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@ PAQUISTÃO MUDA SEM MUDAR. O Partido do Povo do Paquistão, criado e mantido pela família Buttho, agora nas figuras do viúvo de Benazir e de seu filho, e o PML-N (Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz), do ex-premier Nawaz Sharif esmagaram o partido do atual presidente, Pervez Musharraf, nas eleições do parlamento do país. Com maioria absoluta, os líderes agora pressionam o presidente e amigo de Bush, general Musharraf a cumprir o que prometeu, deixar o governo “quando o povo assim o desejasse”. Mas ainda não é possível dizer que a democracia chegou ao Paquistão. Os dois partidos vencedores, embora mais moderados e abertos ao diálogo que o dos militares, não tem interesse em mudar as estruturas de dependência econômica e de concentração de renda. São grandes latifundiários que chegaram ao governo. São aliados dos estadunidenses, ainda que se espere um pouco menos de submissão, já que tiveram apoio eleitoral dos chamados extremistas islâmicos. Mesmo assim, pode-se considerar que os ianques perderam, pois é mais um país oriental que caminha para o extremismo político, aversivo ao governo Bush e dos neocoms do Partido Republicano. Dias piores virão. I inda tem françêis…

@ PADRES NA CONTRAMÃO DO VATICANO. Enquanto Ratzinger exercita sua escrita na teologia da linha mais retrógrada, os padres do 12º Encontro Nacional de Presbíteros, realizado em Indaiatuba (SP) querem avançar em algumas questões consideradas dogmáticas pelos descendentes morais de Paulo de Tarso. Os padres brasileiros querem que seja revogada a norma que impede os sacerdotes de casar, e que sejam readmitidos os párocos que desistiram da vida em comunhão com Deus para amar à próxima (nenhuma menção aos que desistiram para se unir ao próximo, ainda). Querem ainda que sejam “melhor definidos” os critérios para tratamento dos cristãos que se casaram pela segunda vez, que atualmente podem participar da vida igrejal, mas não tem direito aos sacramentos da confissão e da eucaristia. E não fica só nos dogmas teológicos: os padres querem “transparência e democracia” na escolha dos bispos, além da revisão de algumas indicações. Democracia, amor, liberdade, são palavras que não cabem no jargão igrejal, seja católico apostólico romano, disangélico, presbiteriano, etc. Mesmo sabendo, portanto, que tais reivindicações não serão sequer consideradas por Sua Santidade, está dado o recado: a América Latina continua sendo a possível fonte de renovação da Igreja de Paulo, partindo para uma mundanidade re-ligando o finito ao infinito, e por isso mesmo, uma ameaça aos filhos diletos do soldado romano que viu muito e nada entendeu na estrada para Damasco. I inda tem françêis…

@ LULA ENCARA OS GRANDES. Enquanto Arthur ‘3%’ Neto e Marco Aurélio Mello protagonizam a mais recente patacoada midiotizada anti-brasil, Lula encarou a exploração secular que os países ricos querem perpetuar em relação aos pobres. Em discurso no Fórum de Legisladores G8+5, no Itamaraty, o Sapo Barbudo encarou os capitalistas com uma altivez e lucidez que provocariam em muita(o) revolucionária(o) moralista por aí sonhos impublicáveis (embora na vigília mantivessem a pose). Lula afirmou que os países ricos têm que subsidiar o desenvolvimento econômico dos mais pobres, caso queiram manter o discurso-falácia da preservação do meio ambiente: “É preciso levar para o G8 que países ricos consomem 80 por cento das riquezas naturais do planeta. (Eles) têm que pagar a contrapartida para que os países pobres conservem o meio ambiente”. Quantos minutos levarão para a imprensa seqüelada acusar o Sapo Verde de atentar contra a integridade e virgindade da Amazônia? O que passa pelo sistema nervoso central deles, deixa a marca do ressentimento, mas não é descodificado é que o discurso ambientalista dos países ricos esconde o temor da inversão da riqueza das nações, afinal, só os mercadologistas acreditam na produção da riqueza longe da produção de bens de consumo. E Lula sabe que eles sabem. Sabe ainda que, não pela primeira vez, os países pobres têm a chance de encarar de igual pra igual as políticas externas dos grandes. Situação que se explica, por exemplo, num livro de um dos maiores sociólogos da América Latina. Eduardo Galeano. Quem vocês pensavam que fosse? I inda tem françêis…

@ TAPA NA CARA DA HOMOFOBIA. Juliano da Silva, 20 e poucos anos, acaba de ganhar uma dívida de R$ 15 mil. Ele foi condenado a indenizar Justo Favaretto Neto, 40 e poucos, homoerótico, por ter dado um tapa no rosto do empresário numa discussão num posto de gasolina, iniciada por gracejos nada graciosos de Juliano sobre a expressividade existencial de Justo. Foi uma decisão sem precedentes na jurisprudência nacional, que até hoje só havia condenado os homofóbicos a pagar quantias irrisórias ou penas alternativas. Segundo a desembargadora Maria Berenice Dias, do Rio Grande do Sul, dois fatores dificultam o combate à homofobia no Brasil (que tem avançado, segundo ela, no RS): a falta de legislação específica e a homofobia dos próprios agentes da lei, principalmente policiais e juízes, que muitas vezes são mais homofóbicos que os agressores. Uma sugestão: como o corpo interditado cria a idéia equivocada e supersticiosa que leva à homofobia, e sabendo-se que todo corpo procura perseverar no ser (manter-se enquanto corpo com sua conformação e composição atuais), a justiça poderia criar uma escola da corporeidade, onde os homofóbicos teriam que entrar numa outra relação com o próprio corpo e a sexualidade, diminuindo a ignorância, fruto da repressão sexual que não acabou e nem sequer diminuiu, e por conseguinte, diminuindo as tensões. Mais produtivos, os corpos enfraqueceriam os signos-clichês do corpo dessexuado, diminuindo também a violência e a ignorância. Transbordar o corpo em outras conexões existenciais é descobrir o que nem alguns homoeróticos sacaram ainda: o mundo é gay! I inda tem françêis…

@ EUA SE APROXIMAM DO SOLDADO No 4000. A sociedade estadunidense gosta de números, de quantidade, de grandezas. Fruto da imobilidade sensório-motora que atinge seus cidadãos como uma epidemia, dificultando epistemologicamente compreensões mais elaboradas de espacialidade e temporalidade, que necessitem de abstrações. Daí necessitarem do grande, do exagerado, do suntuoso, para manter a ilusão da importância e necessidade de ser. Portanto, somente quando uma guerra gera uma grande quantidade de vítimas locais, é que a população começa a se voltar contra ela. Foi assim na guerra do Vietnã, que só se tornou avessa à opinião pública quando os corpos dos soldados ianques formavam uma pilha impossível de varrer para baixo do tapete. O mesmo ocorre nas incursões no Afeganistão e Iraque: daí a mídia ocultar de todas as formas os caixões e cadáveres no bagageiro dos aviões que diariamente levantam vôo de Bagdah para Washington. Na terça-feira, 19, uma explosão de uma bomba na capital iraquiana matou três soldados. Ali, o número de soldados mortos chegava a 3966. Provavelmente nem um décimo do total de civis iraquianos mortos na mesma guerra, mas falamos aqui de um país que não se abalou com Abu Ghraib e Guantánamo. Quando chegaremos ao fatídico 4000? É bem provável que, quando o leitor intempestivo ler esta nota, este número já tenha sido ultrapassado. Irrisório, diante dos lucros até agora das empresas que financiaram a guerra. E ainda tem quem acredite que a culpa é só do Bush. I inda tem françêis…

@ NA CHINA, MICKEY E DONALD NO HORÁRIO NOBRE, NÃO! Na China, está proibida a exibição de desenhos animados estrangeiros durante o horário nobre. O objetivo, segundo o governo do país, é melhorar o nível da programação local, e incentivar a produção doméstica de animações. Diferente do Brasil, onde as empresas brigam para manter a programação estrangeira, e a rede Record ganha no Ibope das concorrentes com doses hipercarregadas de Pica-Pau e Popeye. Embora qualquer produção televisiva concorra para a diminuição da percepção em três dimensões e para a estereotipia das imagens nas crianças, ao menos os signos serão produções de chineses. Já no Brasil… I inda tem françêis…

@ DE DEVEDOR A CREDOR. Política econômica do governo Lula faz com que o Brasil passe pela primeira vez em sua história da condição de devedor internacional para credor. Não, o Brasil não pagou ainda a dívida externa, mas o total de divisas que possui atualmente daria para pagá-la à vista, sem pedir desconto, e ainda sobrariam módicos US$ 4 bilhões pro cafezinho. O Brasil, como qualquer outro país do mundo, não irá pagar suas dívidas, mas investir o dinheiro e amortizá-la aos poucos. Para se ter uma idéia, segundo o Mello, nos bons tempos de FHC, a dívida que ficou no dia em que Lula assumiu era de US$ 200 bilhões e as reservas, US$ 64 bi. A imprensa gosta de inventar bordões: são frases ou termos sem sentido, que apenas remetem à própria emissora ou programa, como um slogan que remete a um produto. Acham, por isso, que qualquer frase repetida algumas vezes é também bordão. Acusam, a partir daí, Lula de usar a frase “nunca antes nesse país…” como um bordão. Não é. No caso de Lula, não se trata de propaganda. É fato. E cada vez que ele diz, incomoda aos jornalistas seqüelados e à direitaça crassa. Incomoda porque não é um bordão, frase vazia. É real. I inda tem françêis…

@ E ESSE FRANCESES VAI PARA O FRANCÊS ALAIN ROBBE-GRILLET (18 de agosto de 1922 — 18 de fevereiro de 2008). Alguém gritou “Nouveau Roman” em algum lugar do indevassável labirinto. Será Nathalie Sarraute? Havia um salão e, num canto imperceptível uma janelinha aberta, por onde passava um vento que ficava soprando “nada de reflexão histórica!”. No deserto silencioso encontrou Kafka, e do sangue que jorrava dos corpos inscrevia-se na terra “adeus, psicologia!”. “O Novo Romance é Kafka”. Do outro lado do longo corredor havia um tapete onde a poeira cristalina bordara o “não-literário”. Butor, será, Michel? Por trás das mais de trezentas portas talvez, pelas quais nunca se sabia aonde ia dar, encontrava-se sempre a “disnarrativa do romance desenredado”. Claude Simon, será? E no lado Leste do bananal, a umidade desenhava pela parte de baixo da folha quadros inverossímeis, “pois a função da arte não é nunca a de ilustrar uma verdade – ou mesmo uma interrogação – antecipadamente conhecida, mas sim trazer para a luz do dia certas interrogações e talvez também, a seu tempo, as respostas que ainda não se conhecem nem a si mesmas”. I inda tem françêis…

Vamos que vamos

Pois foi quem não chegou

Que chegou aonde não foi…

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