LULA NA ITÁLIA: AÇÃO INTEGRADA E REALIDADE INTEGRAL
Lula chegou domingo à Itália para uma visita de cinco dias, que terminará na próxima quinta-feira. Ontem houve o encontro com o presidente da Itália, Giorgio Napolitano, e o presidente da Câmara dos Deputados, Gianfranco Fini, hoje será o encontro com o primeiro-ministro “Il Caimano” Silvio Berlusconi, depois empresários, banqueiros e, finalmente, seu último encontro será com o papa homogenista Bento XVI. O principal tema do encontro é o “aquecimento” da relação comercial entre os dois países como parte de uma ação integrada para conter avanços da falsa crise financeira mundial.
Entre abraços e apertos de mão de Lula e Berlusconi hoje, parece apenas um visita protocolar de chefes de estado. Mas dadas as disparidades biográficas/políticas entre os dois, é preciso ver a partir de uma análise radical, à maneira de Baudrillard/Marx, num vídeo chamado Carnaval Canibal, que ele enviou a Porto Alegre, para ser projetado no seminário “Metamorfoses da Cultura”, ocorrido em 2005, e que se encontra traduzido e transcrito no CMI Brasil.
TODOS NO MESMO BARCO. MESMO?
Diferentemente do crash da bolsa de Nova York em 1929 — e até mesmo da quebradeira brasileira durante os (des)governos de Fernando Henrique —, já não há tantos traços de dominação, que instituía uma relação de subjugação do Brasil aos países aos países europeus e, principalmente, aos Estados Unidos.
“A hegemonia começa aí, neste desaparecimento da relação dual, pessoal, conflituosa, em proveito de uma realidade integral: a das redes, do virtual e de uma troca integral, onde não há mais dominantes nem dominados.”
É por isso que Lula, que faz um governo de afirmação democrática, conseguindo estabilizar a economia brasileira, agora tem de sentar à mesa com Il Caimano, com quem em outros tempos estaria em embate, para tentar entrar em um “consenso” — outra faceta de comprovação da hegemonia.
A FRÁGIL FORMA METASTÁVEL
Acontece que a hegemonia somente é hegemonia se absorver tudo, inclusive, em metástase, aquilo que lhe é negativo: Lula, um torneiro mecânico se torna presidente do Brasil, Obama, um negro na presidência dos Estados Unidos, são exemplos. Mas tudo na hegemonia é ambíguo, ela está sempre tentando falsear as singularidades “até se tornarem uma paródia de si mesmas”. Lula disse recentemente que há uma torcida para que a chamada crise afete o Brasil. A direita, canhestra que é, com sua interface, a mídia seqüelada, ressentiu-se; mas a questão não é só do ponto de vista econômico, passa por uma deculturação generalizada, “rebaixamento dos valores”, adesismo igualitário, etc. É esse simulacro, essa repetição da história como farsa (Marx) que a direita brasileira, americana, européia, Silvio Berlusconi tenta segredar/segregar. No mais, na passagem de Lula pela Itália, ele prefira o encontro — aí sim, finalmente um encontro — com o cineasta Nanni Moretti, e oxalá as impressões de Baudrillard sejam afirmadas:
“Todos aqueles países que se quer aculturar à força aos princípios de racionalidade econômica e política, ao mercado mundial e à democracia, a um princípio universal e a uma história que não é a deles, da qual não têm nem os fins nem os meios (e aliás será que nós, os ocidentais, os donos do mundo, ainda estamos à altura desse empreendimento universal de domínio, que parece hoje nos ultrapassar por todos os lados e funcionar como uma cilada cujas primeiras vítimas somos nós mesmos?) ? todos esses países que são o resto do mundo nos dão a impressão (o Brasil, por exemplo) de que jamais serão aculturados a este modelo exógeno de cálculo e de crescimento, que são profundamente alérgicos a ele.”