MANAUS: UM PASSEIO PELA NÃO-CIDADE

DESINFORMAÇÃO E MARKETING DA SAÚDE NO AMAZONAS

O que torna uma informação necessária é a maneira pela qual ela é colocada na existência das pessoas e qual a sua relevância para o processo contínuo de construção da cidade e suas produções materiais e imateriais. Quando enunciada como mero artifício que tende a constituir uma realidade que diminua a potência de agir das pessoas, a informação entra na ordem da linguagem redundante (palavra de ordem), tomando o receptor como sujeito de enunciado, passivo diante da mensagem. Daí o filósofo Paul Virilio afirmar que a informação só pode existir quando carrega elementos que auxiliam no engendramento do novo.

Dando continuidade ao passeio sobre a não-cidade e os governos do marketing (prefeitura e governo do Estado), esta coluna aborda hoje a questão da saúde, lançando o questionamento: quais as conseqüências da ausência dos governos no tocante ao esclarecimento à população sobre o funcionamento da rede pública de saúde?

O governo do Estado e a Prefeitura investem anualmente um grande contingente de recursos na área de propaganda e marketing de suas ações. No aspecto da saúde, a cada nova inauguração, são alardeados o interesse e o empenho dos governantes com relação à saúde da população. O prefeito é visto quase que semanalmente “inaugurando” unidades básicas de saúde (algumas delas que receberam apenas uma mão de tinta). Enquanto esse marketing todo acontece, a relação entre os agentes e usuários da saúde no Amazonas é conflituosa graças à ausência de informação e educação com relação ao funcionamento da rede de saúde.

PRA ONDE EU LEVO A MINHA DOR?

A maior parte da população não sabe a divisão organizacional da rede de saúde, qual a competência e a abrangência da atuação clínica de cada uma de suas unidades. Se alguém está com dor de dente, para onde deve se dirigir? E em caso de hipertensão arterial? Quando a questão é saber para onde se dirigir em caso de necessidade, e não se tem esta informação, o problema se torna grave.

Médicos, enfermeiros e outros trabalhadores da área da saúde relatam inúmeras situações em que pacientes aguardam horas nas filas dos postos de saúde e/ou unidades de pronto atendimento (SPA), e quando chega a vez de serem atendidos, apresentam moléstias que não são tratáveis ou não requerem os cuidados dispensados naquela unidade.

Situação 1: usuária moradora próxima a unidade de atendimento especializado leva sua filha, deficiente e com febre alta, de ônibus, até o atendimento. Lá, é informada de que não poderá ser atendida, pois precisa de um encaminhamento de uma unidade básica de saúde (UBS). Desesperada, a mãe chora, grita, e é retirada por seguranças, enquanto um enfermeiro, penalizado com a situação, tenta negociar a saída da ambulância para levar a jovem a um pronto socorro. Não sabemos se obteve a autorização.

Situação 2: usuários com ferimentos graves (tiros, facadas, etc), e que procuram unidades de pronto atendimento, quando o tipo de cuidado requerido neste caso só pode ser oferecido por unidades hospitalares de internação.

Situação 3: Gripe, dermatites e outras situações comuns e que seriam atendidas numa unidade ambulatorial, e que acabam, por desinformação, congestionando os pronto atendimentos. É comum também que ameaças de aborto ou abortos consumados, que são casos para maternidades, procurarem as unidades de pronto atendimento.

Situação 4: em uma unidade de pronto atendimento, mulher com fortes dores abdominais aguarda na fila para ser atendida, após triagem com o enfermeiro. Quando chega sua vez, o médico observa a gravidade do caso e orienta a usuária a procurar o hospital, e reclama da falta de atenção na triagem feita antes dos atendimentos. “Esta mulher pode estar sofrendo de apendicite, e morreria nesta fila aguardando atendimento”.

(DES)INFORMAÇÃO E (DES)ORIENTAÇÃO MOSTRANDO TRABALHO

O governo federal lançou o Pacto pela Saúde, em fevereiro de 2006, e tem como objetivo consolidar a atuação do SUS. Os Estados brasileiros têm a opção pela aderência ou não ao plano. De acordo com o site da SUSAM, o Amazonas é um dos Estados que aderiu. O Pacto prevê o trabalho de divulgação e apoio dos processo de educação popular em saúde, visando ampliar a participação popular no SUS.

Em Estados como Rio de Janeiro e São Paulo, além de trabalharem a divulgação dos serviços oferecidos pela rede pública regional de atenção à saúde através de panfletos e campanhas educativas, mantém serviços online de orientação aos usuários. Embora se saiba que a maioria dos usuários não tem acesso à internet, o esforço faz parte da tentativa nestes Estados de popularizar seus serviços de saúde. Em Manaus, não há nenhum esforço neste sentido, e até mesmo a cartilha do usuário do SUS com os direitos não é distribuída nas unidades.

Num Estado onde as políticas públicas são voltadas para o delírio decadente do amor ao capital, e não engendram a formação de comunidades de afetos, a doença – em todos os sentidos – prolifera, ainda mais se a rede de atenção à saúde também for vítima da moléstia da falta de informação e de orientação.

Mais situações da rede de saúde manoniquim, aqui.

Colabore com a coluna Manaus: um passeio pela não-cidade, e enfraqueça os blocos de afetos e percepções clichezadas que impedem o engendramento das comunalidades. Mande sua sugestão de tema para afinsophiaitin@yahoo.com.br.

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