1° ENCONTRO NACIONAL DE AGENTES POPULARES DEBATE REMUNERAÇÃO DO TRABALHO COMUNITÁRIO E DISPUTA TERRITORIAL
afinsophia 06/06/2026 0
RESISTÊNCIA
Reunidos em Brasília, mais de mil militantes de 22 estados defendem cozinhas solidárias e atuação nas periferias
- BRASÍLIA (DF)
- KENNEDY CRUZ
O Parque de Exposições da Granja do Torto, em Brasília, sedia desde sexta-feira (5) o 1º Encontro Nacional de Agentes Populares. A atividade vai até este domingo (7) e reúne cerca de mil militantes de 22 estados brasileiros para fazer um balanço das experiências de solidariedade iniciadas durante a pandemia e discutir os próximos passos da organização popular nos territórios periféricos.
A principal mesa política do encontro, realizada neste sábado (6), teve como tema Os agentes populares construindo os territórios para transformar o Brasil e contou com a participação de Rogério Babau e Eliane Martins, da coordenação nacional do Movimento Brasil Popular (MBP). O debate girou em torno da consolidação dos Centros Populares de Solidariedade (CPS), da disputa ideológica nas periferias e da defesa da remuneração do trabalho comunitário.
Babau afirmou que o encontro é resultado de uma construção política iniciada há quatro anos para fortalecer a organização popular nos territórios. “Nós tomamos uma decisão política de construir um movimento de massas, com mulheres, juventude, artistas e povo negro sendo protagonistas da própria história. Não dava mais para ser um movimento só de intelectuais e companheiros letrados. A periferia precisava virar sujeito político”, declarou.
O dirigente também criticou o avanço do bolsonarismo nas periferias e defendeu a disputa ideológica nos territórios populares. “Quem tá na periferia sabe que existe disputa todos os dias. O inimigo avançou de forma violenta no nosso continente e se aliou ao pior que tem no Brasil, que é o bolsonarismo. Esses caras querem acabar com os direitos trabalhistas, com o SUS e retirar o presidente Lula. A nossa tarefa é disputar cada quebrada e organizar o povo”, afirmou.
Formação e disputa
Durante sua fala, Babau também destacou a importância da formação acadêmica e técnica como ferramenta de enfrentamento às desigualdades estruturais. O coordenador relembrou sua trajetória pessoal de alfabetização tardia até o doutorado.
“Os playboys estão ocupando as nossas universidades públicas enquanto o povo trabalhador continua sendo empurrado para fora. Por isso que a gente não vê o rosto preto do advogado, da psicóloga, da assistência social, do engenheiro. Essas vagas são nossas. Tem que estudar e se qualificar”, defendeu.
Ao apresentar os Centros Populares de Solidariedade, ele afirmou que a proposta surge como evolução das cozinhas comunitárias organizadas durante a pandemia.
“O Centro Popular de Solidariedade vai ser a nossa igreja. O inimigo colocou em cada favela uma igreja para alienar o nosso povo e vender a fé. Do outro lado existe um estado paralelo em cada boca de fumo. E nós temos os centros populares através das nossas cozinhas para que o povo se sinta ouvido”, completou.

Na sequência do debate, Eliane Martins defendeu a ampliação do programa de agentes populares e a criação de políticas públicas voltadas à remuneração do trabalho comunitário realizado nas periferias.
“Nós mulheres trabalhamos a vida inteira gratuitamente cuidando da força de trabalho que o capitalismo explora. Fazemos isso no amor, mas isso é trabalho. É uma vida inteira de trabalho que precisa ser reconhecida como tarefa social”, afirmou.
A dirigente destacou o papel das cozinhas solidárias e das hortas comunitárias no cuidado coletivo dos territórios. “Nós trabalhamos horas e horas para servir 200, 300, 400 quentinhas. Horas preparando, limpando, cortando, cozinhando e servindo. Isso é um dia inteiro de trabalho. Nós temos que cobrar do Estado brasileiro uma política pública que remunere essa jornada de trabalho”, declarou.
Eliane Martins também criticou a exclusão da população periférica do mercado formal de trabalho. “O sistema capitalista descarta milhares de pessoas e diz que elas não são produtivas. Nós estamos falando dessa mão de obra que não será incorporada pelo quadro clássico do assalariamento. Por isso precisamos construir economia popular e solidária para que ninguém fique para trás”, ressaltou.
‘O povo precisa se organizar’
Ao abordar a identidade dos agentes populares, ela afirmou que a militância nasce da sensibilidade diante das desigualdades sociais. “Agente popular é alguém que não sucumbiu ao egoísmo. É uma pessoa que olha para o sofrimento do outro e se incomoda. É alguém que abraça uma causa e entende que não dá para mudar a realidade sozinho”, disse.
Eliane Martins também afirmou que os movimentos populares precisam pressionar o governo por transformações estruturais. “O Lula ama o povo brasileiro, mas vive sob pressão. E a nossa pressão acontece quando a gente faz movimento e faz luta. Não adianta esperar milagre. O povo precisa se organizar”, declarou.
Em um dos momentos mais aplaudidos da mesa, ela relacionou as desigualdades atuais à herança escravocrata brasileira. “O nosso país tem feridas abertas no racismo e no trabalho braçal desvalorizado. E só quem vai curar as feridas do Brasil é o povo brasileiro quando se organizar e disser que esse país é nosso”, afirmou.

Territórios e fortalecimento das redes
Para além do debate, o encontro reuniu experiências de diversas frentes de atuação popular, como saúde, cultura, educação, alimentação e economia solidária.
Ana Carolina Vasconcelos, da coordenação nacional do Movimento Brasil Popular, explicou que o encontro também serve para sistematizar os aprendizados acumulados ao longo dos últimos anos.
“Muitas vezes o povo é visto apenas como usuário da política pública. Mas a gente acredita que essas pessoas precisam ser agentes conscientes do processo de construção dos territórios. É uma ferramenta de participação popular para pensar qual projeto de Brasil queremos para o futuro”, pontuou.

Da coordenação nacional do movimento em São Paulo, Davi Martins destacou que o encontro buscou construir um horizonte comum de atuação nas periferias. “O primeiro objetivo é partilhar as experiências que os agentes populares têm desenvolvido em mais de 20 estados e construir um horizonte comum de luta e organização da classe trabalhadora nos territórios”, afirmou.
Ele também ressaltou o caráter político do trabalho comunitário realizado majoritariamente por mulheres nas periferias. “Essa classe trabalhadora organizada nas periferias precisa entender que, além desse trabalho comunitário incrível, existe uma agenda política de fortalecimento da organização popular, do acesso a direitos e da construção da democracia no país”, disse.
Militante do Ceará, que atua em cozinhas populares, Cinthiane Nascimento afirmou que o encontro fortalece a articulação entre os territórios e amplia o reconhecimento do trabalho desenvolvido pelas redes comunitárias. “É muito importante fazer esse reconhecimento dentro dos territórios, com as nossas cozinhas e o povo da cultura. A gente volta mais fortalecido para expandir essas redes populares em todos os estados”, declarou.
De Porto Alegre (RS), Adriana Correa de Farias, coordenadora de uma cozinha popular no bairro Cristal, destacou o papel dos agentes populares como referência de diálogo dentro das comunidades. “Cada agente popular conversa com a comunidade, explica o que é ser agente popular e fortalece a nossa luta dentro dos territórios. Esse encontro ajuda a dar mais visibilidade para o trabalho que já acontece na saúde, na cultura e na alimentação”, afirmou.
‘O Brasil de fato representado’
Participantes também destacaram o simbolismo político de reunir representantes de diferentes regiões do país na capital federal. “Eu acho que a justiça precisa se popularizar. Nós precisamos do povo realmente representado. É uma experiência muito rica estar aqui com o povo do Brasil todo. É o Brasil de fato representado com o povo trabalhador”, afirmou Elsa Russo, de Belo Horizonte (MG).

O encontro também homenageou figuras históricas da organização popular, como Ronaldo Maranhão, o “Ronaldão”, falecido recentemente e lembrado como um dos articuladores fundamentais das ações de solidariedade durante a pandemia.
Ao longo dos três dias, o encontro conta com oficinas auto-organizadas, debates políticos, atividades culturais e plenárias. A programação encerra neste domingo (7), com a definição das pautas que devem orientar os próximos passos do Movimento Brasil Popular na organização dos territórios periféricos e na ampliação das redes de solidariedade popular pelo país.
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