A ESQUERDA MUNDIAL SAI FORTALECIDA NO REFERENDO BOLIVIANO

“Nosso compromisso é com a Bolívia, é com todos os revolucionários do mundo. É um compromisso de seguir dignificando a todos os bolivianos e bolivianas. Hoje ficou provado que a Bolívia luta primeiro por sua dignidade, por sua identidade. Esperamos que essa vontade tão espontânea e soberana seja escutada por alguns setores opositores, para que juntos possamos trabalhar pela dignidade, igualdade e unidade de todo o país” (Trecho do discurso de Evo Morales, ontem, 10/08/2008, em La Paz).
Informes preliminares e ainda não oficiais (aqui e aqui) indicam que o presidente Evo Morales foi aclamado no referendo revogatório realizado neste domingo. Os números da boca-de-urna dão uma vitória entre 60 e 63% dos votos, mais de 7% acima da votação que elegeu o presidente cocalero.
Além da confirmação do mandato de Evo, a direita ressentida pode sofrer outras derrotas no referendo. Os governadores de Cochabamba, La Paz e Oruro, que defendem os interesses da alcunhada elite boliviana, perderam seus mandatos. Serão confirmados no cargo os governadores de Potosí, Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija.
O referendo revogatório foi convocado por Evo Morales em maio deste ano, após tensões separatistas advindas dos Estados onde o desenvolvimento econômico predatório criou grupelhos dependentes economicamente dos EUA, e que exploram o próprio país. Santa Cruz é a cidade onde a oposição e a violência discriminatória contra os descendentes dos povos nativos da região é mais intensa.
As tensões separatistas aumentaram após a promulgação da nova constituição do país. Os Departamentos (como são chamados os Estados na Bolívia) de Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija ameaçaram não respeitar a Carta Magna, e chegaram a promover referendos ilegais para tentar legitimar uma pretensa autonomia política, que foi rechaçada pela comunidade internacional, à exceção, é claro, dos EUA.
De acordo com a lei que regulamentou o referendo, aceita por todos, os governadores derrotados devem deixar o cargo, e caso o presidente fosse também derrotado, deveria-se fazer novas eleições.
As tensões pré-referendo foram intensas, a imprensa local multiplicou factóides e tentou boicotar o referendo, principalmente depois que pesquisas divulgadas mostraram a vitória de Evo. O Ministro da Presidência da Bolívia, Juan Ramón Quintana chegou a denunciar, no último dia 07, um clima generalizado de golpe de Estado, provocado por prefeitos de cidades opositoras, que pretenderiam não respeitar o referendo e tomar o governo pela força. Atos de violência étnica são a marca da direita boliviana, notadamente descendente dos mesmos europeus que dizimaram e exploraram por séculos o ainda riquíssimo país andino.
“A BOLÍVIA NÃO EXISTE” ANTECEDEU O “PORQUE NÃO TE CALAS?”
No instigante livro As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano descreve o falso esplendor da cidade de Potosí, onde, diziam, bastava cavar para encontrar prata. Durante séculos, a prata dali retirada a peso da morte de milhões de nativos foi a fonte de riqueza da Europa.
Já no século XX, outro metal despertou a cobiça internacional e os olhares para a Bolívia: o estanho. Em 1952, quando o país estatizou as minas do metal, a expropriação estrangeira (EUA e Inglaterra) já tinham diminuído as reservas em mais de 120 vezes. E mesmo estatizada, ela não serviu para distribuir a renda e a riqueza do subsolo boliviano. Sem o estanho das minas bolivianas, Andy Warhol jamais teria pintado o seu famoso quadro da Sopa Campbell, simplesmente porque a lata de estanho, símbolo da modernidade e do mercado de consumo no século XX, não existiria sem o sacrifício dos mineiros nativos, que mascavam folha de coca para enganar a fome e a exaustão.
Outro mineral, o salitre, potente fertilizante que impulsiona o agronegócio estadunidense e europeu, no final do século XIX, desencadeou a Guerra do Pacífico, que deixou a Bolívia sem saída para o Oceano Pacífico e com ressentimentos com Peru e Chile, os quais ainda perduram, apesar da aproximação entre os governos de Evo e Bachelet. O estanho, cuja maior mina ficava em Oruro, sem passar pelo processo de fundição tem valor baixíssimo. Evidentemente, este processo não se fazia na Bolívia, e muito menos pertencia ao governo do país.
Galeano conta ainda uma anedota do século XIX, que ilustra bem qual a imagem que os países desenvolvidos, até pouco tempo atrás, tinham da América Latina:
“Contam que, um século atrás [o livro foi escrito em 1976], o ditador [boliviano] Mariano Melgarejo obrigou o embaixador da Inglaterra a beber um barril inteiro de chocolate, em castigo por ter desprezado um copo de chicha. O embaixador foi exibido num burro, montado ao contrário, pela principal rua de La Paz. E foi devolvido a Londres. Dizem que então a rainha Vitória, enfurecida, pediu um mapa da América do Sul, riscou uma cruz sobre a Bolívia e sentenciou: ‘Bolívia não existe‘”.
Mais de um século depois, um Rei espanhol, coroado por uma das mais sangrentas ditaduras da história da Europa, pergunta ao cafuso insolente: “Por que não te calas?”.
Com a ascensão econômica de países como o Brasil e a Venezuela, já não é mais possível que rainhas tenham um surto de síndrome de Deus e decretem a inexistência de um país. Talvez por isso, o sentimento do rei espanhol tenha sido mais de estupefação que de arrogância. As condições econômicas não são mais favoráveis a rompantes psiquiátricos de megalomania paranóide.
Neste contexto, a vitória de Evo Morales, se confirmada, será uma vitória da democracia, embora os conflitos não cessem a partir daí. Mas ao menos, aqueles que confundem democracia com a patologia social da exploração e da produção da miséria humana saberão que a verdadeira democracia não vem da força, mas do poder-potência coletivos, quando se quer e se constrói num engendramento desejante.
A politica não funciona no falar palavras bonita, mas no cumprimento, das promessas feitas, para que a sociedade agredite no governante que escolheu.
Sirlei,
Que são as promessas senão palavras? O Belo deve fazer parte do político na sua práxis, que também envolve a Retórica, o discurso, sem o qual a democracia não se faz. Por isso o diálogo era a práxis da democracia em Atenas.
No caso das belas palavras de Morales, elas carregam a fidelidade a um projeto democrático que leve em conta os povos nativos bolivianos que sempre foram alijados do processo de enriquecimento das chamadas elites brancas, que lá, como cá, não pensam o país como um todo.
Abraços!