“UMA PÁGINA QUE O BRASIL NÃO VIROU”: ROMARIAS NA AMAZÔNIA LEMBRAM MÁRTIRES DA LUTA CAMPONESA
afinsophia 18/07/2026 0
FÉ E RESISTÊNCIA
Com místicas, celebrações e marchas, as romarias percorrem locais que marcaram a história dos homenageados
- SÃO PAULO (SP)
- LUÍS INDRIUNAS
Diversas romarias têm mobilizado regiões da Amazônia entre junho e julho deste ano para lembrar e refazer o caminho de mártires das lutas no campo, além de denunciar o avanço do agronegócio. Organizadas por movimentos e comunidades, as marchas, cheias de místicas e fé, são realizadas ao longo do ano por todo o país, com o objetivo de defender a vida no planeta.
A homenagem ocorre durante a 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, realizada neste sábado (18) e domingo (19), em Ribeirão Cascalheira (MT), cidade onde o religioso foi morto.

O coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra José Carlos Lima aponta a importância de manter viva a memória dos mártires. “Tem uma causa que é uma causa maior do que a minha existência, do que a sua existência, que é a causa da própria vida, a causa da ‘casa comum’, esse termo que foi incorporado nas últimas décadas, entendendo a Terra como a morada de todos e a necessidade de protegê-la”, explica.
O Brasil registrou 374 assassinatos e 14 massacres no campo entre 2016 e 2025, segundo o relatório “Conflitos no Campo Brasil 2025”, da CPT. No total, foram computados 18.832 conflitos no campo no período, com 9,49 milhões de pessoas envolvidas. Para a entidade, a última década reúne alguns dos episódios mais graves de violência no campo desde a redemocratização.
‘Uma terra sem males’
As romarias acontecem com místicas, celebrações, marchas em locais simbólicos da história dos homenageados, muitas vezes os locais das mortes, mas também é um momento de enfrentamento e da busca pela terra.
“Ela [romaria] tem um lastro bíblico, teológico, na saída do povo de Deus do Egito para a terra prometida, a terra que corre leite e mel. Hoje nós usamos muito o termo de ‘uma terra sem males’. Uma terra livre do agronegócio, livre dos venenos, livre das motosserras, livre daquilo que impede que as comunidades continuem vivas”, explica Lima.

“É um momento de renovação na fé e resistência, de celebração e partilha da vida e fé. Um ato de defesa da ‘casa comum’”, afirma irmã Kátia Webster, que organiza a 19ª edição da Romaria da Floresta, em Anapu (PA), que relembra a luta da irmã Dorothy Stang, assassinada a tiros em 2005.
“Foi um jeitinho do povo dizer que estamos aqui e de pé. Não fugimos e nem vamos embora. Dorothy não foi internada, mas plantada. Somos os brotos. Dorothy Vive.”
A romaria, que começou na quarta-feira (16) e segue até domingo (19), tem entre suas atividades uma caminhada do Centro São Rafael, às margens do Rio Anapu, até o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança, local da morte da missionária. E, como parte da programação, haverá rodas de conversa que vão falar das ameaças ao PDS, que já perdeu mais de 20% de sua floresta, mas também de sonhos compartilhados.
A simbologia da transformação também está presente nessas romarias. Entre os dias 05 a 07 de junho, foi realizada a 11ª Romaria dos Mártires da Floresta, entre Nova Ipixuna e Marabá, no sul do Pará. Foram relembrados José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, assassinados em 2011. Na ocasião, a família de Zé Cláudio e Maria acolheu os romeiros e, juntos, plantaram onze mudas. Cada muda representou uma edição da romaria, “transformando a memória em um gesto concreto de cuidado com o futuro”.

As romarias ocorrem ao longo de todo o ano. No Rio Grande do Sul, por exemplo, uma das quase 50 romarias é marcada tradicionalmente para a terça-feira de Carnaval. Para este ano, ainda estão programadas romarias pelo país.
Na Paraíba, em outubro, a marcha seguirá do sítio onde morou o padre José Comblin, ideólogo da “Teologia da Enxada”, até o assentamento Elizabeth Teixeira, palco da morte de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas, assassinado no final dos anos 60. A área em Sapé se tornou assentamento este ano, após mais de 60 anos de espera.
Em Alagoas, a 37ª Romaria da Terra e das Águas terá como tema “Terra para plantar, casa para morar” e acontecerá na área onde 5 mil famílias sem terra estão há 14 anos esperando o assentamento nas antigas fazendas do Grupo João Lyra, onde funcionavam as Usinas Laginha e Guaxuma.
Assim, unindo memória e luta, as romarias, segundo Lima, trazem “uma energia que brota como semente”. “Cada passo da romaria é expressão de fé que caminha, memória que resiste e luta que floresce nos territórios. É essa energia que brota como semente dessa luta que não morreu, se multiplica e segue gerando frutos. Entre cruzes e caminhos, entre dores e esperanças, um povo segue firme pela vida, pela casa comum e pela justiça climática.”