CINEMA BRASILEIRO FORA DO OSCAR?

O mais incauto dos estudantes de filmes sabe que filmar é visar através de uma lente/câmara um objeto exterior que será revelado posteriormente como representação/cópia deste objeto exterior filmado. Portanto, o filme, em sua linguagem copiadora, afastados seus elementos químico/físico, não é nada mais do que a cópia do objeto que nós temos como real. Seja como matéria orgânica ou matéria social. Assim, o filme tem como meio e fim a representação do que foi filmado como modelo dado à sensibilidade da câmara e à revelação em laboratório. Sempre o que está consignado no mundo objetificado. O que é tomado pelo realismo ingênuo como realidade.

Mas, talvez, o que o mais incauto dos estudantes de filmes não saiba é que o cinema, embora use a câmara, os elementos quimo/físico da película, o laboratório de revelação, decupagem, montagem, etc, ele não representa no écran (tela) uma cópia da realidade. Ele não é uma simples reprodução do que já se encontra representado no mundo exterior como objeto já visto.

O cinema, sendo arte do ver, põe no mundo novos signos/imagens a serem vistos. Signos/imagens que não são confirmações perceptivas e cognitivas já testemunhadas pelo público. Aí, como afirma o filósofo Deleuze, a relação do cinema com a filosofia. Enquanto a filosofia põe no mundo novos conceitos filosóficos, o cinema põe novas imagens. O não visto tornado visível pela criação do cinegrafista/filósofo. Como criaram Godard, Antonioni, Herzog, Bergman, Pasolini, Fellini, e outros poucos, considerados passados do neo-cinema, e outros poucos atuais.

Como a estética política/social do cinema não é capturar a ditadura da objetividade, que é dada a ser percebida como produto a ser difundido e preservado como real dominante, alienação da percepção e cognição, mas fragmentar essa realidade reificada como objeto a ser consumido como princípio do prazer, como diriam Marx/Freud, ou como afirmaria o filósofo Adorno, regressão dos sentidos e, consequentemente, deslocamento do pensar, a notícia de que o cinema brasileiro foi desclassificado da pré-lista dos filmes estrangeiros que concorrem ao Oscar é uma puríssima inverdade. O concorrente brasileiro “A Última Parada 174”, de Bruno Barreto, não é cinema. É filme. Como filmes são outros que seguem as mesmas ditaduras da objetividade como “Tropa de Elite”. Como filmes são os concorrentes do Oscar que seguem os códigos determinados pela sociedade fílmica de consumo cujo único objetivo é o lucro e o glamour. Para quem o conceito estético de cinema foi esvaziado para dar lugar ao produto teratogênico do olhar: o vazio da imagem fetichista que imobiliza os sentidos e atrofia o pensamento.

No mais, como o Oscar não expressa cinema e o representante brasileiro também não, a imprensa mais uma vez mostrou sua estupidez: notificou o inexistente.

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