POLÍCIA FEDERAL ENCONTROU ELEMENTOS DE LAVAGEM DE DINHEIRO E CORRUPÇÃO DE FLÁVIO BOLSONARO EM DARK HORSE
Inquérito aberto por André Mendonça apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção em repasses de Daniel Vorcaro para a produção do filme sobre Jair Bolsonaro
Flávio Bolsonaro é investigado no STF por causa do financiamento de Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O inquérito foi aberto em 23 de julho por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF) e apura repasses feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para a produção do filme.
A Polícia Federal investiga a eventual prática de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros crimes relacionados ao financiamento da produção, segundo documento da corporação que trata da instauração do inquérito.
A investigação busca esclarecer a origem, o caminho e o destino dos recursos repassados à produção depois de pedidos feitos por Flávio Bolsonaro a Vorcaro. O senador reconhece que procurou o banqueiro para obter financiamento privado para o filme, mas nega qualquer irregularidade.
Flávio Bolsonaro é investigado desde julho
O caminho do caso até a abertura formal do inquérito começou semanas antes da decisão de Mendonça.
Em maio, mensagens e áudios revelados pelo Intercept Brasil mostraram Flávio Bolsonaro cobrando de Daniel Vorcaro recursos para financiar Dark Horse. As conversas mencionavam uma negociação de até US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões pela cotação da época.
Os repasses efetivamente identificados pelos investigadores foram menores. A apuração já localizou aproximadamente R$ 61 milhões enviados para estruturas relacionadas ao financiamento do filme.
Em 1º de julho, Mendonça encaminhou à Procuradoria-Geral da República uma notícia-crime apresentada pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), que pedia a apuração da relação entre o dinheiro de Vorcaro, o financiamento do filme e integrantes da família Bolsonaro.
Onze dias depois, em 12 de julho, outra decisão do ministro, localizada pela Fórum nos autos da Petição 15.556, mostra que o caso já havia se desdobrado em diferentes pedidos de investigação.
No despacho, Mendonça analisou duas notícias-crime apresentadas pelos deputados Luciene Cavalcante (PSOL-SP) e Henrique Vieira (PSOL-RJ) contra Flávio Bolsonaro.
A primeira citava diretamente as revelações sobre a negociação entre o senador e Vorcaro para conseguir recursos destinados ao filme. A segunda também pedia investigação sobre as relações entre Flávio e o ex-controlador do Banco Master.
Mendonça determinou que os pedidos fossem retirados da Petição 15.556, processo principal do caso Master, e autuados separadamente. Também mandou que fossem conectados a outros procedimentos que já tratavam dos mesmos fatos — as Pets 16.292, 16.078, 16.063 e 16.059 — e enviados ao Ministério Público Federal.
A abertura formal do inquérito ocorreu em 23 de julho. Mendonça atendeu a pedido da própria Polícia Federal, que recebeu parecer favorável do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
PF rastreia dinheiro enviado aos Estados Unidos
Parte central da investigação está no caminho internacional dos recursos.
Os pagamentos atribuídos a Vorcaro passaram pela Entre Investimentos e Participações e foram enviados ao Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos que administrava recursos ligados ao Dark Horse.
A partir dali, valores teriam sido encaminhados para a Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme.
A PF procura saber se todo o dinheiro enviado ao exterior foi efetivamente utilizado na produção cinematográfica e quem foram os beneficiários finais dos recursos.
O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro e ligado à Entre Investimentos, também passou a colaborar com a Procuradoria-Geral da República. Segundo informações divulgadas nesta semana, ele afirmou ter realizado transferências de aproximadamente R$ 61 milhões para o fundo norte-americano.
A Fórum já mostrou outros desdobramentos envolvendo a rede empresarial ligada à produção de Dark Horse.
Investigação permanece sob sigilo
O inquérito sobre Flávio Bolsonaro continua sob sigilo no Supremo.
Na noite desta quinta-feira (10), André Mendonça retirou a restrição de acesso de uma série de procedimentos ligados ao caso Banco Master depois de uma determinação do presidente do STF, Edson Fachin, para ampliar a publicidade dos autos.
A medida tornou públicos 15 procedimentos relacionados às investigações do conglomerado financeiro, mas não alcançou o inquérito que apura Flávio Bolsonaro e os recursos destinados ao Dark Horse.
O caso também não deve ser confundido com a investigação conduzida pelo ministro Flávio Dino, que apura uma frente diferente: a suspeita de utilização irregular de emendas parlamentares destinadas a entidades e empresas ligadas à produção do filme.
Nessa segunda apuração, a Polícia Federal realizou nesta quinta-feira (10) a Operação Make Up, que teve entre os alvos o deputado Mario Frias (PL-SP) e a produtora Karina Gama.
Já o inquérito relatado por Mendonça concentra-se principalmente no dinheiro de Daniel Vorcaro e na participação de Flávio Bolsonaro na captação dos recursos.
Flávio afirma que os aportes feitos para Dark Horse são recursos privados destinados a uma produção privada e nega que tenha havido qualquer contrapartida ou vantagem indevida. O espaço segue aberto para manifestações dos demais citados.