ELEIÇÃO EM PORTUGAL: ESQUERDA E EXTREMA DIREITA VÃO AO 2° TURNO NA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL
António José Seguro, do Partido Socialista, e André Ventura, da legenda fascista Chega, disputarão a chefia do Estado em 8 de fevereiro. Veja os números
Em uma eleição marcada por alta fragmentação e polarização política, os portugueses decidiram neste domingo (18) que o próximo presidente da República será definido num segundo turno entre António José Seguro, de esquerda, do Partido Socialista, e André Ventura, de extrema direita, da agremiação fascista Chega. Com 95% da apuração concluída, Seguro obteve 30,5% dos votos válidos, seguido por Ventura com 24,5%, configurando um embate ideológico que promete agitar o país nas próximas semanas.
O resultado reflete um eleitorado dividido, com a esquerda tradicional mantendo uma base sólida, mas enfrentando o avanço da extrema direita, um fenômeno mundial, que capitalizou descontentamentos superdimensionando temas como imigração, corrupção e economia, ainda que nenhum dos três seja efetivamente um grande problema nacional do pequenino país da periferia da Europa. Seguro, ex-líder do PS e figura experiente na política portuguesa, destacou em seu discurso de vitória parcial a necessidade de “unir o país em torno de valores democráticos e progressistas”. Já Ventura, líder do Chega, celebrou o avanço como uma “revolução patriótica”, prometendo combater o “sistema corrupto” e priorizar os interesses nacionais, a mesma velha e batida cantilena das siglas ultrarreacionárias que surgem mundo afora.
No terceiro lugar, João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, uma espécia de “Partido Novo” de Portugal, surpreendeu com 15,3% dos votos, um desempenho notável para um grupo político ainda em ascensão. Cotrim, que apostou em uma agenda econômica reformista e de “liberdades individuais”, até ficaria próximo de uma vaga no segundo turno, de acordo com as projeções, mas não conseguiu ultrapassar sequer chegar perto dos dois primeiros colocados. Seu resultado, no entanto, consolida a IL como uma força relevante na direita moderada, atraindo eleitores desiludidos com o PSD, sigla histórica e predominante na centro-direita portuguesa desde a volta da democracia há 52 anos, e outros conservadores tradicionais. Luís Marques Mendes, do PSD, partido do primeiro-ministro Luís Montenegro, apresenta 12%, refletindo as divisões internas na centro-direita, exatamente o mesmo desempenho de Henrique Gouveia e Melo, o almirante independente que liderou sondagens iniciais por mais de um ano, prejudicado por uma campanha que perdeu fôlego nos meses finais.
Outros candidatos ficaram bem atrás. Na esquerda, Catarina Martins (Bloco de Esquerda) e António Filipe (PCP), somaram pouco mais de 3,5% juntos, indicando uma fragmentação no campo progressista. Figuras menores, como o músico Manuel João Vieira e outros independentes, não passaram de 1%.
O comparecimento às urnas foi de cerca de 53,67%, com abstenção em torno de 46,33%, um patamar ligeiramente superior ao das eleições anteriores, mas ainda assim representativo em um contexto de fadiga eleitoral pós-pandemia e crises econômicas. Votos brancos e nulos somaram cerca de 2,42%, sinalizando algum protesto silencioso contra as opções disponíveis.
Essa eleição, a mais concorrida desde a redemocratização, com 11 candidatos na cédula, expõe as fraturas sociais em Portugal. O PSD, apesar de governar o país, viu seu candidato enfrentar resistências internas e externas, enquanto o Chega, fundado há apenas sete anos, confirma seu crescimento meteórico, impulsionado por discursos populistas que têm atraído multidões globalmente. Analistas apontam que o segundo turno, marcado para 8 de fevereiro, será um teste para a resiliência da democracia portuguesa, com possíveis alianças e transferências de votos definindo o vencedor. Todas as projeções, ainda que preliminarmente, apontam para uma vitória forte e vigorasa de Seguro, tendo em vista a grandiosa rejeição de Ventura, que gosta de se colocar como “o Bolsonaro português”.