NOVEMBRADA DE 1955: HÁ 70 ANOS, CONTRAGOLPE ASSEGUROU DEMOCRACIA COM POSSE DE JK
Episódio expôs embate entre projeto nacionalista e forças golpistas da UDN
Em 1955, Lott reagiu à conspiração da UDN e assegurou a posse de JK e Jango – Arquivo pessoal
Quando Getúlio Vargas se suicidou em 1954, e “provocou uma comoção popular enorme”, como relembra William, quem assumiu o poder foi o vice-presidente Café Filho. Mas, em vez de dar continuidade ao projeto nacionalista e trabalhista de Vargas, ele se aproximou da União Democrática Nacional (UDN), partido conservador e antigetulista.
A partir daí, setores militares e civis ligados à UDN, comandados por Carlos Lacerda, principal inimigo político de Vargas, viram no governo interino uma oportunidade para barrar a vitória eleitoral de Juscelino Kubitschek (PSD) e João Goulart (PTB), que eram vistos como herdeiros do varguismo.
Segundo o jornalista, a sigla conservadora ocupou cargos estratégicos após a morte de Vargas. “Campeou ali dentro porque viu a oportunidade de chegar ao poder de uma maneira direta, rápida e que não dependia da aprovação popular. Mas envergonhada, discreta”, conta o jornalista.
No centro da disputa estava o Ministério da Guerra, entregue a Lott como uma figura “neutra” em um ambiente dividido entre nacionalistas e setores entreguistas nas Forças Armadas. William lembra que o marechal se consolidou como um defensor da legalidade e de um projeto nacional de desenvolvimento e soberania, especialmente em temas como a Petrobras.
A radicalização aumentou após a vitória eleitoral de JK, em outubro de 1955, quando setores civis e militares tentaram questionar o resultado com o argumento de que o presidente eleito não teria a maioria absoluta dos votos. William recorda que essa tese não tinha qualquer respaldo na Constituição e era expediente de “tapetão”. “Uns criaram que não teve maioria absoluta, outros tentaram falar que o voto dos comunistas teria que ser anulado”, cita.
O estopim da reação de Lott foi o discurso do coronel Jurandir Bizarria Mamede durante o enterro de um general, contra a posse de JK, e a articulação para demiti-lo do Ministério da Guerra. William relata que, ao constatar o alinhamento do presidente interino Carlos Luz, que assumiu o cargo após Café Filho se afastar por problemas de saúde, com o plano golpista, Lott rompeu. “Eu não sirvo a presidente golpista”, disse Lott na ocasião, segundo o jornalista.
Na madrugada de 11 de novembro de 1955, generais legalistas se articulam com Lott, que ainda hesitava em liderar uma ação militar. Segundo William, o movimento tem um caráter de contragolpe para garantir o cumprimento das urnas. “Não há um movimento de Lott. Ele sempre fica no contra-ataque. Ele se prepara para um contra-ataque e para um contragolpe”, pontua. A operação isolou Carlos Luz, levou o Congresso a aprovar o seu impeachment e garantiu a posse provisória de Nereu Ramos até a transmissão oficial do cargo a JK, com Jango como vice.
Um dos momentos simbólicos, lembra o biógrafo, é o disparo de canhões do Forte de Copacabana e do Forte do Leme contra o cruzador Tamandaré, onde estavam articuladores do golpe. “Ele determinou que se atirasse para afundar”, diz. Mesmo assim, parte dos disparos teria sido feito para “afugentar” os golpistas.
Paralelos com 2016 e o uso político da legalidade
A biografia de Lott voltou à pauta após o golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016. William conta que, mais de dez anos depois do lançamento, em 2005, o livro ganhou novas edições impulsionado pelos paralelos traçados por jornalistas e pesquisadores. “Explodem artigos. Mas esse movimento parece muito o que aconteceu em 1955. Realmente não há algum ponto para se derrubar um presidente”, diz.
O autor vê semelhanças no uso seletivo de argumentos jurídicos e institucionais para ir de encontro com a vontade popular, em um “ensaio de lawfare” já nos anos 1950 contra JK. Ele também destaca a recorrência histórica da anistia a golpistas e conspiradores, que voltam a atuar em novas rupturas, tema que marca de 1955 a 1964 e segue atual. “Essa pauta da anistia está sempre na história brasileira e no presente também”, observa.
Para ouvir e assistir
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