A questão que se coloca em relação ao centenário da Universidade Federal do Amazonas não é apenas de temporalidade, mas de efetividade política na construção dos elementos corporais e incorporais da cidade de Manaus. E do estado do Amazonas.

Fala-se em 100 anos. Cronologicamente, existe a data: 17 de janeiro de 1909, data da criação da Escola Universitária Livre de Manaós, primeira universidade do Brasil. Orgulho do Amazonas (bem antes do Arthur ‘5,5%’ Neto), a Universidade do Amazonas (que de FUA passou a UFAM por iniciativa do outro “orgulho”) ficou no mesmo equívoco conceitual de suas co-irmãs mais novas. A segmentaridade do saber, política de Estado. Universidade, nível superior. Mas o conhecimento é universal. Quem nasceu primeiro, o saber ou a escola? É possível que na tecnologia a serviço do capital, haja a necessidade da passagem pelas segmentaridades sociais, instâncias de subjetivação domesticadora: o signo-chave que me permite ascender na hierarquia social. Mas o chamado indígena, por exemplo, sabe os caminhos do rio e navega na sua piroga sem a necessidade do “deploma” ou do GPS. E logo o alcunhado “índio”, que empresta (por vezes à revelia, por vezes docilmente) a sua imagem-clichê para a glória do sacrossanto saber-poder que referenda a universidade como lugar da diversidade e da universalidade!

Portanto, o universal da universidade só se diferencia do universal da igreja do bispo Macedo pela condição social em que se localiza: o território institucional. Fora disso, ambos se apropriam daquilo que o filósofo Spinoza chama de engano da imaginação: a existência de modelos universais.

Proclamada detentora dos saberes (ou da “senha” judicativa que aponta e diz o que é ou o que não é, concedida pelo Estado), a Universidade do Amazonas, como a maior parte de suas co-irmãs, não resistiu (e nem o quis, ao que parece) aos encantos do capitalismo financeiro global: transformou-se ela própria (ou sempre o foi?) em um espaço menos de produção de conhecimento do que uma instância burocrática de concessão diplomística.

Prova disso se obtém ao fazer uma análise da atuação dos profissionais na cidade de Manaus. Ilustrações não faltarão:

O curso de Direito da UFAM, louvado como um dos melhores do país, homenageado pela OAB nacional, foi incapaz até agora de se manifestar publicamente diante da pífia – para não dizer deliberadamente vil – atuação dos tribunais amazonenses. O que será que o CNJ, que deve montar campana em Manaus a partir do próximo dia 12, para verificar irregularidades no TJ/AM e no TRE/AM, incluindo o afastamento arbitrário da ínclita juíza Maria Eunice Torres do Nascimento, achará dos belos frutos nascidos na árvore da Faculdade de Direito da UFAM, e que agora se enrolam com a justiça nacional?

Outra: haverá algo mais assustador para uma sociedade que se quer democrática do que o silêncio em uma faculdade de jornalismo? Principalmente quando as condições de trabalho destes jornalistas no mercado de Manaus se reduz, na grandíssima maioria das vezes (louváveis exceções, que fique claro, Mário Freire!) a escrever o que manda o dono do jornal? Num país onde, segundo o jornalista Mino Carta, confunde-se dono de jornal e jornalista, o curso de jornalismo da UFAM parece alheio à prática jornalística da imprensa manoniquim, com suas oscilações, mãos dadas com um prefeito cassado, escamoteamentos, sem desconfiar daquilo que o juiz Fausto De Sanctis – que não é jornalista, mas é democrata – sabe: jornalismo é serviço público. De nossa parte, acrescentamos à sentença justa de Fausto, o fato de que o ensino de jornalismo também é um serviço público. Ou como afirma o arguto Ignácio Ramonet: o jornalismo é uma disciplina cívica.

Para não alongar a já grande lista, façamos ver que esta apatia (a-phatia) geral recobre todos os cursos, e de nada adianta afirmar que os cursos nada têm a ver com a atuação de seus ex-alunos quando estes adentram seus cargos ou funções. Falta-lhes o elemento que transborde a compreensão meramente mercadológica da profissão. Se não para lhes mostrar que são agraciados com a autorização pública para exercer tal ou qual profissão, mas que não são os donos do saber, ao menos para lhes incomodar a consciência.

Consciência essa que não se afasta sequer por um milímetro da imagem (idéia equivocada) patologizada do complexo de inferioridade: “― Fazes medicina onde?”. “― Nilton Lins, e tu?”. “― Ih, foi mal, a minha é federal”. Pergunta-se: onde se formaram os talentosos professores que dão aula nas universidades particulares?

O fato é que a UFAM, em seu centenário, através das falas de seus personagens (como os ex-reitores, Marcus Barros, Nelson Fraiji, dentre outros, professores, doutores, catedráticos) se quer como a reserva intelectual do Amazonas. E se observarmos bem, ela nada mais faz do que refletir essa “intelectualidade”. Ainda que seja justamente na sua ausência.

Ou como afirma uma história testemunhada por um afinado, em tempos idos: um professor, na sala de aula, numa disciplina de sociologia, explicava aos alunos, com uma ponta de decepção, que a universidade estava perdendo o seu caráter evocativo, de discussão, de pólo disseminador do saber, e se transformando no templo do capital, no saber voltado para o mercado, concluindo sua performance com uma frase: “tenho medo de que um dia a universidade se transforme num mero balcão de diplomas”. Ao que um aluno, do fundo da sala, retrucou: “já se transformou, professor, e há muito tempo”.

2 thoughts on “CEM ANOS DE UFAM OU SEM ANOS DE UFAM?

  1. Essa perspectiva elucida no sentido figurativo e simbólico o status que Universidade Federal do Amazonas ocupa na mentalidade das pessoas, como um celeiro intelectual existente, e que precisa existir no cenário local como referência seja, burocrática, política e real!

  2. Realmente, Nira,
    a realidade da UFAM permite a elucidação de sua realidade: nada de política, só burocracia…
    Valeu! E passe sempre por aqui com sua lucidez.

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