Não há o que temer: certas palavras são imóveis, não movem moinhos, não carregam ventos. São palavras com muitas vozes, que não enunciam nenhuma. Sobra o orgulho de se iludir como movente. Mas não ecoam nem para si. Eis a miséria do jornalismo da linguagem circular. O significante com significado narciso. Este jornalismo enuncia a visita de Bush ao Museu do Holocausto sob a força de um afeto lacrimejante. Mostra um estadista humano, preocupado com o mundo. Truque sem público. O público vê os holocaustos: Iraque, Afeganistão, Ásia, África… Famílias dizimadas pela ternura de Bush. Pela segurança do mundo guarda-se uma vítima para amanhã. Como chora, e porque chora, este jornalismo? Pelo reconhecimento de seu próprio gueto, onde pretende viver de suas vítimas? Que lágrimas correm nas vozes sem faces? Há muitos colírios. Cabe a ironia de Gonzaguinha, ou um perjúrio: “Chorar nunca foi só de alegria. Em tempo ruim todo mundo dá bom dia”. Ou, na transversalidade, chora-se de alegria. Chora-se pelo prazer da dor da vítima. Chora-se na excitação da punição. “Miseráveis sois vós os que não choram de alegria!”, ora este jornalismo. Carregado nesta miragem, Heitor Cony insinua ser a TV Pública um canal para difundir Lula e o PT. O Estado brasileiro não necessita de uma TV. Para seus pronunciamentos à nação, basta o presidente requerer um tempo das TV’s. E segue. Lula é o presidente que mais viajou. “É bom que ele viaje, para se ilustrar, aprender o que não sabe”. Onde está a miséria jornalística? Na crença de possuir um saber único como modelo. Na inveja manifestada na discriminação, “aprender o que não sabe”. Mas a miséria absoluta deste jornalismo é não saber que não sabe. Que não sabe que seu saber não move o povo brasileiro, tal a ausência de vento. Divina Comédia Jornalística Brasileira: “São montanhas ou monstros?”. “Nenhum dos dois, enunviado jornalismo”, diria Dante.

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