JUÍZA MARIA EUNICE NO CANTO DO POETA:

QUANDO UM MURO SEPARA UMA PONTE UNE”

Era lá para as bandas de 77, ano do assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura, o Grupo Universitário de Teatro do Amazonas – GRUTA tentava liberar para apresentação pública, junto à Censura Federal, na sede da Polícia Federal, na avenida Joaquim Nabuco, esquina com a rua Ipixuna (Manaus-Am-Brasil), a peça do escritor paranaense, membro do PCB, Domingos Pelegrini, O Troco.

Era um tempo angustiante. Um tempo de sentidos e razão dilatados. Se o teatrólogo alemão Brecht afirma em poema que o partido tem “mil olhos”, a ditadura tem muito mais. Ela não vê “as ruas e a cidade inteira”, ela vê o país inteiro. Foi nessa angústia 70, depois da apresentação do ensaio para as duas agentes responsáveis pela análise do texto e da encenação, no Conservatório de Música, local onde o grupo se encontrava, na avenida Joaquim Nabuco, onde funcionou até pouco tempo o DCE, próximo à sede da CNBB, que fomos conduzidos até a sala da Censura Federal para receber, ou não, o certificado de liberação da peça que já havia sido examinada pela Censura em Brasília. Dois dias após o assassinato de Wlado.

Diante do chefe, as duas agentes apresentaram suas conclusões, mostrando partes do começo da peça que deveriam ser censuradas, além de apresentar a fita com a trilha sonora, que tinha de Waldik Soriano a Caetano, passando por Aldir Blanc e João Bosco, entre outros. Colocada a fita para tocar, uma das agentes disse: “Essa música aí está censurada.” O chefe, um ex-seminarista vindo do sul, conhecido pelo nome de Gambim, um homem comedido e, segundo ele, amante das artes, prestou atenção na música que o grupo MPB4 cantava, e sentenciou: “Não tem problema.” Perguntamos se a música poderia fazer parte da peça, já que era muito importante sua inclusão, posto que era ela que fazia o desfecho socialista de nossa montagem, e ele respondeu que sim. E ainda afirmou que iria assistir a apresentação que seria logo à noite no CENESC – Centro de Estudos e Comportamento Humano da CNBB, na mesma Joaquim Nabuco. A música não era a nada mais que a revolucionária/poética/libertária “Pesadelo/De repente” dos inquietos Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós. O marco da resistência contra a ditadura.

Hoje, dia 11 de fevereiro de 2009, portanto, 32 anos depois, ela nos serve outra vez para cantar a liberdade. A liberdade que vem com os homens e mulheres que pensam em Manaus na justiça, comprometidos, como pensam a magnânima Juíza Maria Eunice Torres do Nascimento e o ilustríssimo procurador da Justiça Federal Edmilson Barreiros Junior.

Aqui fica impressa a poesia. Quem souber a melodia faz um bem cantar.

PESADELO DE REPENTE

Não que eu esteja parado

É que eu prossigo de manso

Graças ao tempo passado eu avanço

Não que teu som seja novo

É precisão de momento

Dar dos dois lado do povo

Movimento

.

Não que eu não sinta mudança

É que eu senti muitas dessas

E o tempo vi nas promessas

Não que eu não queira mais nada

É que o arrojo é imprudente

Tem que dar a guinada de repente

.

QUANDO UM MURO SEPARA UMA PONTE UNE

Se a vingança encara o remorso pune

Você vem me agarra alguém vem me solta

Você vai na marra ela um dia volta

E se a força é tua ela um dia é nossa

Olha o muro, olha a ponte, olha o dia de ontem chegando

Que medo você tem de nós

Olha aí

.

Você corta um verso eu escrevo outro

Você me prende vivo eu escapo morto

De repente olha eu de novo

Perturbando a paz, exigindo o troco.

Vamos por aí eu e meu cachorro

Olha o verso, olha o outro, olha o velho, olha o moço

Chegando

Que medo você tem de nós

.

O muro caiu olha a ponte

Da liberdade guardiã

O braço do Cristo horizonte

Abraça o dia de amanhã

Olha aí

Para quem não conhece a melodia e também cantar, vão aqui três links para poder baixar e ouvir Pesadelo:

  1. No disco Cicatrizes (1972), do MPB4 (36 MB)

  2. Aqui Pesadelo, cantada por Paulo César Pinheiro (2.8 KB)

  3. Ou ainda no Youtube, Pesadelo, pelo MPB4, no especial A Presença de Vlado

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