! Era uma vez uma cidade em que as distorções sócio-econômicas eram tão visivelmente cruéis que ela se mostrava, sem nenhum pudor, na forma de duas realidades de classes. Uma realidade representada por uma classe abastada, sendo a minoria, e outra realidade representada por uma classe pobre, a maioria. Mas era exatamente na época da quadra natalina que estas duas realidades contrastantes tornavam-se mais visíveis. Os ricos a comentavam com entusiasmos os festejos e os presentes a serem distribuídos entre si. Enquanto que os pobres, alheios aos festejos, lembravam apenas do sinal de Cristo. Entretanto, como na cidade rolava a lenda de colocar os sapatos na janela para Papai Noel deixar os presentes, as crianças, tantos as pobres como as ricas esmeravam-se na esperança lúdica que o bom velhinho traria a elas.

Chegada a noite do dia 24, as crianças ricas, depois da abundante ceia, foram dormir alegres, imaginando os presentes que Papai Noel colocaria em seus ricos sapatinhos postados nas janelas. As crianças pobres, que apesar de não terem o que comer na grande noite da família cristã e muito menos sapatinhos para deixarem na janela à espera de Papai Noel, foram dormir esperançosas de acordar e encontrar a maravilhosa surpresa.

Chegada a manhã do Natal, as crianças ricas festejaram com entusiasmo os presentes recebidos. Enquanto as crianças pobres se conformaram com a ausência dos presentes. Entretanto, na manhã do dia 26, as crianças pobres foram surpreendidas com a variedade de brinquedos, roupas e bombons depositados em suas janelas. Aconteceu que estando as crianças ricas, na manhã do dia 25, inebriadas com seus presentes de classe alta, não perceberam que seus sapatos tinham desaparecido das janelas. Obra de um certo Papai Noel que pegara os sapatos, vendera, e como eram caríssimos, todos importados, deu para levantar uma boa quantidade de dinheiro, comprar os objetos da alegria das crianças pobres e distribuí-los até para crianças das cidades vizinhas. E assim, pela primeira vez, todas as crianças desta cidade foram ludicamente felizes. Tudo porque um certo Papai Noel compreendera que Natal verdadeiro é aquele em que o verdadeiro Cristo se mostra homem.

!! Enquanto, pela manhã, membros participantes do Encontro Mundial Sobre Defesa do Meio-Ambiente se dirigiam para o grande centro onde se realizaria o magno debate sobre o destino da terra, animais, vegetais e minerais despertaram conscienciosos. Depois de sentirem e perceberem suas vidas, atraídos pela força subjetivadora irradiada do centro ambientalista, partiram nesta direção. Chegando lá, mantiveram-se distantes ouvindo os discursos e analisando-os. A cada conferência e debates iam percebendo que ninguém entendia de Vida. Uns, apoiados na teoria causa e efeito do filósofo Aristóteles, defendiam que a natureza se movimentava como uma força utilidade/fim. “Tudo que existe e existirá é fruto deste mecanismo”. Outros, amparados por elucubrações teológicas, afirmavam ser a natureza, Deus. E todas as coisas eram saídas de Sua Providência. “Daí porque destruí-la ser uma atentado contra os desígnios Dele”. Todos atribuíram uma causa para existência da Vida. Ninguém sequer mencionou o artifício, a facticidade, não-duração, o acaso. A impossibilidade da comunicação com o ser. Então, eles tiveram a certeza que tudo aquilo não passava de um embuste. Ninguém sabia o que era ambiente, e muito menos o que era natureza. Diante de tamanha fantasia, saltaram sobre todos e os devoraram.

!!! Loucos de amor, saíram à caça. De repente, encontraram-se. Não precisaram palavras. Partiram direto para ao jogo sensual. Nus, atracaram-se com tamanha violência que tornaram-se função chave de fenda e função alicate. Assim, os corpos aprisionados em suas próprias forças, anularam os movimentos pélvicos. Foi então que, fundidos em um só, entenderam a armadilha que caíram. O que era loucura do amor transfigurou-se em tortura do ódio. Então, depois de várias tentativas, conseguiram desvencilhar-se um do outro e partiram correndo pelas ruas urrando ensandecidos.

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