DESUMANIZAÇÃO E HUMANITARISMO NA FAIXA DE GAZA

“Se um indivíduo morre, sua morte é um acontecimento considerável, enquanto que se mil indivíduos morrem, a morte de cada um é mil vezes menos importante.” (Jean Baudrillard)

Não é que a comunidade internacional ignore a tragédia em Gaza, é que o Ocidente nada pode fazer com sua ausência de valores. Nos últimos tempos, não houve cenas mais patéticas do que o moribundo João Paulo II e a ONU se posicionando contra o massacre americano no Iraque. A nossa piedade impotente com os palestinos não se apresenta nem como “princípio de ação nem de liberdade”. Desde a Guerra do Golfo, depois Bósnia, Afeganistão, Iraque…, Palestina, assistimos pela televisão os últimos alvos atingidos, vemos amontoar-se não os milhares de cadáveres, mas sua numeração estatística, tudo se passando em TV a cabo, sinal aberto, internet, nas salas em meio à falsa crise de toda a Europa, nos guetos americanos, em Wall Street, nas favelas do Brasil. Não há os palestinos na tela total do monitor, não há sequer israelenses. Ao contrário, é nesses locais onde existe o que o filósofo Jean Baudrillard chama de “últimas reservas de sentido”. É lá que as coisas são reais, para além da realidade objetiva, essa que causa piedade, mas como ação e como destino.

Todos esses “corredores” que abrimos para lhes enviar nossos víveres e nossa cultura são na verdade corredores de aflição por onde importamos as forças vivas e a energia da infelicidade dos outros.”

Todos sabemos o que está acontecendo e vemos o número de mortos avolumar-se dia-a-dia: 90, 150, 200, mais de 300 mil mortos. Já que a metade da população palestina é composta de crianças e adolescentes, quantos cadáveres de “inocentes”? Apenas detalhes; e detalhes como esse servem para aumentar ainda mais a covardia globalitarizada, que se torna consenso em unanimidade na ordem “democrática” mundial. É que os microfascismos cotidianos, como diria Michel Foucault, estão na mesma linha do terrorismo de Estado. Não os judeus, mas existe um pequeno Estado judeu por toda a parte do mundo onde se instauraram suas sagradas leis, inclusive no Cristianismo.

O totalitarismo de Hitler é obsoleto perto do totalitarismo praticado pelo Estado judaico. Hitler era totalitário, mas numa velha ordem hierárquica de força e relações, mas não conseguia a manipulação dos regimes de signos que o Estado judaico consegue universalizar. O arremesso de mísseis e o ataque de tanques e soldados contra palestinos com pedras e pedaços de pau é apenas outro detalhe. A dominação já se estabeleceu em outra ordem, em outro lugar: por todo o mundo ocidental.

Assim como os bósnios, os palestinos sabem que estão “condenados pela ordem ‘democrática’ internacional”. Quanto mais proliferam os discursos sobre “democracia”, parece que mais a democracia se degrada. Para acontecimentos radicais assim, diria Baudrillard, é preciso uma análise radical, que, talvez não mude a ordem das coisas, mas também não compactua com a desumanização, o que só é possível fazendo a distinção fundamental entre humanismo e humanitarismo:

Eis toda a diferença entre o humanitário e o humanismo. Este era um sistema de valores fortes, atrelado ao conceito de gênero humano, com sua filosofia e sua moral, caracterizando uma história em construção. Enquanto o humanitário é um sistema de valores fracos, ligado à salvaguarda da espécie humana ameaçada característica de uma história em desconstrução — sem outra perspectiva que a, negativa, da administração com aproveitamento ótimo dos dejetos, os quais, como sabemos, não se degradam.”

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