A MÍDIA TELEVISIVA E A OPINIÃO PÚBLICA
O Panópticon Televisivo

Dos Conceitos
& Panóptico. Criação de Jeremy Benthan, pensador influente do Iluminismo. Trata-se de uma construção de arquitetura em formato de anel. No centro há uma torre. Nesta há aberturas (janelas) para o interior do anel. A parte periférica é dividida em espaços de enclausuramento (celas) que tomam toda a largura da construção. Nas celas há duas janelas (uma que corresponde às da torre e outra dando ao exterior). Pela janela exterior, a luz atravessa a sala. Na torre há um vigia que não é visto, mas que se sabe de sua existência. Com o efeito da contraluz, pode-se perceber a silhueta dos que estão nas celas. O princípio do panópticon é a concentração de uma visibilidade total dos corpos por um mecanismo que instala uma dissociação entre quem vê e quem é visto e o efeito de luz que faz com que os corpos apareçam mesmo involuntariamente. O panóptico é primeiramente uma organização arquitetônica para a vigilância para depois se tornar um dispositivo efetivo de poder, posto que estabelece uma rede entre os vários elementos (discursos, instituições, construções urbanas/arquitetônicas, leis, regras, medidas administrativas, etc) que configuram a vigilância completa dos corpos com implementações econômico-políticas na sociedade.
& Tevê. É um aparelho eletrônico. Funciona a partir de pontos luminosos eletromagnéticos que se compõem formando as imagens. Ficam espaços vazios entre os vários pontos, o que faz com que as imagens não sejam nítidas. Tende a ser um médium, um transmissor eletrônico, de comunicação/informação formador de opinião pública. Tem sua estrutura organizada através de horários, faixa etária, censura, assuntos específicos concentrados no entretenimento (cultura) e informação (notícias de interesse público). É pública, pois faz parte dos bens públicos do Estado. Por um período determinado é concedido a organizações ou a empresários a concessão que dá o direito de transmissão através de canais abertos. Entretanto, os donos temporários das concessões fazem dela um modo de produção, uma vez que estabelecem contratos com empresas privadas que modelam a programação televisiva determinando uma formação social e econômica própria da produção centralizadora capitalística.
& Sociedade Disciplinar. Conceito criado pelo filosofo Michel Foucault. Série de dispositivos disciplinares que acionam mecanismos de poder através de espaços de enclausuramento e técnicas de vigilância. Estes espaços em reciprocidade com a vigilância constituem formas fixas e implementações econômico-políticas. Na sociedade disciplinar os corpos são docilizados tornando-se exploráveis economicamente e impotentes politicamente.
Médium Televisivo: Vigilância e Espaço Disciplinar
O que caracteriza a vigilância é menos a certeza de que se está sendo vigiado do que a sensação de estar constantemente perseguido por um “espectro” invisível. O médio televisivo realiza a dissociação entre quem vê e quem é visto. O tele-espectador vê a programação da tevê, mas não é visto por ela. Se a comunicação/informação deve estabelecer uma troca entre um falante e um ouvinte, o médio televisivo realiza a hegemonia do falante sobre o ouvinte. Não há a troca que estabeleceria a reciprocidade entre os pólos necessários para a comunicação/informação. A tevê, portanto, vigia sem ser vista, pois age como dona da opinião pública.
O médium televisivo se configura como o vigia do panópticon (panópticon televisivo) que tudo vê, sem ser visto, à sua volta. Na sua periferia estão os corpos enclausurados em suas instituições (famílias, escolas, fábricas, hospitais, bares, pontos públicos de lazer, etc.), ela vigia e disciplina os corpos. A tevê aplica sua vigilância fazendo com que o próprio tele-espectador seja seu vigilante. Como a sua estrutura determina classificações, identidades, divisões e serializações, o tele-espectador é espreitado a todo momento pelas pesquisas de opinião pública que vão formando o perfil adequado para o aumento do ibope (medida televisiva que mensura a relação entre redes de tevê e mercado). O médium televisivo mantém uma vigilância ao nível da economia de mercado à medida que se apresenta como grande vitrine da sociedade de consumo. Para tanto, a tevê centraliza sua programação na propriedade privada, em notícias rasteiras, nos meios de produção e em comunicação/informação enquanto síntese da realidade. A tevê vigia devido manter uma centralização que rompe com a comunicação/informação e se fecha no modo de produção capitalístico agrupando consumidores de forma direta e indireta. A tevê não nos olha e impede o olhar (corte das imagens constituídas e criação de novas maneiras de ver o mundo) do tele-espectador.
O médium televisivo age de forma a disciplinar os corpos. Sua própria estrutura (e aqui não importa o conteúdo vinculado) é um espaço fixo fechado. Seus programas são direcionados segundo a lógica do capital que implica em uma realidade sintetizada em uma ordem econômica-social própria da relação produtor-consumidor. E como o médium televisivo não trata a opinião pública como um acontecimento onde todos falam e são ouvidos, como ela tenta escamotear o movimento intensivo da efetividade (sem consegui-lo), toda a sua forma é para aumentar a exploração econômica dos corpos e impotencializá-los politicamente. O espaço televisivo não é o espaço físico da sua tela ou mesmo de seus bastidores, mas um um espaço disciplinar que implementa incorporações do poder, pois isola, hierarquiza, classifica e identifica com o objetivo de tornar os indivíduos capazes de realizar funções para o Estado.
Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.