MANAUS: UM PASSEIO PELA NÃO-CIDADE
A Classe Artística, os Blocos de Ressentimentos e a Linha de Fuga *
Uma das formas de manifestação dos fluxos comunitários de uma cidade se dá através da potência artística de seus habitantes. Nela, é possível engendrar novas formas de percepção e de afecções, que expandem a consciência, fortalecem as linhas de fuga que compõem processuais de singularização, e enfraquecer modos de existir que se encontram paralisados e são diminuidores das potências de agir das pessoas.
Assim, fica fácil compreender que a classe artística de uma cidade é importante no sentido de questionar os aspectos materiais e imateriais que a compõem. Quando Pablo Picasso compôs sua obra Guernica, foi possível vislumbrar através do olhar que o artista compôs, novas formas de ver os acontecimentos, e permitiu-se a abertura de formas alternativas de resistência à guerra e à ditadura. Um tanto diferente, mas com um efeito igualmente revolucionário, Van Gogh libertou as cores, as quais antes não se podiam fazer aparecer numa obra humana. Neste sentido, a obra de Van Gogh é necessária a milhões de pessoas e à inteligência coletiva, na medida em que empurrou os limites da percepção e da afetividade humanas, “limando pacientemente o muro”.
Infelizmente, em Manaus, desenvolve-se um outro tipo de classe artística, que carrega, ao invés, o ranço da debilidade dos imitadores e que perpetuam uma arte de classe, uma cultura de dominação pela estupidez e pela aridez perceptivo/afetiva, e um conceito de cultura reacionário e enfraquecedor das potências criadoras comunitárias.
CULTURA E DEPENDÊNCIA
Uma cidade, para existir, precisa carregar dois elementos que fundamentam e constroem as linhas necessárias ao seu existir: primeiro, é necessário que ela seja comum, que a sua dinâmica de existência, os atos, os fatos, sejam realizados e compreendidos dentro de um entendimento comum. Assim, os habitantes desta cidade concebem o seu corpo e o seu espírito (idéia) como necessários a si e ao outro como força criadora. Cada qual, dentro do que os seus percursos lhe proporcionaram em termos de habilidades, de saberes e de gostos, utiliza seu talento, inteligência e potência criadora no sentido de produzir material e imaterialmente produtos que auxiliem no fortalecimento dessa comunalidade. Assim, todo objeto é político. Assim o foi na Grécia, quando os homens livres, através da inteligência e linguagem construíam a cidade. Os artistas, neste sentido, tem em suas produções obras que exprimam rupturas no cotidiano,que alterem o estado de a-phatia que a ausência do movimento produz. A partir deste entendimento, toda obra do homem, todo objeto ‘humanizado’ pelo toque humano (trabalho), é parte costitutiva de sua Cultura.
No entanto, quando estas produções são selecionadas, classificadas e valoradas de acordo com um olhar criado para segregar o outro e tornar o comum uma propriedade, desfaz-se o aspecto político da obra, ela deixa de ser artística (no seu sentido de produção de comunalidades) para se tornar um objeto de arte-mercadoria. E o artista, um produto. Este conceito de Cultura, chamado pelo filósofo francês Félix Guatarri de Cultura-Valor, é próprio da sociedade de consumo, que relativiza os objetos em nome do capital.
Assim, este conceito de cultura-valor está bem disseminado no chamado mercado das artes, e a maior parte dos governos tirânicos (principalmente os que se dizem democráticos) procura se apropriar dessas produções artísticas e de seus produtores. É quando o artista deixa de sê-lo – se é que algum dia o foi – para se tornar uma mercadoria dentro do mercado do entretenimento que transformou as artes em descartáveis objetos de consumo.
“O problema de Manaus é que quando mostram aqui, só mostram floresta. Não procuram explorar outros aspectos da cidade. Até o ritmo da música é uma exploração do regionalismo”.
Duas Ilustrações manoniquins:
O BOI COCANESTLELIZADO E O FESTIVAL FOLCLÓRICO: o filósofo da liberdade, Sartre, em sua psicanálise existencial, explica que uma das estratégias que os impotentes criaram para suportar a sua impossibilidade de criação foi o sentimento de apropriação. Se não podem ser (=fazer), então eles têm. O ter aqui significa se apossar da produção alheia e apresentá-la ao olhar do outro como sua, criando a ilusão do existir pela exaltação da dor. Assim o Estado procura apresentar como produção sua aquilo que se engendrou num contexto social, político-existencial, e que é produção autêntica da inteligência coletiva. O boi parintinense que tomou conta de Manaus nada tem a ver com as produções resultantes das relações do negro, do chamado índio, do cafuzo, do caboclo, da produção econômica da pecuária, das diferenças econômicas e de classe no Brasil colonial e que engendraram o bumba-meu-boi. Os bois de Manaus aceitaram a sela dos governos e agora neles montam candidatos zil, a se aproveitar do rastro quase inexistente da produção subjetiva artística que um dia carregaram estas manifestações.
OS ARTISTAS CABOS-ELEITORAIS: no afã de ocupar o buraco existencial-barrigal, alguns que se acreditaram em algum momento artistas, embora nada produzam que carregue partículas comunitárias, se lançam ao chamado mercado artístico local. Como a voracidade globalizante e o ranço do complexo de inferioridade herdado da dependência do Grão Pará e dos imbricamentos microfascistas do Forte de São José do Rio Negro fizeram de Manaus terreno fértil para os aplausos ao extraterreno (xenofilia) e à indiferença às produções locais, a produção artística-comunitária também acabou sufocada. Manaus é uma cidade onde quase não existem trabalhos de grupos independentes do capital de Estado, e que pense uma arte mais próxima do real. E o que hoje é considerado como movimento artístico (o Clube da Madrugada, como ilustração) nada mais são do que produções individuais ou grupais advindas não de uma experimentação do mundo para além do si, mas de fantasias e de imagens-clichê de quem foi capturado pela subjetividade decadente do capital. No entanto, no momento em que interessa aos governos criar uma ilusão da pujança cultural para a não-cidade, começa-se a trabalhar marketeiramente essas produções clichezadas, forçando uma valorização que não se deu pelas movimentações afetivas, mas por decreto tirânico de quem se acredita proprietário dos saberes e da linguagem. Assim, cria-se uma subjetividade onde ser artista é aderir ao mercado de entretenimento, e ser dependente das verbas governamentais e do lusco-fusco da ilusão do olhar midiático. Episódios como o da eleição municipal anterior, onde praticamente todos os cantores locais prestaram apoio ao então candidato Amazonino Mendes, gravando até jingle comercial para a TV, e na iminente derrota do admirado patrão, no dia seguinte, como fez o narcisado Zezinho Corrêa, rei morto rei posto, correr dos braços do derrotado para os pés do eleito, como se fossem amigos de velha data, são evidências desta subjetividade de linha dura da normatização dos modos de existir. Outro exemplo destes artistas sujeitos-sujeitados à ordem do lucro são os chamados intelectuais da literatura amazônida, que nunca pisaram numa escola pública, não saem de casa senão para as nababescas autopromoções das associações culturais e literárias (dirigidas por eles mesmos, que premiam a si mesmos), admirarem-se de não serem conhecidos pelos estudantes manoniquins. Descobriram, atônitos, que de nada valeu obrigar os vestibulandos a ler livros da literatura amazonense; restou então aceitar humildemente verba municipal para tardes de sarau literário nas escolas amazonenses, sob o beneplácito da secretaria de educação, projeto de máximo zelo pela cultura local. Sem falar – já falando – no humanista Thiago de Mello, esfinge erguida a um passado de lutas contra a ditadura, esquecendo que o tempo-passado não conta senão nas contabilidades funestas do julgamento divino, e atualmente ferrenho defensor de políticas segregacionistas do interior – sobretudo Barreirinha, onde reside – e cabo eleitoral eterno de Amazonino Mendes.
“Com os artistas de Manaus não ocorre uma arte como transformação da cidade. Por exemplo, o forró daqui não envolve nada de social e de político em suas músicas”.
MIGRAÇÃO E XENOFOBIA
Recentemente, o ícone-mor da cultura erudita manauense, o ex-presidente da FUNARTE do governo FHC por 8 anos, escritor com livros adaptados pela sapientíssima rede globo para a TV, Márcio Souza, afirmou que a migração de paraenses, maranhenses e outros para Manaus, desvirtua e enfraquece a cultura local. Talvez o supracitado intelectual enuncie, sem o saber, a partir do conceito de cultura-alma coletiva (Guattari), que credita origens étnicas e propriedade intelecual para as produções humanas, e creia na impossibilidade de acasalamento entre as culturas amazônidas, paraenses, maranhenses, etc. Mas neste caso, o que dizer do boi? E do teatro, que sob este ponto de vista seria grego, e do qual ele se arvora ser representante oficial referendado pelo governo e prefeitura? Talvez ainda o referido teórico da arte dirigida a poucos, rescaldos dos governos FHC, que Gilberto Gil desmontou e continua desmontando com maestria, que estes extraterrenos cheguem aqui sem nenhum arcabouço cultural que seja relevante para o enriquecimento da pujante cultura manauense (Cultura-Valor). O que poderiam trazer do Maranhão, do Pará, do Ceará, do Piauí, que fosse relevante ou importante para Manaus?, perguntar-se-ia. Mas neste caso, não poderia, como o fez, exaltar o teatro Amazonas, ícone do chamado Período da Borracha, época de grande circulação de capitais na cidade, quando foi erguido, por conta do delírio xenófilo dos barões da borracha, e ao custo do suor e sangue dos arigós – migrantes nordestinos, principalmente cearenses, e do Pará -, seja nas matas e seringais, seja na construção do teatro, que ceifou muitas vidas.
“Eu achava que quando chegasse aqui só iria encontrar índio, porque na televisão só passa comercial de índio”.
Porém, para aqueles que saem de casa, que percebem as diferenças dos modos de existir e de compreender o mundo trazidas pelos migrantes das diversas regiões que vêm para Manaus, pode perceber que estas diferenças não estão apenas nas concepções, mas nas atitudes. A maior parte dos migrantes e seus descendentes carregam os fluxos comunitários criados pela população do local onde viveram, e esta envolve seu modo de ser, suas crenças, atitudes e concepções. Muitos deles estranham a mesmice e o marasmo que toma conta de Manaus quando aqui chegam. Começam, então, a realizar suas produções, e envolver pouco a pouco vizinhos, colegas, amigos, contaminando as pessoas ao redor e produzindo micromovimentos artísticos, políticos, afetivos, econômicos, e logo se percebe a diferença. Talvez os imbricamentos resultantes destes corpos-afetantes do maranhense, do paraense, piauiense, rondoniense, roraimense, acreano, goianiense, matogrossense, paulista, gaúcho, pernambucano, baiano, cearense, venezuelano, boliviano, peruano, guianense com os amazonenses, possa produzir encontros que aumentem as potências de agir, e polarizem linhas afetantes produtoras de novos afetos e percepções. E nada assusta mais um falso artista do que a possibilidade de produções autênticas onde antes só se acreditava na arte como ilusão pela força da dor e do ressentimento.
Esta coluna acredita nos processuais de encontros entre todas as expressões existenciais, independente das coordenadas geopolíticas, para o enfraquecimento desta subjetividade linha dura que impede Manaus de ser uma cidade. Assim como o companheiro Waldeci, 18 anos, cantor e compositor vindo lá de Macapá, que aqui chegou, foi sacando a jogada, empunhou seu violão e foi à luta. Sobre o olhar de alguns ditos artistas amazonenses, Waldeci comunica seu entendimento:
“Em Macapá, tu vê mais os artistas tentando quebrar a rotina do realismo, tirando mais aquela pintura de paisagem. Eles querem quebrar com isso. Aqui, não. Aqui é só ‘natureza’, eles não tentam quebrar com o realismo. Eles vivem só batendo na mesma tecla, não tentam evoluir, mudar a arte. A arte é mudança. Os caras querem produzir, mas só pegam aquela mesma paisagem para pintar, que já está no cotidiano de todos. Os caras aqui não criam, acabam só explorando o que já tem”.
* Os toques em destaque são de estudantes que participaram das discussões sobre este post.