“AO INVADIRAM ESCOLA, PMs AFRONTARAM A LEI, A FUNÇÃO POLICIAL, AS FAMÍLIAS E O ESTADO”, AFIRMOU PROFESSOR DA USP, DANIEL CARA
afinsophia 24/06/2026 0
FORAS DA LEI
Daniel Cara afirma que, se o governo fosse sério, os policiais deveriam passar por rigoroso processo administrativo
- SÃO PAULO (SP)
- JOSÉ BERNARDES E LARISSA BOHRER E MARIA TERESA CRUZ
Um vídeo que veio a público na segunda-feira (22) mostrou 12 policiais militares invadindo uma escola de ensino infantil em São Paulo para questionar a direção por causa de uma atividade pedagógica.
Em março, a Polícia Civil indiciou por intolerância religiosa o pai da aluna, que também é soldado na PM. Segundo ele, a escola estaria obrigando a criança a ter “aula de religião africana”.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), avalia que a atitude dos policiais vai contra a própria ação policial.
“É uma afronta à educação e à instituição de ensino. A polícia, caso tivesse sido chamada para cumprir seu objetivo constitucional, tem que resguardar a lei. E essa escola estava simplesmente seguindo estruturalmente a lei 11.645/2008, que obriga todos os estabelecimentos de ensino de educação básica a informar os estudantes sobre a tradição afro-brasileira e indígena”, pontua.
Daniel Cara elogia a postura firme da diretora da escola, que, nas imagens, não se dobra aos PMs que estavam fortemente armados. “Ela provou ser uma educadora com ‘e’ maiúsculo. A escola muitas vezes ultrapassa em muito as funções que deve exercer pelo fato de que o Brasil é um país em que o Estado não está em todos os lugares. E o único equipamento presente na maior parte do país são as escolas. E por isso superam em muito o papel da educação no sentido de ensino e aprendizado. Acabam sendo, portanto, centros comunitários, que atendem a população. E educadores de verdade não se negam a essa função”, destaca.
Além disso, Cara relata que, embora seja lei, nem todas as instituições respeitam a inclusão em seus currículos escolares das disciplinas de tradições afro-brasileiras. “Ainda existe um enorme desconhecimento com relação às tradições e à excelente bibliografia que existe de história africana e também indígena. As pessoas tratam a África como se fosse uma coisa só, mas ela é muito diversa. O mesmo acontece com a história indígena, que é heterogênea e plural”, conta.
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