RENATO ROVAI: ANDRÉ MENDONÇA FERIU ALEXANDRE DE MORAES DE MORTE, MAS CAVOU SUA PRÓPRIA COVA
Depois da ressaca, a maré baixa e deixa na areia aquilo que ficou pelo caminho. Em Brasília, a ressaca provocada pela decisão de Mendonça começa a revelar justamente esse tipo de rastro
Adecisão do ministro do STF de quebrar o sigilo de um inquérito que cita Moraes provocou uma crise em Brasília e pode acabar se voltando contra o próprio Mendonça.
André Mendonça pode ter cavado a própria cova.
Depois da ressaca, a maré baixa e deixa na areia aquilo que ficou pelo caminho. Em Brasília, a ressaca provocada pela decisão de Mendonça começa a revelar justamente esse tipo de rastro.
O ministro provocou uma forte turbulência no Supremo Tribunal Federal ao determinar a quebra do sigilo de um inquérito no qual Alexandre de Moraes é citado. E, neste momento, todos os olhos estão voltados para ele.
Conversei com assessores de ministros do Supremo e há uma questão central sendo discutida: o instrumento utilizado por Mendonça para quebrar o sigilo pode ser anulado.
A razão seria que ele não teria consultado o Pleno do Supremo antes de tomar a decisão. Segundo essa avaliação, essa consulta seria obrigatória.
Isso não significa, evidentemente, que Alexandre de Moraes esteja livre de problemas.
O caso envolvendo o ministro parece muito complicado e, diante do cenário atual, uma possibilidade seria que ele pedisse uma licença do Supremo, inclusive para afastar a situação do processo eleitoral e permitir que, depois da eleição, os ministros discutissem os próximos passos.
Mas há uma contradição que não pode ser ignorada.
Estamos no meio de uma eleição presidencial e o mesmo André Mendonça mantém sob sigilo o inquérito relacionado ao caso Dark Horse, que envolve um dos candidatos com chances na disputa: Flávio Bolsonaro.
Mendonça está sentado em cima desse inquérito e não o abre.
E é justamente aí que a ressaca começa a atingir o próprio ministro.
Flávio Bolsonaro foi flagrado pedindo R$ 61 milhões a Daniel Vorcaro (e, segundo a revista Piauí, o candidato ainda teria recebido posteriormente mais R$ 8,5 milhões do ex-banqueiro), o mesmo personagem que aparece nas questões envolvendo Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci.
A situação, portanto, ganhou uma dimensão política evidente.
A decisão atingiu Moraes em um momento extremamente delicado, mas também colocou Mendonça sob os holofotes. E a pergunta que começa a circular em Brasília é até onde essa estratégia pode chegar — e se ela não acabará produzindo consequências para o próprio ministro.
A Procuradoria-Geral da República já entrou nesse jogo e pediu a anulação do relatório da Polícia Federal, um revés importante para Mendonça.
A bola da vez, número um, é Alexandre de Moraes. Mas já existe uma bola número dois — e ela começa com A.
André Mendonça.