O CONTO DE BRECHT

O teatrólogo alemão Bertolt Brecht tem uma peça de teatro chamada O Mendigo e o Cão Morto. Nessa peça ele conta a chegada triunfal de um imperador ao seu palácio quando encontra, deitados em frente ao seu portão, um mendigo e seu cão morto. Diante do inusitado, o imperador sente-se agredido pela insolência do mendigo, por tratar-se de seu território nobre e ainda ser o dia de comemoração da vitória sobre seu maior inimigo. Entretanto, movido pela emoção da conquista, resolve falar com o mendigo. Então passa a argumentar, contra o ato ofensivo do mendigo, mostrando sua importância e superioridade de nobre realizador de grandes feitos. O mendigo, por sua vez, conforme vai ouvindo os relatos vazios, constrói antíteses, derrubando todos os argumentos de superioridade. Por fim, o imperador vendo-se derrotado, entra no palácio cabisbaixo. E o mendigo, movimentando-se em conversa com seu cão morto, permite ao público perceber tratar-se de um cego.

 

A VITÓRIA DA DIREITA

A votação da CPMF, resultando em seu fim com perca de arrecadação de mais de 40 bilhões destinados às políticas públicas, tirando as teses econômica, social e temporal (o imposto era provisório), mais uma vez mostra como é árdua a missão de Lula e a maior parte do povo brasileiro em constituir o Brasil em uma democracia. Ontem o que até então era suspeita para alguns tornou-se visível-real o quanto parte do senado é mais constituída de corpos interditados democraticamente do que corpos políticos como modos de ser socialidade. Como o ressentimento e a má consciência com sua força impulsiva, inimiga da razão democrática, pretende se impor como verdade parlamentar. Afirmando como não foi suficiente, para ela, o sofrimento e o desrespeito impostos ao povo brasileiro durante oito anos. O argumento ressentido de um José Agripino, mostrando sua dor ao não querer acatar as propostas do governo afirmando ter chegado tarde. O ódio e as visões de um Arthur, exacerbando as fantasias dívida-culpa-edipiana do herói, e suas conversas com os espírito de Tancredo Neves e Mário Covas (com protesto da família Covas ). A fanfarronice infantilizada de um Efraim. Os destrambelhamentos intelectual de um Guerra. O raciocínio persecutório de um Jeressati. A cobiça familial de alguns do PMDB. São fatos constatados no momento do júbilo (exacerbação da ilusão) comemorativo, como vitória, desta parte do senado. Está aí o enunciado da fábula de Brecht: o conceito de vitória surge da impossibilidade lógica de experimentar o mundo real (causa da consciência social) além da fantasia de classe dominante. A alienação do sujeito-concreto. A superioridade quimérica. Ou a miragem que se desfaz frente aos real. Elementos perturbadores do vitorioso. Ou seja: o conceito de vitória e derrota nascem da insuficiência do real. Não podendo experimentar o real, o sujeito-vitorioso entra em embate com suas “partes mal-ditas” e alucina a supremacia de uma parte sobre outra, projetando-a no meio. Sua grande ilusão. Já que não consegue se desvencilhar de suas “partes mal-ditas”, a não ser pela fantasia da vitória sobre o outro. Na verdade, a derrota de si mesmo. A lógica do irracional. Também encontrada em outras instâncias sociais, no caso específico, a grande mídia; exemplo, a manchete da Folha de São Paulo: “Governo perde; Senado veta CPMF”. Tudo o que não constrói democracia, pois para tal é preciso a articulação concensual pelo Lógico como linguagem dialógica da razão comunicacional ou retórica persuasiva; pelo Ético como criação do optímum preservador do todo e das partes como presença, e pelo Político como produção da paz civil, social, nacional e internacional, como afirma a filósofa Bárbara Cassin. Tudo o que os inobservantes do real não possuem. Os inimigos da democracia.

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