LUIZ FARIA: ENTRE O HORROR DOS NECRÓFAGOS E A BELEZA DOS INTÉRPRETES DA CANÇÃO DA VIDA
Entre o horror dos necrófagos e a beleza dos intérpretes da canção da vida
por Luiz Henrique Lima Faria
Esses dias, enquanto me perdia em divagações funestas sobre Trump, Musk e outros necrófagos, imaginando como transformamos a Terra no inferno dos engenheiros do colapso da humanidade, esse lugar onde a morte tornou-se insumo e a dor, externalidade, ouvi, ao meu lado, a voz de minha esposa cantarolando uma melodia. Era suave, alegre e familiar.
Estávamos ali, na mesma sala, ela concentrada em algo simples, talvez respondendo mensagens da escola na qual trabalha, cantarolando com naturalidade. Perguntei o que era. “Ouvi no show da Bethânia cantando Gonzaguinha”, respondeu, sem levantar os olhos, com a serenidade de quem, mesmo pisando no mesmo chão que eu, parecia estar num lugar melhor. E, por um momento, também fui levado para lá.
Somos estranhos, nós viventes deste tempo. Capazes de nos deixar guiar por bestas feras que ameaçam a própria continuidade da civilização e, ao mesmo tempo, de sair do surto por meio de entidades evoluídas encarnadas: aquelas raras vozes que declamam versos e nos lembram quem somos. Vemos impérios sendo erguidos sobre o holocausto e o genocídio com indiferença, mas ainda somos tocados por gestos discretos, como uma voz que canta baixinho enquanto a vida segue. Mesmo à beira do abismo preservamos a capacidade de perceber a beleza. Talvez não se trate apenas de esperança, mas de um certo senso de medida: a consciência de que, mesmo cercados de ruído e destruição, ainda é possível afirmar, com sobriedade, que “a vida presta”.
A Terra pode, sim, ter se tornado o inferno dos necrófagos. Mas ainda é o lugar no qual alguém canta sem plateia e essa canção ampara o mundo de outro alguém por um instante. Naquele dia, era “O que é, o que é” que pairava no ar. “Viver, e não ter a vergonha de ser feliz…” dizia a letra, com a firmeza de quem conhece a dor, mas não se resigna a ela. “Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...”, na voz de Bethânia, aquelas palavras ganhavam outra profundidade. Não eram consolo, mas afirmação. Ainda é possível acreditar, mesmo que por teimosia, que a vida “…é bonita, é bonita e é bonita…”. E essa teimosia, longe de ingenuidade, representa uma forma de lucidez. Talvez a única que, para nós, seja possível.
Possivelmente, Gonzaguinha conhecesse o verso atribuído a Neruda: “…você pode cortar todas as flores, mas não pode impedir a primavera de chegar…”. Não se trata de negar o horror. Trata-se de reafirmar tudo aquilo que ainda resiste. Porque viver, em tempos como os nossos, é decidir em que direção pendulará a alma. E se o mundo parece ruir por todos os lados, que sejamos aqueles que insistem em cultivar humanidade no meio do concreto, os que não desafinam quando desafiados a preservar a ternura da canção, aqueles que ainda escolhem a poesia mesmo com o peso dos dias sombrios.
Naquela tarde, minha esposa cantarolava Maria Bethânia interpretando Gonzaguinha e aquilo bastou. Não salvou o mundo lá fora, mas sustentou o momento. E às vezes é disso que a vida é feita: da beleza da arte e da cultura produzindo acontecimentos fortuitos que impedem a rendição.
Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).