Por tal, preclaros esnobes, os saberes do homem são suas idéias e seus objetos constituídos como espírito histórico-social. Nasceram, e fluem, de suas experiências perceptivas e suas codificações cognitivas no mundo como inteligência coletiva. O encadeamento comunitário, lingüístico, político, econômico, artístico, religioso, etc, movimentado como cartografia de desejos (Guattari) produtores da contínua poiésis comunalidade. Como diz o filósofo Nietzsche: Cultura. Potência/linhas comunicacionais transportadoras de elementos mutantes. O mundo em processual. A subjetivação coletiva. Saberes e dizeres de todos. Entretanto, preclaros esnobes, com as transfigurações históricas e suas forças prevalecentes, figuradas como motor social da classe dominante, o território dos saberes e dizeres coletivos foi substituído pelos estados monárquicos/burgueses emergentes com seus modelos de captura, seleção, classificação e hierarquização. Úteis como instrumentos para transformação destes saberes de todos em saberes absolutos (Hegel) do poder político/jurídico. A imagem do pensamento do estado. Conteúdo programático/pragmático importante para sedimentação das faculdades do sujeito: o conhecimento oficial. Adquirido somente nos ritos das enunciações escolares destes ensinamentos oficiais. Órgãos emissores da lei e da voz do estado. Amor do censor (Legendre). O poder criador e outorgante da autoridade. O agente propagador e defensor da enunciação jurídica-epistemológica da imagem do pensamento do estado. O profissional concebido-consentido com direito legal ao exercício da propagação destes saberes: dizeres ressonantes do estado.

Tomados pelo estado-capitalista-burguês, caro preclaros, estes saberes se fortaleceram como moeda de troca-vaidosa: “Eu te propago e tu me concedes a segurança e o reconhecimento”. Aí a ocultação dos saberes/comunalidade sob a ilusão dos saberes/propriedades: “Meu diploma é o resultado do meu esforço. Portanto, me pertence. Faço dele a prática de sua essência: vendo”. Nisso o fracasso da práxis profissional/comunalidade. Nisso a falsificação do trabalho como potência social. Ágalma (superfície, capa, sem conteúdo) do trabalho criador, preclaros.

A PARADA
Pois bem, caros preclaros, circulando na ordem familial do desejo recorrente (meu filho, você pode ser tudo, conquanto que…), distantes dos enunciados Freud/Lacan, sobre o espectro da dívida/culpa/redenção=pais (mate-se uma criança: o destino do nome), formandos do curso de medicina da universidade privada Nilton Lins, efusivos, com o intuito de mostrar ao público de Manaus seu vitorioso feito no ensino de mercado, e ganhar seu reconhecimento, fizeram uso da boneca da sociedade de consumo: o marketing. Sujeitados na enunciação-capitalista-familial (confusão/fusão afetiva/cognitiva: dificuldade de escolha autônoma reflexiva: posição pré-lógica), postaram-se em outdoor (propagação de mercadorias ao ar livre) nas ruas de Manaus e em textos midiáticos. Ledo engano: saltou ao público a antimedicina. Ledo engano produzido também pela alienação profissional de seus mestres em não poderem lhes ensinar ser a medicina, na sociedade dos amigos (democracia), a potência ética/afetiva/científica das prática coletivas, só realizada pelo saber, serenidade e solidariedade. Prescindindo a vaidade e o reconhecimento. Signos da insegurança burguesa. Berço do individualismo e da exclusão. Como modo de ser da sociedade dos amigos, a medicina nasceu e atualiza-se na co-vivência médico-sujeito/cognoscente: saberes e paciente-sujeito-cosgnoscível: sintomas. Por isso, preclaros, sem o saber: signos/epistemológicos necessários ao estudo além dos sintomas; a serenidade: posição atenciosa necessária ao discernimento do patológico e o não patológico; e a solidariedade: comprometimento social, fundamento da saúde coletiva, não existe medicina. Mas somente a simulação hipocrática, nociva à comunidade. Assim, não há como perceber o paciente como transportador de saberes (sintomas) só atualizados na aliança/simpática/empática com o médico/medicina, atributo ético da profissão hipocrática, não sujeitado ao blefe dos saberes propriedade privada da medicina mercadoria construída no orgulho (idéia superior que um alguém tem de si, além do que é) e na vaidade (idéia de se distinguir como superior ao outro por medo fantasioso). Alienação, preclaros, visibilizada no desconhecimento da política de saúde pública. Principalmente na estrutura, ação e objetivo do Serviço Único de Saúde-SUS, órgão político/social/médico do Estado, voltado à socialização do atendimento público.

Todavia, nobilíssimos preclaros, infelizmente, esta realidade socialmente deprimente não é privilégio apenas dos freqüentadores e egressos das universidades privadas, é também da maioria dos estudantes das universidades públicas e médicos daí saídos. Razão da perversa realidade médica do estado do Amazonas. E porque não do Brasil, preclaros? Que loucura, nobilíssimos e caros preclaros!

BALADA DO SUCESSO FAMILIAL

Papai, eu vou à luta

Mas levo as mãos limpas

Valeram as lições que o senhor me ensinou

E aprendi, graças a Deus.

Valeu ter o seu nome

E a escola particular

Aquele quinze e o carrão que eu ganhei

Quando enfim eu terminei

O segundo grau.

Mas papai, tenho um segredo

E devo confessar: eu sonhava seu sonho

Muito antes de passar no santo vestibular.

Papai, eu não podia

Cursar a faculdade

Que eu tanto queria sem matar a sua realidade.

Agora estou formada(o) e muito bem casada(o)

Por isso lhe agradeço de todo coração

Segura, vou dormir protegida(o) pela Globo

Nossa máxima oração.

2 pensamentos sobre “OS CAMINHOS CONHECIMENTO IMÓVEL

  1. Não conheço Manaus, nunca tinha ouvido falar da faculdade Nilton Lins nem afins, sou a propósito cirurgiã cardiovascular formada pela USP mas vou lhe dizer uma coisa… é nojento o que você faz por aqui.
    Aqui não há filosofia alguma. E a cidadania aqui anunciada é seu avesso. Não há didatismo algum no escárnio, no aviltamento, no pretenso alerta à sociedade, visivelmente motivado por benefícios/prejuízos pessoais.
    Com essa sua filosofia auto-didática, essa semiologia teórica e equivocada, com seus conceitos ralos que se limitam a parafrasear gênios somente compreendidos por você certamente após a wikipédia, com tão pouco, você precisará cumprir antes uma estrada longa: ser aprovado numa universidade de medicina, de preferência pública uma vez que as particulares não servem para nada segundo suas palavras, lograr-se médico, ser aprovado em residência, e após 4 a 6 anos de residência, só então equivaler em méritos ao ortopedista que você está denegrindo.
    Após portanto 12 anos de estudo depois do 2º grau, recebendo 300 reais de salário, sendo obrigado a fazer greves para garantir honorários dignos, exigir melhores condições de trabalho e reconhecimento do valor do seu trabalho; atuando em hospitais miseráveis, sem medicações, sem instrumentos cirúrgicos, sem materiais de curativo, você, lá naquela salinha do ortopedista, sabendo que quando você prescrevesse um gesso funcionários corruptos tentariam vender o que é garantido pelo SUS, você tendo saído de um trabalho para outro, pelo menos 2 plantões de 24h semanais, lidando com pessoas em sua grande maioria hostis, equivocadas, levadas pela mídia e pelo próprio Estado a culpar os profissionais de saúde pelo caos instalado, quando você conseguir estar no lugar desse médico só então poderá emitir opinões que não soem tão levianas quanto tudo o mais por aqui.
    A Medicina por hora não lhe cabe.

  2. (O replay do replay)
    Companheira Heloísa,
    Valeu, e parabéns, nem a sua homônima, Heloísa Helena, que é não é Ramos, mas é do ramo, teve este saque.
    Se a medicina a você se reduz ao vil metal, e a perna ao pessoal, para nós ela escapa e transborda. Se o caso é titular, em nossa associação também temos médicos, que inclusive estão em greve neste momento por melhores salários e condições de trabalho.
    Quanto à USP e a pretensa superioridade das públicas em relação às particulares, não se preocupe: a USP também tem os seus Strotskis e Sérgios.
    Volte sempre!

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