Historicamente as empresas de sondagem de opinião pública surgiram no momento em que a sociologia se concretizou como ciência social capaz de afirmar a realidade do social pelo social. A existência da sociedade é provada através dos fatos resultantes das relações sociais responsáveis pela objetivação dos desejos das classes sociais, afirma a física social de Auguste Comte. Quer dizer: a sociedade é real. Nada de evanescência continua do mundo. Para ela, o social é tão real quanto é verdadeira a frase do teatrólogo Jean Vilar: “O teatro é uma fatia da vida”. O que, para Brecht, não é.

Com a certeza de que a realidade social é visível e, assim, possível de demonstração, as empresas de sondagem de opinião se muniram de regras estatísticas e se auto-nomearam capazes de se apossar da cognição e vontade da população, e formar um mapa demonstrativo de como sua opinião é direcionada em um dado momento, de acordo com as perspectivas de seu Eu-Social Real. Munidas destes elementos, passou a oferecer seus poderes às empresas que necessitavam, no mercado capitalista, colocar determinado produto à venda. Para difundir mais seu imaginário poder, não percebeu que suas sondagens de opinião estavam cada vez mais se comprometendo com os interesses de seus contratantes, seus clientes, mais um real social. A “cientificidade infalível”vendida por elas passou a interessar também a órgãos públicos. Foi seu grande achado. Agora sua irrefutável sapiência e importância social se consagrava.

Com poderes espalhados no social, da ilusão sociológica, elas se tornaram, então, objeto imprescindível para os partidos políticos. Assim surgiram os “IBOPEs”. Com eles, as ilusões dos candidatos e, acima de tudo, suas possíveis manipulações eleitorais: trapaças. No Brasil existem quatro empresas diretamente ligadas a estas pesquisas de opinião pública. A Vox Populi, a Sensus, o Data Folha, e o tal IBOPE. Cada uma tem seu método de pesquisa. Cada uma tem com o público seu status de seriedade científica e comprometimento social. Entre as quatro, a que mais o pública descrer é o IBOPE. Não é para menos. O próprio instituto de opinião pública se responsabilizou por criar esta opinião na população. Alguns casos de pesquisa não correspondentes aos seus objetivos sociais aconteceram. O caso Brizola, em que mostrava o gaúcho derrotado em um pleito, para depois surgir eleito. Denúncias de pesquisas encomendadas, principalmente por candidatos de grande poder financeiro, entre outras.

A TV AMAZONAS, O IBOPE E AMAZONINO

A TV Amazonas, retransmissora da Globo em Manaus, publicou uma pesquisa de opinião dos eleitores sobre os candidatos a prefeito encomendada ao IBOPE — talvez por força do hábito de servir aos anseios de sua matriz. Na dita pesquisa, o candidato Amazonino aparece com mais de 50% de intenção de votos, os outros ficam apenas como os outros: juntos não formam nenhuma ameaça ao vitorioso. Vitorioso, que em eleição passada, o vidente IBOPE afirmara que seria eleito com margem semelhante, mas no contar dos votos amargou a falsa premonição ibopiana: perdeu para Serafim. Até mesmo o candidato do governador, que é ideologicamente parecido com o campeão do IBOPE, teve um pífio percentual. Entretanto, não é o resultado da pesquisa que chama atenção, por isso o público já conhece e sabe que é tudo o contrário. O que chama atenção são dois humores que saltam debochadamente.

1 – Na pesquisa também foi sondada a opinião do eleitor sobre o governo Eduardo Braga. O governador, no todo, aparece com aproveitamento muito melhor que Amazonino. Daí saltam duas perguntas: por quê o governador não consegue passar ao seu candidato Omar, o otimismo dos eleitores que lhe concedem tamanho aproveitamento? Será incompetência de cabo eleitoral oficial ou será que seus eleitores o consideram parecido com Amazonino, por isso preferem o campeão do IBOPE?

2 – Se a pesquisa era de sondagem de opinião do eleitor sobre o candidato que pretende votar, por que a TV Amazonas contratou, na mesma pesquisa, sondagem sobre o governo do candidato à reeleição, Serafim, que o mostra em péssima posição para o eleitor? Nos parece que isto é uma forma insinuante de fazer propaganda contra o prefeito em benefício do candidato do IBOPE. A pesquisa era de sondagem de opinião sobre os candidatos, e não sobre o governo Serafim. Se era para fazer tal pesquisa, que fosse feita em outra ocasião. Não temos nenhuma ligação com a candidatura Serafim, mas acreditamos que a posição da TV Amazonas é antidemocrática. Apresenta tendência a influir na opinião do eleitor. E isso não é direito de um veículo de comunicação, que é uma concessão pública com obrigação de prestar serviço à comunidade, e não contra ela. Essa é opinião real de eleitores que assistiram à trapaça eleitoral e conversaram conosco. Houve até quem nos sugerisse recorrer ao Ministério Público, fato que acreditamos ser mais da competência do PSB, partido do prefeito.

No mais, se já não fosse o histórico do IBOPE como oráculo benfeitor de Amazonino, só este ato da TV Amazonas, contra o candidato Serafim, coloca o resultado da pesquisa sob suspeição.

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