POLÍCIA FEDERAL MAPEOU MORDOMIAS DE R$ 1,8 MILHÃO E VÊ ELO ESPÚRIO DE CIRO COM VORCARO
afinsophia 02/06/2026 0
Investigação aponta férias de luxo pagas pelo banqueiro, repasses periódicos e atuação legislativa alinhada ao Banco Master

Um relatório de mais de 60 páginas da Polícia Federal, obtido e revelado pela revista Piauí, detalha a estreita relação financeira entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos principais líderes do Centrão, e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A investigação embasou a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou uma nova fase de buscas e apreensões contra o parlamentar.
Ao analisar o material coletado pela PF, que inclui fotos, datas, registros de voos e mensagens de texto, o ministro escreveu que as evidências apontam para um “arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera amizade”. A suspeita é que a atuação legislativa do ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL) tenha sido colocada a serviço dos negócios do banqueiro em troca de vantagens patrimoniais e despesas pessoais de alto luxo.
Férias de R$ 1,8 milhão nos Alpes Franceses
O episódio mais emblemático do elo entre político e empresário ocorreu em janeiro de 2025. Segundo o rastreamento da PF, Ciro Nogueira e sua companheira, Flávia Rosalen, passaram 13 dias em Courchevel, sofisticada estação de esqui nos Alpes Franceses, com todas as contas pagas por Vorcaro. O custo total da viagem somou exatamente R$ 1.849.201,00.
Mensagens interceptadas em 23 de janeiro de 2025 mostram Leo Serrano Giunchetti, operador de logística de Vorcaro nos EUA, perguntando ao banqueiro se os funcionários deveriam continuar pagando as contas de “Ciro/Flavia até sábado”. Vorcaro confirmou: “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths.” No período da conversa, o senador usufruía do cartão de crédito do empresário na Europa.
Mesadas, empresas e ‘Emenda Master’
A apuração indica que os mimos internacionais eram parte de um fluxo permanente de recursos. Trocas de mensagens de 2024 entre Vorcaro e seu primo, Felipe Cançado Vorcaro, indicam pagamentos periódicos — tratados pela PF como mesada — que começaram em R$ 300 mil e depois subiram para R$ 500 mil. O pretexto formal era o aporte na BRGD, empresa ligada à família de Nogueira.
A PF também identificou que a empresa CNLF Empreendimentos Imobiliários, controlada pela família do senador, comprou 30% da Green Investimentos por R$ 1 milhão, embora a fatia societária valesse cerca de R$ 13 milhões. Outro indício de favorecimento surgiu em novembro de 2025, quando Ciro pediu diretamente a Vorcaro para permanecer “três, quatro meses” no apartamento do banqueiro em São Paulo, até que um imóvel próprio fosse desocupado.
Em contrapartida, a PF aponta a atuação direta do senador em prol do Banco Master no Congresso. Ciro apresentou uma proposta legislativa para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em caso de quebra de instituições financeiras. Apelidada nos bastidores de “emenda Master”, a medida blindaria o modelo de negócios de Vorcaro. Ao ver o texto protocolado, o banqueiro celebrou por mensagem, afirmando que a emenda saíra “exatamente como mandei”.
Outras conexões sob suspeita
O escrutínio sobre o patrimônio da família Nogueira foi ampliado após relatórios do Coaf apontarem movimentações financeiras incompatíveis com os rendimentos declarados do senador. Entre os negócios sob análise estão a compra de uma cobertura de R$ 22 milhões na Rua Oscar Freire, em São Paulo, e transações imobiliárias suspeitas com empresas de Ricardo Magro, dono da refinaria Refit.
O avanço da apuração sobre o Banco Master surge como o flanco mais sensível da longa trajetória de três décadas de Ciro Nogueira em Brasília, período no qual ele controlou nomeações de cargos e fatias expressivas do orçamento federal. Embora seu nome tenha orbitado escândalos anteriores, como a Operação Lava Jato, ele nunca sofreu condenação definitiva.
Em sua defesa, Ciro Nogueira minimiza os episódios e nega categoricamente qualquer irregularidade. O parlamentar sustenta que suas relações com empresários ocorrem dentro da legalidade e de forma transparente, comparando jantares e caronas de helicóptero a cortesias habituais no meio político. O senador afirma ser alvo de perseguição política.