ATÉ SERAFIM SABE QUE APATIA DA PREFEITURA DE AMAZONINO É SINTOMA DA CASSAÇÃO

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O ex-prefeito Serafim Corrêa, neste domingo, na sede do PSB, deu entrevista coletiva onde retrucou as afirmações do atual prefeito interino, Amazonino Mendes, de que a prefeitura estaria “quebrada” e com uma dívida. Além disso, manifestou-se sobre todas as declarações que Amazonino fez até agora, em 20 dias de governo, sobre a administração anterior.

Mais que isso, Serafim, ao seu estilo (na mesma semiótica que o atual prefeito-(s)em-exercício, mas com informações e menos marketing) mostrou ao próprio Amazonino e à população amazonense que ainda acredita numa prefeitura atuante antes da cassação que o sonho da desrazão eleitoral produz monstros.

O próprio Serafim, é bom que se diga, foi um destes produtos da desrazão eleitoral de uma cidade que não consegue fazer emergir através da atuação política de seus grupos sociais lideranças capazes de lidar eficientemente com os problemas desta. Evidencia, também, o aspecto mais realista do sistema democrático: nenhuma forma de governo ou organização funciona sem a presença ativa dos atores sociais. E neste sentido, as instâncias sociais têm se mostrado, quando não inertes, comprometidas com interesses diversos do movimento democrático que engendra a comunalidade.

O BATE-REBATE DE SERAFIM

A imprensa manoniquim, instância social enredada na armadilha do capital, deixa de ser jornalismo função cívica para se transformar em órgão de propaganda governamental. Daí as manchestes que noticiaram a resposta de Serafim terem um tom muitíssimo mais “ameno” do que aquelas que tentam exaltar o atual prefeito.

Como exercício filosofante de animador da inteligência coletiva e compreendendo a disseminação de informações como um direito de todos, este Bloguinho disponibiliza, com grifos nossos, trechos da fala de Serafim, dadas na entrevista coletiva do último domingo.

Sobre a Dívida: “Pra início de conversa o número de R$ 330 milhões é um número mentiroso, mas vamos trabalhar com a própria mentira e desmoralizá-la porque aí tem um gosto especial. Na campanha os meus adversários diziam que a prefeitura tinha muito dinheiro e que as coisas não aconteciam porque eu não tinha vontade política. Muito bem. O orçamento de 2009 é o orçamento que o Amazonino pediu, do jeito que ele pediu foi feito, aliás, eu atendi todos os pedidos dele, ele não tem o que reclamar. Agora, R$ 330 milhões que é o número que o Amazonino coloca, correspondem exatamente a dois meses de arrecadação do município de Manaus. Ele e a sua equipe de marketing. Então, se são dois meses de arrecadação podem ser resolvidos em janeiro e fevereiro. Já resolveu. Em dois meses está resolvido o problema e mesmo assim ele vem e diz: ‘olha, a prefeitura está quebrada’.”

Prefeitura Quebrada: 1993, o prefeito de Manaus fechou o ano devendo 36 meses de arrecadação, portanto, três anos de arrecadação. Ninguém disse à época que a Prefeitura de Manaus estava quebrada. Em 94 (1994) essa mesma prefeitura fechou o ano devendo 19 meses de arrecadação. Não tem também nenhum registro de que ela estivesse quebrada. Por que? Porque ela não estava quebrada. Em 2002 o Governo do Estado do Amazonas fechou com nove meses de arrecadação de dívida e ninguém disse que o Estado estava quebrado. Por que? Porque ele não estava quebrado. Se devendo 36 meses, em 93, a Prefeitura de Manaus não estava quebrada (porque 16 anos depois não existe um único registro disso) é claro que devendo dois meses a Prefeitura de Manaus não está quebrada. Agora vocês sabem quem era o prefeito em 93? Quem era o governador em 2002? Era exatamente o senhor Amazonino Mendes.

Material Estragado: “Disseram que ficou material estragado. Não apresentaram nenhum laudo de que tinha material estragado. Se tinha material estragado, tinha que chamar a Covisa, a Covisa dizia qual era o material estragado, fazer um laudo e ai fazer uma destinação desse material estragado. Não tem laudo disso. Ai vem e diz assim: 90 mil ovos (estragados). Eu não sei exatamente qual era a quantidade, é impossível o prefeito contar ovos na câmara frigorífica, mas eles ficaram em câmaras frigoríficas, portanto não poderiam ter estragado. Ovo em geladeira não estraga. Isso é elementar. (…) Os ovos ficaram na câmara frigorífica. Pra estragar, eles devem ter tirado da câmara frigorífica. Tira que é para estragar que é pra gente poder ter a manchete do jornal.”

Merenda Estragada: “Ai ele vem e diz que tem duas toneladas de merenda estragada. Também não mostrou laudo e nem mostrou os produtos. Agora vamos lá. Duas toneladas, se você dividir por 427 escolas, isso equivale, isso é menos do que cinco quilos por escola. Se você dividir duas toneladas por 247 mil alunos isso não dá 10 gramas para cada aluno.”

Remédio Estragado: “Ai ele vem com a história de que tinha remédios vencidos, 330 mil comprimidos. Dependendo do comprimido que seja, só pra vocês terem idéia do valor, se for daquele comprimido mais barato que custa um centavo, então isso equivale e R$ 3.300. O grande prejuízo que ele alega existir, mas ele coloca o número de R$ 330 mil, mas 330 mil não é nada diante de 120 milhões de comprimidos que foram distribuídos no ano de 2008.”

Computadores: “Ai ele vem e diz que tem 300 computadores que ele não sabe onde estão. Nenhum problema. Ele deve comunicar à polícia, abrir inquérito internamente e ver. O prefeito, o secretário não pode andar correndo atrás de computador. Tem um setor de patrimônio, setor de material que faz esse controle. Se alguém desviou alguma coisa, apure e não fique com essa história. (…) A prefeitura está altamente informatizada. Tudo dela está em sistema. Como eu falei o Siafem é que controla tudo. Agora gente, pra você acessar o Siafem é preciso você não ter medo de computador. A primeira providência do Amazonino foi tirar o computador da sala dele e disse o seguinte: ‘leva esse trambolho daqui’. Pra ele computador é trambolho. Será possível isso, no terceiro milênio? (…) Outra coisa. O programa dos estagiários é o único programa de Meu primeiro emprego no Brasil que deu certo. Disseram que tem seis mil estagiários. Sabe o que é? Porque eles não sabem mexer em computadores e foram mexer numa planilha de Excell, aí somaram o número de estagiários que existe com o número de vagas. O número de vagas é três mil e existem 2.600 (estagiários), porque não sabem mexer no Excell e somaram. Gente, isso é elementar. (…) Eu recomendaria o Amazonino a fazer um curso de Word, Excell, Windows, internet e passar e-mail, que ele não sabe. Não apenas ele, alguns outros secretários dele também não sabem.”

O Medo: “(…) No segundo turno o Amazonino ganhou a eleição. Terminou a eleição e não pararam de me bater, mantém, inclusive, contrato com marqueteiros pra continuar desconstruindo, tentando desconstruir a minha imagem. Porque será isso? Porque esse medo de mim? Qual é o medo? Qual é a razão? Eu acho que ai merece um exame mais profundo que cada um de nós vai fazer. Eu estou fazendo o meu exame, ainda não tenho a conclusão do porque desse medo.”

Competência” da Equipe de Amazonino: “Aliás, sobre a Manausprev, tem uma coisa que me assustou com o prefeito. Está aqui o certificado de regularidade previdenciária do Ministério, está disponível na internet (…). Agora anormal é o prefeito chegar na televisão e dizer o seguinte: eu vou pegar os R$ 184 milhões que o Serafim deixou na Manausprev, em caixa, aplicado no mercado financeiro, e vou emprestar para os funcionários do município. Muito bem. Isso está proibido pela lei 9717, que criou os fundos de previdência e está proibida pela lei de responsabilidade fiscal. Quando um funcionário ponderou a ela que tinha impedimento na lei, ela disse ‘mas a gente muda a lei, a gente manda uma mensagem pra Câmara e muda’. Só que a lei é federal e são duas leis, uma delas é lei complementar. Então eu vejo a mais absoluta desinformação do prefeito sobre os temas e lamento isso profundamente.”

O QUE SERAFIM VIU (E O QUE TODO MUNDO VIU)

Do que terá medo o atual prefeito, pergunta o ex-prefeito. O medo se manifesta como reação de impotência e sensação de aniquilamento iminente, tendo ou não causa definida. Isto, a psiquiatria sabe. Mas o que escapa do medo de Amazonino, manifesto na sua impotência em assumir a prefeitura, ainda que interinamente? Para o filósofo Spinoza, o medo é uma afecção que diminui a potência de agir, e que surge da imaginação, que cria imagens (idéias equivocadas). Nada que tenha passado pela razão pode causar medo. No entanto, Spinoza diferencia medo e desespero. Naquele, a afecção provém de uma imagem duvidosa, da qual não se tem a certeza da existência. Neste, existe a certeza – ainda que pela imaginação – da coisa temida. Fica portanto evidente que não é medo o que Amazonino sente; é desespero. O desespero da cassação iminente.

Aquilo que Serafim deixa no ar, talvez mesmo sem perceber, é o que toda a cidade já sabe. Amazonino, aos 20 dias de “governo”, não assumiu. O que se evidencia daí é que o candidato cassado assumiu na condição de cassado, e sabe bem disso. Como cassado, sente-se impotente diante de um estado de coisas que lhe é estranho. O maior desespero que pode se abater sobre um tirano – tirano de si, escravo das paixões – é a confirmação da certeza de que não há certezas. De que suas crenças e suas verdades já não encontram na realidade cotidiana elementos de sustentação, sequer ilusórios.

Com a cassação, orquestrada pela exímia e democrática equipe da Polícia Federal, e sentenciada pela ilibada Dra. Maria Eunice Torres do Nascimento, o céu de brigadeiro da eleição, para Amazonino, desapareceu, dando lugar ao real: tenebroso, sombrio, perigosamente democrático.

A apatia da prefeitura provisória de Amazonino é um sintoma da patologia anti-democrática que ele carrega como sujeito de enunciação: a síndrome da cassação iminente.

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