BRITNEY SPEARS SE DEBATE NA BUSINESS LOUCURA

No cinema O que terá acontecido a Baby Jane? (1962), de Robert Aldrich, Jane Hudson (Bette Davis), que fizera sucesso como atriz em programas televisivos aos três anos, passa todo o restante da existência frustrada pela indiferença que sofre quando adulta. O show bisness aproveitou apenas a Baby, mas não a Jane. No caso de Britney Spears, que também começou com os três anos, ao contrário, o show bisness esqueceu os três anos, quando ela fazia sucesso apenas em Kentwood, pequena cidade da Loisiana, e se apoderou do restante de sua existência. Mas, como Karl Marx sabia, não há contradição no capitalismo, é a mesma linha de cristalização do corpo em mercadoria.
Os sucessos e os escândalos que se sucedem sobre Britney Spears há anos tomam conta da mídia mundial. Parece que sem querer ela expõe a banalidade do bisness. Começou quando aos oito anos fez teste para participar do Mickey Mouse Club, mas foi rejeitada por ser jovem demais. Mas o surto só teve mesmo início quando aos quinze anos foi à Nova York para gravar Baby One More Time, que logo na primeira semana entrou na lista dos mais vendidos na indústria musical norte-americana, atingindo venda de 125 mil cópias. Mas as respeitáveis mães queriam que ela, tal qual uma Sandy brasileira, em plena adolescência, atrofiasse sua sexualidade em infantilismo, enquanto outros queriam explorá-la, e por isso quando aos dezessete anos apareceu na capa da revista Rolling Stones trajando apenas um pequeníssimo short e um soutien causou furor em umas e luxúria em outros. Intensificaram-se então as especulações sobre o seu namoro com Justin Timberlake; então, tal qual Kaká, ela declarou ser virgem e que assim permaneceria até o casamento. Mas quando em 2000 ela lançou o seu segundo álbum, Oops!… I Did It Again, estreando novamente em 1° lugar e batendo o record de álbum feminino, seu figurino e sua coreografia estavam mais sensuais, enquanto ela ia sendo acusada de usar palyback. Quem sabe até não usou deste artifício quando veio ao Brasil para o Rock in Rio de 2001, onde foi vaiada por expor a bandeira norte-americana num telão? E ainda no final de 2001, quando ela lançou seu álbum Britney, sendo a primeira cantora a estrear três álbuns em primeiro
lugar, foi quando a loira mostrou que não era mesmo a garotinha da mamãe; logo no primeiro single, “I’m a Slave 4 U”, a moralista Associação da Família Americana abandonou-a de vez, o que quer dizer passou a persegui-la mais implacavelmente ainda. Mas logo em 2002, com “In The Zone”, ela quebra todos os seus recordes, inclusive na erotização definitiva das performances, arrastando até o Grammy de melhor dance, com “Toxic”… Em 2003, Britney disse numa entrevista que (diferente de Kaká) mentira, que perdera a virgindade há dois anos. (E por acaso alguém perde a virgindade?) Para os machistas/moralistas foram dois anos de fetiche virginal ludibriados. Pra completar, na comemoração dos 20 anos de carreira de Madona, na performance de “Like a Virgin”, as duas tascaram-se o famoso beijo, reproduzido em toda a mídia mundial. Em 2004 foi eleita a mulher mais sexy do mundo e casou-se com um amigo de infância por apenas 55 horas, saindo no Guiness como o casamento de duração mais rápida já oficializado. Segundo o casal, fora apenas uma brincadeira. Mas Spears acabou se casando “dos vera” ainda no mesmo ano com o dançarino Kevin Federline. A loura falou que havia “beijado um monte de sapos” antes de encontrar seu príncipe encantado, afirmando, no auge da festa: “sinto que serei feliz para sempre”. Mas a festa acabou e veio a lombra. Em dois anos de casamento, tiveram dois filhos, Sean e Jayden, o que surpreendeu fãs e empresários, que não a queriam para a maternidade. Sem as divagações pasicanalíticas do instinto materno, diríamos que poderia ser uma resistência afetiva à objetificação artificial pela indústria cultural anuladora do corpo, que não perdoou a afronta da “felicidade” matrimonial. Os paparazzi intensificaram a perseguição. O príncipe não se desencantou em sapo. Daí vieram todos os escândalos recentes: Britney foi flagrada dirigindo com o filho no colo; Britney deu cotoco; Britney sem maquiagem; Britney escorregou com o filho, tendo na mão um copo, estava bêbada; Britney três vezes sem calcinha; Britney desmaia na boite; Britney vomita no namorado; Britney com Paris Hilton na balada; Britney raspou a cabeça, fez mais duas tatuagens e colocou um piercing; Britney ataca carro de paparazzi; Britney tomou droga até para cavalo de corrida; Britney vai para a clínica de rebilitação…
Não importa se ela e os que estavam com ela têm outra versão. Assim como Jean-Luc Godard falou de Bigitte Bardot, com quem trabalhou em O Desprezo, que ela não podia olhar para baixo num lance de escadas, pois no outro dia estaria estampado nos jornais como “depressão”, não importa mais que todos os testes químicos digam que era água no copo, a verdade da velocidade da informação já asseverou que era álcool e não tem mais como ser desmentida. Como diz o filósofo Paul Virilio, essa é mais a era da velocidade do que da imagem. Se na era da imagem, era a velocidade de um ser que produzia uma imagem como contraponto, na era da velocidade, é esta que carrega a imagem, independente do ser, que não tem mais qualquer importância real. Se a imagem está desgastada, põe-se outra imagem pra se movimentar no lugar desta. A indústria cultural sabe que Britney Spears não existe e qualquer tentativa sua de existir, qualquer espasmo, choro, orgasmo, embriaguez, envelhecimento, riso… será submetido a analítica mercadológica: há lucro ou não há lucro? Mas ao mesmo tempo em que é um produto da indústria cultural, Britney força a linha da rebeldia, não quis ser a eterna criancinha, como tentaram fazer com Xuxa, e agora vão retirando-lhe os mimos. Não é à toa que seu último trabalho, de poucos meses atrás, “Gimme More“, brinca com tramutações dela em um personagem gordo e masculinizado.
Britney não se reabilitou. Em outubro do ano passado perdeu a guarda dos filhos para o ex-marido-príncipe Federline. Na quinta-feira passada, dia 03, ela queria os filhos um pouco mais, mas já era ora dos seguranças do príncipe levarem-nos. O desespero. Quer queira ou quer não, todo mundo assiste. Os dramas hollywoodianos não precisam mais ser realizados. O privado tornou-se público. Quando tudo é público, é por que nada mais o é, diria Paul Virilio. Se Britney quer ainda recuperar algo privado (talvez por isso aquele casamento por brincadeira), qualquer esforço maior que ela faça em direção a isso, trarão o espectro do Dr. Charcot, mestre de Freud, e seus entendimentos sobre as mulheres histéricas, para aplicá-lhe uma camisa-de-força. E que o espetáculo continue, ninguém está interessado em qualquer análise racional. Condena-se ou absolve-se pela moral comportamental dos “bons costumes” ou fica-se indiferente. Nenhum jornal, nenhum blog, que saibamos, vinha fazendo alguma análise sobre as produções/destruições da indústria cultural mercadológica e sua fetichização do corpo. Ninguém parece ver uma questão presente em inúmeros lares de Los Angeles ou de Manaus, separação de casais drásticas, violentas, e, principalmente, seus efeitos para matar a criança nas crianças. Acontecimentos como esses são fundamentais para se entender as formações subjetivas do mundo contemporâneo, principalmente para os que se querem educadores.
Nesse sentido (e somente nesse sentido), poderíamos dizer que ainda bem Britney não tenha se reabilitado. Ela segue se debatendo. O Dr. Phil McGraw, conhecido nos Estados Unidos por apresentar um programa que faz análises psicológicas televisadas, “amigo” da família chamado para conversar com Britney, como explorador das mazelas produzidas artificialmente no show bisness, no máximo quererá fazer algum ajuste na programação que lhe foi imposta. Conseguirá a loura sair dessa camisa-de-força que a segura desde quando sua mãe fez-lhe o baby-chá? Ou terá que matar alguém, como a Baby Jane, de Aldrich, para poder dançar? Ou lhe espremerão até a última gota de sangue, como fizeram com Elvis Presley e Merilyn Monroe, da qual só escapará com a morte? E então…

Parabéns pelo texto!!!
Realmente as pessoas deveriam ler isso, não sou fã da Britney, nunca fui, mas tenho acompanhado nesses ultimos meses o estado deplorável em que ela se encontra, e ninguém procura fazer uma análise desse ponto de vista que vc abordou. Deve ser perturbadou está onde ela está, seguindo o caminho que ela seguiu, desde quando ela se dezia virgem, o fim do namoro com justin, até os dias de hoje, sinceramente eu acho que a destruição na vida dela se iniciou quando houve o termínio dos dois, ela era jovem, e manteu erroneamente o boato de virgindade. Acho que tudo na vida dessa menina aconteceu muito rápido, ela não teve sequer tempo para amadurecer suas atitudes. E deu no que deu.
É Layse,
O Capitalismo quer um corpo o mais dócil, objetificado, fetichizado possível, para poder colocá-lo na vitrine mercadológica dos simulacros de imagem. Mas ele chega à saturação quando se torna insuportável para um corpo-mercadoria como o de Britney, entre tantos, e quando pessoas, como você Layse, percebem e vão diminuindo o seu poder de sedução.
Valeu!