CORONEL DA RESERVA É PROCESSADO POR DENUNCIAR EXÉRCITO NO LIVRO, ‘LEIS DA ÉPOCA DA DITADURA, DO AI-5’

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REALIDADE E FICÇÃO

‘Diários da caserna: Dossiê Smart’ traz elementos da realidade em um romance que expõe a corrupção nas Forças Armadas

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O coronel da reserva Rubnes Pierrotti Jr, autor do livro Diários da caserna: Dossiê Smart, que une ficção e realidade para denunciar corrupção e má gestão no Exército brasileiro. | Crédito: Rafael Lima Fotografia

O livro Diários da caserna: Dossiê Smart, de autoria do coronel da reserva Rubens Pierrotti Jr., une ficção e realidade em uma narrativa que denuncia corrupção e má gestão no Exército brasileiro. Por causa da obra, Pierrotti está sofrendo dois processos na Justiça Militar.

Ao BdF Entrevistao coronel da reserva conta que o protagonista é seu alter ego e que a ideia do livro surgiu a partir de uma série de entrevistas concedidas ao El Pais sobre um suposto esquema de corrupção e fraude em licitação envolvendo uma negociação internacional do Exército. “Isso foi a inspiração, o fio narrativo para o livro. E o livro vai contando duas histórias, vai contando as dificuldades que o protagonista Batalha tem, que é uma pessoa, um personagem que é bastante íntegro, que sofre pressões, sofre assédio moral, luta contra todo um sistema. Então, é um personagem que sofre bastante ali e paralelamente o casamento dele que que vai sofrendo com isso tudo também”, resume. “Existe uma sincronia fatal entre a vida profissional e pessoal do personagem.”

Pierrotti revela que o livro caminha em uma linha tênue entre ficção e realidade, mas que a denúncia de corrupção e improbidade administrativa dentro das Forças Armadas, objeto da trama que envolve o personagem, realmente existiu. “O TCU chegou a investigar esse caso. Os técnicos produziram um relatório de 250 páginas que continham detalhes de uma investigação de três anos. Nesse relatório, eles apontam diversas irregularidades. E tem uma frase que eles colocam depois de cada irregularidade que eles identificaram no projeto do simulador de apoio de fogo, que se repete como um mantra: ‘Que o responsável foi chamado, não conseguiu justificar essa atitude incorreta’ e, no final, os técnicos do TCU, eles recomendaram a interrogar mais pessoas e já estavam recomendando que os responsáveis fossem sancionados com multa”, explica.

O coronel da reserva afirma que, apesar dos dois processos que enfrenta no momento — um de crítica indevida e o segundo de ofensa às Forças Armadas —, ele recebeu apoio de colegas. Também está sendo debatida a situação de Pierrotti no Conselho de Justificação, que é o Tribunal de Honra, que visa declará-lo indigno para o oficialato e caçar a aposentadoria. “São leis da época da ditadura militar, da época do AI-5“, dispara.

Pierrotti conta que vem sendo perseguido por falar sobre fatos, como o golpe de 8 de janeiro, que já restaram comprovados e denuncia que a situação, além de juridicamente insustentável, é uma injustiça. “Os fatos [usados de inspiração e citados no livro] são todos verídicos. Já foram investigados pela Polícia Federal, constaram da denúncia do procurador-geral da República. Militares foram condenados em diversas tramas golpistas. Então, assim, a primeira coisa que me impressiona é farta quantidade de provas”, critica.

O processo no Tribunal de Honra diz respeito à declaração do coronel sobre uma “doutrinação de direita nas escolas militares”. “Em 2014, o deputado Jair Bolsonaro foi à formatura dos cadetes, aspirantes oficiais, novos oficiais do Exército brasileiro na Academia Militar das Agulhas Negras. E aí foi quando ele lançou a candidatura à presidência dentro de um quartel do Exército, o que é proibido. Ele vai ao encontro dos cadetes e diz: ‘Olha, eu estou disposto a dar uma guinada para a direita nesse país’. Os cadetes, em coro, chamaram de líder. Essa manifestação, ela não é um indício, ela tem um viés doutrinário bastante à direita”, aponta.

O coronel espera que seu livro deixe como legado a necessidade de aperfeiçoar as instituições. “A gente quer que as Forças Armadas sejam compatíveis com a dimensão do nosso país, e que não se voltem contra o povo. E que militares não estejam mais envolvidos nessas aventuras de golpe de Estado”, conclui.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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