AO SOM DE XEQUERÊ, MARCHA DA CONSCIÊNCIA NEGRA EM SÃO PAULO CELEBROU CULTURA AFRO-BRASILEIRA

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RESISTÊNCIA

Com o tema ‘Zumbi e Dandara – 300 + 30 anos’, a marcha chegou à sua 22ª edição

Reunidos em roda, umbandistas e candomblecistas pediram as bênçãos dos orixás no início da manifestação.| Crédito: Caroline Oliveira/Brasil de Fato

Com o tema Zumbi e Dandara – 300 + 30 anos, a 22ª Marcha da Consciência Negra reuniu militantes, representantes de movimentos populares e de sindicatos e políticos na Avenida Paulista, na região central de São Paulo, nesta quinta-feira (20), em que é celebrado o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra

A concentração teve início por volta do meio-dia, no Vão Livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), embalada pelo som do atabaque e do xequerê, instrumentos tradicionais das religiões de matriz africana. Reunidos em roda, umbandistas e candomblecistas pediram as bênçãos dos orixás no início da manifestação.

“Viemos pedir a bênção às ancestralidades. Não existe futuro sem história, sem passado. Então, os povos tradicionais de matriz africana, nas suas várias vertentes, estavam ali: grupos de umbanda, quimbanda, de religiões de matriz africana, dos vários pertencimentos étnicos. Louvar os ancestrais é louvar a vida”, afirmou Júlio César de Andrade, assistente social e um dos organizadores do ato.

Andrade explica que a 22ª edição também marca os 330 anos de Zumbi e Dandara para fazer referência aos quilombos como símbolo de organização política e resistência. “A abertura foi com os povos tradicionais de matriz africana que representam as nossas ancestralidades. Mas a marcha está fazendo menção aos 330 anos Zumbi e Dandara, que são os quilombos, que é a mobilização política, que é organização política, que é todo um contexto de resistência de denúncia a chacinas, ao genocídio, a necropolítica, ao racismo estrutural, institucional nesse país”, completa.

Pai Jair de Odé, presidente da organização Ilê Axé Omo Odé, situada na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, estava entre os participantes que formavam a roda. Com o microfone em mãos, o militante que organiza a marcha desde o início, conduziu os cânticos das religiões de matriz africana, que ecoavam pelo Vão Livre do Masp.

“Eu sou da Cidade Tiradentes, tenho 72 anos e há mais de 20 anos acompanho essa marcha. É resistência. Para nós, é muito importante lutar contra o racismo, contra a intolerância. Faz 20 anos que estou nessa luta”, afirmou à reportagem. Logo depois, atendeu aos chamados dos companheiros e voltou para o centro da roda.

Marli do Nascimento Paula, de 65 anos, que também representa o Ilê Axé Omo Odé, defendeu a importância do alcance nacional do feriado de 20 de novembro. “Importantíssimo. A luta é necessária, e a gente precisa se mostrar. É muito importante ver como isso se tornou nacional. Só com a luta vamos conseguir união. A gente precisa estar juntos, sempre. Importantíssimo”, diz. “Estou aqui pela luta do povo preto, né? Pela luta do preto. Para mostrar que a gente tem espaço, que é possível. As pessoas precisam nos respeitar. Somos seres humanos, todos iguais, nada diferente.”

A concentração teve início por volta do meio-dia, no Vão Livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), embalada pelo som do atabaque e do xequerê | Crédito: Caroline Oliveira/Brasil de Fato

Além dos grupos religiosos, diversas organizações também estiveram presentes. Luka Franca, representante integrante da Coordenação Estadual do Movimento Negro Unificado São Paulo (MNU-SP), relembra que este é o segundo ano em que o 20 de novembro é um feriado em todo o país, “o que demonstra a força de luta que a Marcha da Consciência Negra vem construindo há 22 anos”. 

Franca também destacou a violência policial que atinge, em sua maioria, a população negra e periférica. “Estamos aqui hoje lutando por reparação, contra o racismo religioso e contra a violência policial, que vemos cada vez mais aguda em diversos territórios. O que aconteceu no Rio de Janeiro, na operação do Complexo da Penha, foi um massacre”, diz a militante em referência à megaoperação entre os complexos da Penha e do Alemão que matou 121 pessoas, sendo 117 civis e quatro policiais, tornando-se a mais letal do Brasil. 

“Isso revela o quanto a questão racial é fundamental para debater quais programas precisamos para enfrentar a extrema direita. O que aconteceu no Rio demonstra que matar o nosso povo faz parte da estratégia de projeto de sociedade da extrema direita. E, se não encararmos os problemas da violência policial e de como os territórios negros e periféricos são tratados em todo o país, não vamos avançar”, diz Luka Franca. 

A representante do MNU-SP também destaca a crescente vulnerabilização das mulheres negras, especialmente das que integram famílias de vítimas do Estado, diante do avanço da violência policial. “Agora temos centenas de mães, irmãs, esposas e filhas que perderam seus entes queridos, e essas mulheres precisam de cuidado, precisam de assistência e precisam de justiça. O movimento de mães vem há anos pautando a necessidade de olhar para elas. É um tema transversal”, afirma.

“Hoje estamos aqui, no 20 de novembro, e no dia 25 teremos novamente, dez anos depois, a Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, onde milhares de mulheres vão reivindicar direitos, ligados à saúde reprodutiva, à violência policial, à economia apresentando um programa e um projeto de sociedade para o bem viver”, conclui.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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