ASSASSINATO DE QUEBRADEIRAS DE COCO NO PARÁ EXPÕE URGÊNCIA DE INCLUIR CONFLITOS NO CAMPO NA COP30

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Entre 2015 e 2024 houve 393 assassinatos em conflitos agrários no Brasil, atingindo principalmente sem-terra, indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais

Na única entrevista concedida à imprensa antes da COP30, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reconheceu que “falhamos em evitar um aumento acima de 1,5°C” e alertou para os impactos devastadores caso não haja uma redução drástica e imediata das emissões de gases de efeito estufa.

A discussão climática global tem se concentrado nos chamados “pontos de inflexão”, transformações críticas em ecossistemas que, uma vez ultrapassadas, provocam mudanças irreversíveis. O exemplo mais citado é o da Amazônia, que pode se transformar em uma “savana degradada” caso o aquecimento global atinja 2°C a 2,5°C, segundo o climatologista Carlos Nobre.

Tanto Nobre quanto Guterres apontam a descarbonização como caminho central: cortes de até 60% nas emissões e remoção de bilhões de toneladas de CO₂ até 2025 seriam essenciais para manter o planeta dentro dos limites climáticos seguros. Essa ênfase no carbono também domina a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil, cujo texto menciona o termo quase 50 vezes.

Mas ao colocar o carbono no centro do debate, corremos o risco de ignorar outras dimensões da crise climática. Afinal, o “fim do mundo” não acontece apenas quando o planeta ultrapassa 1,5°C. Ele acontece diariamente, em territórios marcados por violência, exploração e destruição — como os que cercam Belém, sede da COP30.

Duas mulheres

No dia 3 de novembro, as quebradeiras de coco Antônia Ferreira dos Santos e Marly Viana Barroso foram assassinadas em Novo Repartimento (PA). De acordo com nota do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), elas haviam saído pela manhã para coletar coco babaçu, atividade que sustenta milhares de mulheres extrativistas na Amazônia e no Cerrado. À noite, foram encontradas mortas, com sinais de violência brutal.

Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre 2015 e 2024 houve 393 assassinatos em conflitos agrários no Brasil, atingindo principalmente sem-terra, indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais. As “manchas de conflito” se concentram em áreas de intensa expansão agropecuária: norte e noroeste do Maranhão, norte do Tocantins, sudeste do Pará, Rondônia, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Paraná e Bahia.

Além da violência física, comunidades têm enfrentado uma nova forma de agressão: o uso de agrotóxicos como arma química para expulsar populações de seus territórios. Em 2024, o Maranhão registrou 228 conflitos envolvendo agrotóxicos, o equivalente a 82% dos casos no país. A maioria ocorreu no Leste Maranhense, região onde a produção de soja cresceu 124% desde 2000, segundo dados da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA).

Fazendeiros chegaram a promover ataques com defensivos agrícolas contra indígenas Guarani Kaiowá, da Terra Indígena Guyraroka, contaminando crianças, gestantes e idosos. A estratégia é clara: tornar o ambiente inabitável e abrir espaço para monoculturas de soja, milho e cana-de-açúcar.

O Brasil é signatário da Convenção sobre Armas Químicas (1993), que proíbe o uso de substâncias tóxicas com fins bélicos. Contudo, o tratado permite o uso dessas substâncias para fins “não proibidos”, como atividades agrícolas, brecha que, na prática, tem permitido a continuidade desses ataques.

*Com informações do The Conversation Brasil.

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