“LINDÃO”: TARCÍSIO USOU PRIVATIZAÇÃO DA SABESP PARA SE ALIAR A LEITE, INVESTIGADO POR ENVOLVIMENTO COM PCC

0
imageprocessing20240208-2558270-g0h9zw-21215836

MAIS QUE AMIGOS

Entenda como o governador de São Paulo costurou acordo que levou o ex-vereador de volta ao Palácio dos Bandeirantes

00:00

Download

O ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite ao lado do prefeito Ricardo Nunes | Crédito: Marcelo Camargo/Governo de São Paulo

Um evento na Vila Emir, bairro da zona sul de São Paulo (SP), no dia 17 de janeiro de 2024, selou a aliança entre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o então vereador Milton Leite, que presidia a Câmara Municipal da capital paulista. Era a entrega da primeira fase de implantação da Usina Fotovoltaica Flutuante Araucária.

A obra não era o fato mais importante no evento, que tinha uma grande claque de apoiadores de Leite gritando o nome do vereador e o chamando de “lindo”. Quando pegou o microfone, Tarcísio também não hesitou em elogiar o parlamentar.

“Que o Milton é querido, tudo bem, a gente já sabia. Agora, lindão? Mas é o seguinte: eu estava olhando melhor, Milton. Se é para ganhar o coração do Miltão, é lindão mesmo”, afirmou o governador.

Nesta quinta-feira (17), uma operação contra a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no poder público e no sistema de transporte coletivo atingiu o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite e Danilo Morgado (PL), candidato a deputado estadual pelo partido de Flávio Bolsonaro.

Leite teve a prisão decretada e é considerado foragido pela polícia, enquanto Morgado foi preso. Batizada de Vectura Corrupta, a operação busca cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. A ação é realizada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.

A investigação identificou 12 empresas de transporte coletivo que seriam controladas, direta ou indiretamente, pelo PCC. Segundo a Polícia Civil, os elementos reunidos apontam para uma possível infiltração da organização criminosa no sistema de transporte público da capital, com atuação de integrantes e intermediários da facção em empresas e procedimentos licitatórios.

A aliança

Os meses que antecederam o encontro na Vila Emir foram de negociações entre Leite, Tarcísio e o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB). Na pauta, a privatização da Sabesp e as eleições municipais de 2024. O trio não disfarçou que seus interesses pessoais seriam fundamentais para desatar os nós dos assuntos políticos.

A privatização da Sabesp, uma das principais bandeiras da campanha de 2022 de Tarcísio de Freitas, esbarrava em uma cláusula no contrato da estatal com o município de São Paulo. O projeto de venda da empresa de saneamento e fornecimento de água dependia da aprovação da Câmara Municipal. Na posição de presidente da Casa, Leite era o responsável por pautar o plenário e segurava o projeto desde setembro de 2023.

Por outro lado, Leite queria recuperar a influência que teve no Palácio dos Bandeirantes durante os governos de João Doria e Rodrigo Garcia, ambos do PSDB, e participar da escolha do vice na chapa de Ricardo Nunes, que disputaria a reeleição naquele ano.

Meses antes, em outubro de 2023, Leite havia mandado um duro recado para Freitas e Nunes, que trabalhavam pela privatização da Sabesp. “A gente está vendendo a Emae para uma empresa. E estamos vendendo a Sabesp, pelo menos pelo que consigo entender, para uma outra empresa. Veja o antagonismo que nós temos”, disse Leite, que complementou: “O setor empresarial vai ficar maluco com essa situação. Nós não estamos jogando água no chope deles, mas não vamos abrir mão dos direitos da cidade de São Paulo”.

Enquanto usava a privatização da Sabesp para pressionar Nunes e Tarcísio, Leite também jogava com as pretensões do deputado federal Kim Kataguiri, que estava no União Brasil, partido liderado pelo vereador em São Paulo.

Kataguiri pretendia disputar a prefeitura paulistana e Leite usava sua pré-candidatura para ameaçar Nunes, que queria o apoio do União Brasil em São Paulo. O partido tinha sete vereadores e era fundamental para a construção da maioria na Câmara dos Vereadores.

Poder e influência

Além disso, Leite sempre controlou muitos territórios e subprefeituras em São Paulo, o que lhe garantia poder e influência durante os períodos eleitorais. Nunes tinha interesse em trazer para perto o presidente da Câmara e estava disposto a ceder.

Leite conseguiu apoio de Nunes para garantir o vereador Ricardo Teixeira (União) na presidência da Câmara Municipal, mantendo o comando da casa legislativa sob comando de seu partido em São Paulo.

Tarcísio de Freitas garantiu que Leite voltaria a ter influência no Palácio dos Bandeirantes, o que se confirmou com a saída de Gilberto Kassab (PSD) da Casa Civil e a indicação de Arthur Lima, do União Brasil, aliado do ex-vereador.

Após os acordos com Nunes e Tarcísio, Leite tornou célere a tramitação do projeto de privatização da Sabesp na Câmara Municipal e a cláusula que impedia a venda da estatal à iniciativa privada foi derrubada.

A relação se tornou tão estreita que, há 18 dias, durante o lançamento da candidatura dos filhos do ex-vereador, Alexandre Leite, a deputado estadual, e Milton Leite Filho, a deputado federal, Tarcísio elogiou o aliado.

“Assim que nós chegamos em São Paulo, nós fomos abraçados por eles [família Leite], uma parceria enorme, e o tempo todo eu vi a preocupação com as pessoas. Gente que gosta da gente, gente que gosta de vocês”, afirmou Tarcísio de Freitas, que disputa a reeleição para o governo paulista.

Editado por: Rafaella Coury

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.