ENCONTROS CASUAIS

! O blogueiro fez uma pausa nos trabalhos blogais, juntou umas poucas moedas e foi à feira comprar verduras e frutas frescas. Encontrou pela rua um homem juntando objetos jogados. Lembrou que poderia doar-lhe o velho aparelho de som. Ofereceu e o outro aceitou. Enquanto caminhavam até a casa para pegar o aparelho, conversaram. Era um gari que, estando de férias, transformava-se em faz-tudo. Juntara aquela porta de geladeira para botá-la em uma que estava sem porta; contou que já trabalhara catorze anos como cozinheiro, e explanou sua receita de pimentão recheado com pé de galinha. Quando o escritor falou das condições do aparelho, disse que não tinha problema, ele entendia, só aquela manhã já consertara quatro televisões. Como sua televisão estava pifada, o blogueiro interessou-se. Ouviu os detalhes dos consertos que o faz-tudo operara. Convenceu-se. Entregou-lhe a televisão para que consertasse. O faz-tudo prometeu-lhe que a traria daqui a pouco, consertada. Como criara rapidamente uma familiaridade, o blogueiro nem ao menos pediu o endereço do faz-tudo. Sentou-se novamente ao computador, e foi somente ao olhar para o local onde antes estava a televisão que lhe veio a desconfiança: e se o faz-tudo se transformasse também em ladrão. Não. Mas as horas passaram. Chegou a tardinha e nada. Lá pelas 18h resolveu ir procurar. Apenas lembrava que ele fizera referência ao campo de futebol. Andou. Perguntou por um gari que consertava televisão; mas nem sequer o nome sabia. As pessoas estranhavam, algumas riam, outras olhavam-no desconfiadas. Não o encontrou. Sentindo-se logrado, retornou à casa. Perdera uma televisão. Está certo que estava esculhambada, mas era só questão de algum ‘consertinho’.

Àquela noite de quarta para quinta era dia da coluna de contos no blog. Procurava uma situação. Foi tomando uma cerveja que pensou: poque não a história do faz-tudo? Alegrou-se. De repente, o roubo da televisão parecia apenas um leit motiv, como gostam os literofastros. Escreveu até a parte que voltara para casa, mas não conseguia dar um desfecho. Já eram 3h da madrugada, resolveu publicar assim mesmo pela metade. Olhava para o editor do blog e exitava. Enfim, clicou. Como se o clique reverberasse, ouviu uma batida forte na porta. Quem seria? Olhou pelo olho-mágico. Era o faz-tudo, com a televisão no ombro. Assim que a porta foi aberta, ele foi logo contando de como um vizinho seu insistira que aquela televisão era uma sua que havia sido roubada há uns dois meses. Por mais que explicasse a procedência, o vizinho não se convenceu e chamou a polícia, que o fez entregar a televisão, de modo que ele teve que esperar o vizinho dormir para roubá-la e restituí-la. O blogueiro disse que não era necessário fazer isso, que tinha os documentos de compra da televisão e, portanto, poderia reavê-la. Mas ele explicou que não tinha problema, que isto ele já havia feito, apenas de outro jeito. Perguntou ao blogueiro se ele tinha um pouco de miúdo de frango para lhe dar. O blogueiro havia tratado um frango à tarde passada e guardara os restos na geladeira, que iriam ao lixo pela manhã. Ele saiu dizendo que no outro dia viria consertar a televisão e traria para o blogueiro provar as delícias que eram os pimentões recheados com pés de galinha.

O blogueiro ficou pensando se escreveria a continuação do conto; mas resolveu deixá-lo assim mesmo pela metade. Se escrevesse uma continuação, estaria fazendo realismo. Desligou o computador. Deitou-se e se pôs a pensar sobre a relação entre a literatura e a vida e adormeceu.

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