Os pobres se esquivam pelas barreiras e

cavam túneis que enfraquecem as muralhas.”

(Toni Negri, filósofo italiano)

LUIZ CARLOS: NO BALANÇO DAS CADEIRAS DE MACARRÃO

Na ordem do capital, muitas produções do povo passam à linha do grande capital, sendo então traçadas as suas modelações por designers profissionais, passando a ser serializadas e fabricadas em larga escala, perdendo seu caráter artesanal. Este parece não ser o caso das cadeiras de balanço, particularmente as que são feitas com “macarrão”. Procura-a em uma loja e não a encontrarás. Não se sabe exatamente onde ou quando elas surgiram ou quem as inventou; o que se sabe é que elas existem por várias partes do mundo, e que por onde passa vai sofrendo adaptações regionais de tecidos, cores, tamanhos, formas, presente em quase todos os lares de determinadas cidades, sempre tendo na mão dos fabricantes-artesãos a sua universalização por fora do Grande Mercado Global. E quem, depois de um dia de labuta, quem não quer sentar para relaxar, ler um livro, assistir um filme, quem não quer sentar sozinho ou com a namorada, o amante, o neto amado no embalo de uma cadeira confortável ao seu corpo e sua alma, propício para a reflexão ou para suavidoce reino de Morfeu? É só escolher: se tiver a armação, é só pedir ao artesão para trocar o macarrão; se não, é só chamar Luiz Carlos e experimentar…

 

Luiz Carlos Meu nome é Luiz Carlos, geralmente me chamam de enrolador de cadeira, mas eu faço mesmo é a cadeira completa, fabrico a cadeira. Tem camarada que só faz mesmo é enrolar, reformar. Eu faço e reformo. Se tiver a armação, eu reformo; se não tiver, eu entrego prontinha.

Bloguinho — Você é daqui mesmo de Manaus?

Luiz Carlos — Sou, só que eu já corri muito trecho. Eu conheço de Santa Helena a Joce, conheço BV8, Bonfim, Normandia, Boa Vista, quando eu servia o quartel, quando teve aquela história que ia ter uma invasão pra lá, em 82, aí foi todo mundo pra lá.

Bloguinho — Quando foi que você aprendeu a fazer essas cadeiras?

Luiz Carlos — Faz vinte e três anos.

Bloguinho — Mas você já exerceu outras profissões?

Luiz Carlos — Sim, eu sou operador de máquina industrial; sou vigilante formado, despachante de veículos, no caso, ônibus urbano, mas como já estou na idade que ninguém quer dar emprego, aí me dediquei somente a esse trabalho de cadeira, graças a Deus, estou indo bem.

Bloguinho — Muitos pedidos?

Luiz Carlos — Muitos. Dezembro, então, eu fico devendo pros meus fregueses, porque não dá tempo de eu fazer tudo.

Bloguinho — Como foi pra você aprender?

Luiz Carlos — Eu aprendi só olhando. Foi em Tabatinga; passei dois anos lá. Eu servi o quartel lá. Os peruanos trabalham muito lá com artesanato. Não só desse tipo aqui, mas de todo tipo, fazem o desenho dentro, o desenho que a pessoa quiser. Eu fazia com eles lá, por curiosidade, via eles fazendo, peguei muita amizade lá, aí sempre eu treinava, mas não era pensando em ter essa profissão não, e o que está me ajudando hoje em dia é esse trabalho.

Bloguinho — Me diz uma coisa, nas lojas a gente vê muitos tipos de cadeiras, mas desse tipo a gente não vê…

Luiz Carlos — Cadeira desse tipo aqui, em loja não vende.

Bloguinho — Aí eu vejo que esse tecido assim cruzado é diferente daquele modelo simples.

Luiz Carlos— É, esse tecido assim é outro tipo de trabalho, diferente do tecido comum horizontal apenas, no simples a gente gasta mais ou menos 1 kg, que é só uma peça.

Bloguinho — E uma assim, com cores trançadas?

Luiz Carlos — Numa dessas que eu tenho aqui, você gasta duas peças e meia de macarrão. Dá pra fazer até duas num dia, começando cedinho, terminando à noite.

Bloguinho — E quanto está custando uma cadeira dessas completa?

Luiz Carlos — R$ 150,00. Agora só o tecido mesmo, só pra tecer é R$ 80,00. Cada uma peça dessas de macarrão custa R$ 21,00, eu gasto duas peças e meia. Aqui, só de macarrão eu gasto em torno de R$ 50,00, fora o ferro e todo o trabalho. O meu lucro é pouquinho, não é muito não. Se for à vista é R$ 150,00, mas se for à prazo é R$ 180,00. É o que eu ganho, ganho mais um pouco quando é assim, porque à vista eu ganho bem pouquinho mesmo.

Bloguinho — E à prazo, como é a negociação?

Luiz Carlos— À prazo é no máximo 3 vezes de R$ 60,00. Dá pra fazer até de R$ 160,00, de duas vezes.

Bloguinho — Você sabe fazer também com desenho?

Luiz Carlos — Sei, mas algumas coisas mais leves, assim como escudo de time. Mas assim mais arrochado mesmo, é muito tempo que leva, três, quatro dias…

Bloguinho — Tem muitos outros tipos de trançado?

Luiz Carlos — Tem muito outros tipos. Eu estou aprendendo um novo agora, que é bem mais difícil do que esses que eu faço, que veio na cadeira de um freguês meu que é lá de Parintins. Ele perguntou se eu sabia fazer desse tipo. Eu disse que não, e mostrei esse outro modelo. Ele gostou e comprou. Aí eu pedi dele os restos para eu aprender. De vez enquanto eu faço, desmancho, até fazer completa, sem erro.

Bloguinho — E essas que estão aqui prontas?

Luiz Carlos — No caso essas daqui estão feitas assim porque o freguês me pediu, é esse meu cliente lá de Parintins, meu cliente já há muito tempo, ele já fez várias dessas aqui comigo já. Na casa dele em Parintins tem bem umas seis que eu fiz pra ele, essas daqui ele vai levando já pras filhas dele.

Bloguinho — E você vai fazer uma viagem pra lá pra Parintins…

Luiz Carlos — Vou me hospedar na casa dele. Ele mesmo disse que vai conseguir a clientela pra mim. É uma pessoa muito bacana. É por isso que eu vou levar umas dez cadeiras dessa, pra ficar na praça, para o pessoal ver os modelos. Ele disse: “se tu levar vinte, tu não chega até lá com as vinte, porque vão te comprar no barco”. No caso de lá, têm os bois, aqui no branco eu metia um coração vermelho, aqui no azul eu colocava um branco. Ele até me deu toda a idéia de como o pessoal vai querer as cadeiras lá.

Bloguinho — Você tem outras profissões, pensa em voltar a trabalhar empregado?

Luiz Carlos — Estou decidido a trabalhar só com as cadeiras agora. Eu não sei como vai ser o dia de amanhã. Mas conforme for minha força de vontade, o meu pensamento de montar minha firmazinha…

Bloguinho — Uma pequena empresa?

Luiz Carlos — Exatamente. Eu já tava com o dinheiro pra comprar o meu material todo — máquina de solda, lixadeira, etc —, mas aí a minha geladeira queimou. A mais barata que tem é mil reais. Só aí já foi o dinheiro da máquina.

Bloguinho — Não pensa em tentar conseguir algum financiamento no Sebrae, algo assim?

Luiz Carlos — Não, vou não. Se é pra eu procurar facilidade e depois estarem me cobrando, ficar me preocupando, “final do mês tenho de pagar não sei quanto”, o banco toma até a casa da gente. Se de repente não dá certo, eu vou perder o único bem que meus filhos têm. Eu vou conseguir, eu compro todo meu material e monto minha firmazinha. O necessário é uma máquina de solda — que eu faço ali na casa do meu colega, que é metalúrgico, ele só me cobra a energia —, um torno e uma lixadeira, pra começar. Quando eu voltar de Parintins, eu compro.

Bloguinho — Você cursou até que série?

Luiz Carlos — Até a 8ª série. Eu tava fazendo o primeiro, mas aí veio a época que eu me empreguei, comecei a trabalhar no 3°turno, 10 da noite até de manhã, aí não tinha mais como. Eu tive que escolher: ou eu continuava estudando ou parava o meu trabalho, aí ia passar necessidade…

Bloguinho — Pretende continuar a estudar?

Luiz Carlos — Não sei, vai depender muito do meu esforço, porque é cansativo trabalhar nisso, chega a noite, as pernas estão pedindo a Deus pra descansar. Porque eu trabalho por encomenda, mas trabalho nas portas também, à domicílio, eu saio na minha bicicleta por aí oferecendo serviço, fazendo reforma, tem dia de sair de casa 7 e meia da manhã e chegar 8, 9h da noite. Cansadão mesmo. Olha, tecer essas cadeiras, os movimentos dos braços tudo é repetitivo.

Bloguinho— Qual o seu itinerário, geralmente?

Luiz Carlos — Eu ando pelo Dom Pedro, Beija-Flor, Hiléia, Alvorada, Redenção, tudo eu ando, mais perto daqui, eu ando no Nova Cidade, Nova República, Cidade Nova, Osvaldo Américo, tudo por aí eu costuro na minha bicicleta. Quando você me ver assim saindo 7h, pode dizer assim: “ele vai pra longe”. E é pra longe!

Bloguinho — E os negócios sempre são bons?

Luiz Carlos — Tem dia que a gente ganha bem um dinheiro. Agora tem dia que a gente só agradece a Deus por estar com saúde pra ir no dia seguinte pra batalha.

Bloguinho — As condições das ruas por aí, você que anda muito na sua bicicleta, estão parecidas com essa daqui ou…?

Luiz Carlos — É o seguinte, você sabe que a nossa rua é escrota, toda esburacada, mas tem bairro por aí que é pior do que o nosso. Você me acredita que naquele bairro descendo ali depois do DB da Cidade Nova, o Riacho Doce, aquele bairro ganha do Novo Aleixo em termos de buraco nas ruas. Eu não consegui passar de bicicleta na rua. Tem rua lá que as pessoas estão furando umas o quintal das outras, que é pra passar, que não dá pra sair pela frente, só por trás. E não é só uma, duas ruas, não, é o bairro todinho. O camarada não sai pra rua quando tá no inverno não.

Bloguinho — Na sua opinião, porque as ruas ficaram e estão continuando desse jeito?

Luiz Carlos — Sabe, é muita falta de vergonha na cara desse prefeito aí. Não é possível que uma prefeitura, arrecada tanto imposto do pessoal, não ter condições de arrumar um bairro daqueles. (Não digo nem a nossa rua), o prefeito que me desculpe, mas é um cachorro mesmo sem-vergonha aquele cara. E não é só lá no Riacho Doce não. Eu ando muito, mas muito mesmo por aí, é buraco, avenidas principais mesmo cheias de buraco. Não tem nem meio fio por onde a gente andar, com medo de ser atropelado na beira de uma rua por um carro qualquer, porque nós não temos por onde andar, não tem meio fio pro pedestre, não tem calçada, não tem nada, tudo arrebentado.

Bloguinho — Pra melhorar um pouco, então, só com uma boa cadeira?

Luiz Carlos — Toda pessoa tem uma cadeira dessa em casa, de balanço, pra descansar. Isso é uma coisa que é mesmo que uma geladeira, um fogão, não pode faltar na casa de ninguém uma cadeira dessa. Chega do trabalho, cansado, senta, só é relaxar..

*A quem necessitar do serviço de Luiz Carlos ou estiver interessado em uma de suas cadeiras, ele atende pelo celular (92)9148-4175, ou ainda contactá-lo na rua Rio Jaú, n°48 – Novo Aleixo (Manaus-Am).

10 pensamentos sobre “DOS FAZERES E DIZERES DA ECONOMIA MENOR

  1. oi luiz, moro em monte alegre pará e to muito interessado em produzir ás cadeiras de balanço de macarrão, eu já reformo aqui na minha região as cadeiras com defeito + eu quero produzir por causa da grande aceitação que elas tem na minha região pesso que vc me de um toque sobre o assunto, qual maquina vc usa pra moldar os tubos qual solda vc usa outro toques. Pesso por favor por que a crise ta braba e nós recisamos trabalhar, já agradesso por tudo>.

  2. gostaria de saber se em qualquer armação de metal é possível de se enrolar o macarrão para fazer a cadeira ou se tem algum requisito para que isso seja feito ( se elas precisam ter uma forma especifica )

  3. Boa Tarde
    Somos fabricante de espaguete artesanal colorido,
    Entre em contato conosco para mandar-mos nossa tabela de preços.
    Obrigado
    Bruno
    Drawmac

  4. gostei muito desta reportagem, mas queria saber a tecnica para enrolar uma cadeira. Sou de Goias comprei 1k e 200gramas de macarrão para concertar uma cadeira mas agora não sei como enrrolar.

  5. quanto fica pra entregar uma em São Paulo? CEP 07760000. Uma azul, como a da foto que esta em par com uma vermelha no terreiro?
    São muito bonitas.

  6. eu tenho uma serralheria, quero fabrica cadeiras de balanço estantes tubolares, qual sua opiniao?

  7. eu preciso de 4 cadeiras dessa,moro em são pedro dos ferros interior de minas tem como chegar ate aqui.

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