisas como dominação e denegação do outro tomado inimigo. Sem religião não há juízo/juiz, credor devedor, e poder. Tiremos o juízo desaparece o poder.

O JUÍZO DE DEUS

E disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, os animais selvagens e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. Gênesis 1,26.

Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, diz o livro hebraico. O corpo sagrado literário expõem três enunciados judicativos: Deus, imagem e semelhança e domine. Deus surge como o modelo-juiz. A imagem e semelhança, como cópia. Domine, como avaliação, julgamento e condenação. Nessa teologia forma-se a Essência-Deus-Juiz que confere quem é mais semelhante a Deus. No caso hebraico, os próprios judeus.

O escritor George Orwell em sua obra “A Revolução dos Bichos” escreve: “Todos os Bichos são iguais”. Alguns tornam-se privilegiados. Então, completa-se a frase: “Todos os Bichos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”. Livre comparação, entretanto, com fundamento. Não teria fundamento se todos os povos com suas religiões fossem “mais iguais” em suas próprias culturas. Não exacerbassem suas teologias pretendo que as mesmas sirvam de fator de dominação de outros povos.

DEUS É O ESTADO DE ISRAEL

O filósofo excomungado no século XVII, Spinoza, descendente de judeu, afirma em sua obra “Tratado Teológico-Político” que a Bíblia é um tratado político do Estado hebreu. Carrega todas as segmentaridades pragmáticas da organização, desenvolvimento e defesa do Estado de Israel. Religião e política em ação. Ou, religião como política. A matéria que serve para discussão da investida de Israel em Gaza. Como também para analisar a simulada tendência de se julgar anti-semita qualquer um que comente a posição dos judeus no mundo. Não há anti-semitismo quando se examina a ação do estado de Israel em Gaza, fazendo uso da irracionalidade, prepotência e intervencionismo próprio dos nazistas. Mesmo quando acusa o grupo Hamas. As atitudes da chanceler Livni encontram imagem e semelhança em muitos comandantes imperialistas que exacerbaram e exacerbam suas fantasias como juízos de paz. Nas palavras do filósofo Deleuze, o Juízo de Deus. Nada de ser juiz de si mesmo. Só juiz dos outros. É histórico-cultural: os outros são estrangeiros. Ameaças. O escritor Primo Levi, origem judia, nos convoca à indignação sobre o holocausto. Todos nós somos responsáveis historicamente. É verdade. Como também é verdade que o que acontece em Gaza nos indigna.

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