MOISÉS MENDES: PROTEJAM-SE, PORQUE É MUITO MAIS DO QUE UMA GUERRA ENTRE MENDONÇA E MORAES
Publicado por Moisés Mendes
Muitos tombarão, para muito além dos limites do Supremo, na guerra aberta por André Mendonça contra Alexandre de Moraes. Parece acessório, em meio ao que se vê e ao que não se quer enxergar, o debate sobre o que Mendonça poderia fazer ou não deveria ter feito ao derrubar o sigilo de relatórios da Polícia Federal com denúncias contra o colega.
Também pode parecer valer pouco, sob o ponto de vista das liberdades absolutas, a controvérsia sobre o que o ministro autorizou a PF a fazer e que resultou em vazamentos e, agora, na explicitação pública de apurações policiais preliminares. Mas é a partir daqui, do que se discute como certo, razoável, ilegal ou arbitrário, que se dá o confronto em torno do que pode e não pode, mesmo numa guerra.
As primeiras batalhas conduzem Brasília a um cenário nunca visto antes nos embates entre ministros do Supremo. Mendonça muniu-se de mísseis nunca usados para apostar contra o que vinha sendo até aqui o mais poderoso integrante do STF.
O que será levado em conta a partir de agora passa pelo poder de reação de Moraes. Pelo espírito de grupo do Supremo. Pela necessidade de autoproteção de todos os seus membros e dos membros de outras instituições. E pela capacidade de interferência da política na crise criada por Mendonça.
Os vazamentos mexem com o ministro que mandou Bolsonaro, generais e manés para a cadeia. E que, mesmo acossado há vários meses, vinha tentando manter uma postura de destemor diante da fúria do bolsonarismo e do cerco dos jornalões.
Mendonça apostou contra Moraes, contra Paulo Gonet e contra o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Nem o mais otimista dos bolsonaristas imaginaria que seria possível, com os vazamentos em bloco e num dia só, gabaritar todos os grandes inimigos da direita.

Todo o sistema, desde a PF, passando pelo MP e chegando à mais alta Corte do Judiciário, teve declaração de guerra de Mendonça, que quase puxou junto o Banco Central, com as referências de Vorcaro a Gabriel Galípolo.
Os vazamentos reafirmam o que já se sabia, que o banqueiro interagia ou tentava interagir com meio mundo e que, na hora do desespero, pediu socorro a todos os que, entre o real e o delírio, poderiam ajudá-lo. Mendonça ofereceu o combo completo, e mais informações podem ser acrescentadas ao que já circula.
É previsível que perguntem se o próprio ministro, por inexperiência política e descontrole dos impulsos, não poderá descalibrar a artilharia e ver a crise se transformar em algo muito maior do que brigas entre ele, Moraes, a PGR, o comando da PF, o bolsonarismo e o lulismo.
Perguntem: e se o que começou hoje se transformar numa enxurrada incontrolável de imundícies, arrastando gente de dentro e de fora dos três poderes? Se as estruturas da democracia não derem conta dos desdobramentos da crise? Se a maioria inteiramente fascista ou meio fascista do Congresso se sentir empoderada?
Podemos perguntar obviedades, e o óbvio mais do que ululante nesse caso é se ninguém mais tem poder suficiente, nem Edson Fachin, para conter danos e amarrar um acordão. Se é que isso ainda seria possível.
O STF está colocando fogo nas próprias vestes e pode imolar quem tentar apagá-lo, enquanto Flávio Bolsonaro e a extrema direita se refrescam.