A FANTASIOSA MORALIDADE DA FOME E MORTE DE DOM CAPPIO

0

O Bispo de Barra, Dom Cappio, após um desmaio, encerrou a greve de fome. Mas não cessou de insistir na temática da morte. Afirmou agora que “Lula” morreu, e que o governo pertence a Luís Inácio da Silva. Mas nem mesmo se estivesse falando em termos de identidade, a morte seria possível. O que Cappio não percebeu é que Lula não é um indivíduo. “Lula” é uma partícula-signo que carrega elementos desejantes que sequer pertencem a Luís Inácio. Não é Lula que resolveu se chamar de Lula. Foram as pessoas envolvidas com ele, nas lutas, nos movimentos sociais. O nome, como afirma o filósofo Deleuze, só é realmente um nome ao cargo de um exercício de despersonalização. A volta em si, desmontar os entendimentos clichezados que se adesivaram desde a infância para a leitura do mundo a partir do não-lugar, como sacou Foucault. Nem Lula nem ninguém poderiam jamais matar “Lula”, porque no fluxo vital, não há morte. A igreja, que lucra com a morte, até se pretende proprietária dos corpos pela moral, mas não consegue capturar o incapturável.

Embora muitos articulistas (inclusive o insípido Alexandre Garcia, abonado pela ditadura, e pena sempre alerta dos interesses conservadores) tenham insistido em criticar o bispo no seu próprio terreno – a teologia –, afirmando que seria pecado dar cabo da própria vida, uma suposta contradição para quem diz defendê-la acima de tudo, a questão pode ser observada de outra perspectiva. A greve de fome é uma prática ascética transposta para a política. Kafka, no seu conto “Um Artista da Fome”, mais que qualquer psicanalista, sacou que a fome só pode ser encarada como modo de existir no seu limiar máximo. O artista kafkiano recusa-se a comer nos últimos minutos antes de padecer, e afirma estar enamorado da fome. Não é o caso de quem usa o próprio corpo como recurso produtor de dor para tentar capturar o outro pela culpa e má consciência. Dom Cappio, como sua versão manoniquim, Rogélio Casado*, ao primeiro sinal do corpo (que é político, apesar de seus proprietários), desistiram, e já era de se esperar. A comoção gerada com a atitude do bispo nada mais é do que o resultado de dois mil anos de má consciência infligidas pela igreja. Só quem foi cegado no caminho para Damasco caiu nessa. Até Gandhi, que também fez greve de fome, sabia disso.

Outro equívoco do Bispo, quando afirma que a sua oposição ao governo de Lula é por motivos éticos e morais. Assim o fosse, não poderia ser oposição. A ética não é lugar, não se opõe. É produção, movimento, não posição, imobilidade. É construção coletiva de elementos materiais e imateriais que permita à potência se realizar cada vez mais perfeitamente, como afirma Espinosa. Assim sendo, pode um bispo falar em ética, quando é representante de uma instituição que lucra com a miséria há mais de dois mil anos, e que produziu ao longo de sua existência a maior parte das estratégias de dominação biopolítica que posteriormente foram usadas pelo capitalismo? Pode, claro, mas como palavra vazia, o significante. Palavra morta, para ficar no tema que anda agradando ao bispo.

Enquanto o bispo utiliza a estratégia do ressentimento e da má consciência para protestar (ressentimento e má consciência que estão, aliás, no cerne da criação do catolicismo paulino, que prega um Cristo eternamente preso à cruz), a igreja e o Brasil perdem a lucidez e a atuação política de Aloísio Lorscheider, que parte para outras composições físico-químicas e outros encontros, deixando uma lembrança-corpo que ainda carrega elementos da alegria comunitária. Lorscheider era amigo de Lula, e atuante nos movimentos sociais.

* Rogélio Casado, psiquiatra, se diz articulador da Reforma Psiquiátrica no Amazonas. Reforma que nunca chegou, apesar de ser amigo do governador Eduardo Braga, e ser coordenador de saúde mental desde o início do governo, e agora também reitor de assuntos comunitários da UEA. Casado fez, no final da década de 80, uma greve de fome contra as condições do Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, e no primeiro delírio, levantou e comeu. Leia aqui uma nota sobre a atuação de Casado a UEA.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.