DOS FAZERES E DIZERES DA ECONOMIA MENOR
Como disse o filósofo francês Jean Baudrillard, há uma única exigência para os capitalistas — a necessidade de consumidores — senão eles não nos legariam sequer o pão. E há muito teriam feito isso se por fora dos grandes fluxos capitais das corporações bilionárias não corresse uma pequena economia que, apesar de carregar códigos da exploração macroeconômica, baseia-se sobretudo na capacidade inventiva dos pobres de criar novos fazeres com uma inteligência imperceptível ao poder/saber. Quase sempre a economia maior tenta apropriar-se por usurpação dos feitos dessa economia menor, colando-lhe um falso rosto a partir da ordem do discurso que assegura a simulação das imensas cifras nas bolhas de valores. Seguindo os rastros da imanência necessária à criação desses fazeres e seus dizeres inauditos, este bloguinho começa hoje esta nova coluna, que trará entrevistas do discurso/prática de trabalhadores que, para além de uma mera subvivência, levam/constroem elementos materiais e imateriais nos percursos que fazem sobre a cidade, por isso importa-nos não as segregações existenciais a partir do trabalho capitalístico, nem as esperanças fantasiosas, mas as virtualidades desejantes na totalidade da existência dessas pessoas na rua, no mundo e o que delas passa liberando a vida, desestabilizando o ensejo totalitário do Mercado Global.
ELIELSON: O CASCALHEIRO ANDARILHO
“Os pobres se esquivam pelas barreiras e
cavam túneis que enfraquecem as muralhas.”
(Toni Negri, filósofo italiano)
Telengotengo, lengotengo, lengotengo… Quem nunca ouviu a batida ritmada do triângulo? A criançada corre. É cascalho. Foi a partir dessa batida que Luiz Gonzaga atualizou o baião. Teve de estudar com os cascalheiros. Teve de ouvir os ritornelos das ruas. E é pelo som dessa batida que vai nossa primeira entrevista, é com um desses andarilhos do som. Saímos andando com ele pelas ruas e entrevistando-o, enquanto ele caminhava ao ritmo do metal, carregando sua lata ainda com mais de 100 cascalhos…
Bloguinho — Seu nome é…
Cascalheiro — Elielson Carvalho.
Bloguinho — Qual a sua idade?
Cascalheiro — 23 anos.
Bloguinho — Você é daqui mesmo de Manaus?
Cascalheiro — Sim. Nasci aqui e sempre morei aqui.
Bloguinho — Fala pra gente um pouco desse trabalho que você faz, há quanto tempo…
Cascalheiro — Eu sou cascalheiro. Trabalho como cascalheiro faz 4 anos. Antes eu trabalhava com plastificação, separava sacos de plásticos de acordo com o tipo, o tamanho. Isso aí eu comecei lá pelos 17 anos, porque antes eu vendia açaí, quando tinha 13, 14 anos…
Bloguinho — Atualmente você mora aonde?
Cascalheiro — No Armando Mendes.
Bloguinho — É lá que você pega o cascalho?
Cascalheiro — Não. Eu pego no Zumbi II.
Bloguinho — Depois que pega, qual é o trajeto que geralmente você segue?
Cascalheiro — Eu pego uma lotação. Fico na Grande Circular; daí corto o São José II e saio no Novo Aleixo; depois eu rodo toda a Cidade Nova; depois o Renato Souza Pinto I e II; aí vou para o Nova Cidade; e depois para o Canaranas; depois rodo o Conjunto Cidadão; saio então perto da garagem da Eucatur e rodo aquela parte ali; pra terminar eu desço a principal e acabo na Feira do Produtor. Daí da Feira eu pego de novo uma lotação, deixo o cascalho do homem, dou a parte dele e fico com a minha. Aí vou embora pra casa.
Bloguinho — Com esse longo trajeto, a que horas você sai e a que horas retorna?
Cascalheiro — Pego assim pelas 9h, dou uma parada meio-dia para almoçar, depois quando chego na Feira do Produtor já é lá pelas 8 da noite, ainda vou entregar o cascalho. Então chego em casa lá pelas 9h da noite.
Bloguinho — Com as chuvas que tem dado, não deve ser fácil fazer esse trajeto.
Cascalheiro — É, tem dia que pego chuva; quando não, é sol.
Bloguinho — Tem comumente algum problema de saúde por causa disso?
Cascalheiro — Sim. As pernas ficam muito cansadas e às vezes dá muita dor de cabeça.
Bloguinho — E, diante de tudo isso, qual é a base que você tira por dia de lucro?
Cascalheiro — Nos dias de semana, em torno de R$ 30,00, tirando o almoço, que é eu que pago, R$ 5,00, fico com uns R$ 25,00; no domingo dá mais, uns R$ 50,00.
Bloguinho — Dá pro seu gasto?
Cascalheiro — Dá. É claro que eu gostaria de ganhar um pouco melhor, não pra ficar rico, mas melhor.
Bloguinho — Melhor como?
Cascalheiro — Pra não ter de trabalhar tanto, pra ter tempo pra terminar meus estudos.
Bloguinho — Você fez até que série?
Cascalheiro — Até a 5ª série. Desde 2003 que não estudo. Parei por causa do trabalho. Esse ano ainda me matriculei, mas não teve condições.
Bloguinho — Ano que vem você vai tentar de novo?
Cascalheiro — Vou sim, com certeza.
Bloguinho — E diversão, você pratica algum esporte, vai a festas?
Cascalheiro — Esporte não pratico não. Festa às vezes eu vou com meus amigos, um pagode. Eu gosto de ir pro cinema com a minha irmã e os amigos dela, gosto porque as histórias me divertem.
Bloguinho — O que você acha mais interessante, curioso, na sua profissão?
Cascalheiro — O som do triângulo. Quando você bate, as crianças saem correndo, as pessoas já sabem que é cascalho. Os adultos compram para elas. Às vezes eles não tem dinheiro. Dá vontade até de dar pra elas às vezes, mas não dá. Se você está vendendo mal, às vezes num bairro inteiro você não vede um, aí você anda mais devagar, não bate direito. Quando você está vendendo bem, aí você anda rápido, bate com vontade o triângulo.
Bloguinho — Pra fechar, você que anda por todos esses lugares, conhece a cidade, o trajeto deve ser dificultado com as ruas nessas condições.
Cascalheiro — Tem muito buraco por aí.
Bloguinho — Tem outras como essa?*
Cascalheiro — Tem quase como essa, mas essa daqui está horrível.
Bloguinho — Você acha que o prefeito vai conseguir fechar esses buracos até o final do mandato.
Cascalheiro — Acho que nem a metade.
Bloguinho — Mas você precisa seguir?
Cascalheiro — É, preciso ir.
* A rua em que a entrevista foi feita e a foto foi tirada é a rua Rio Jaú, no Novo Aleixo, que tem suas precárias condições demonstradas no Projeto Poseidon dois posts abaixo.
