Lula precisa acordar para sua responsabilidade de, para o quarto governo, criar um plano de metas adequado às possibilidades abertas ao país

Nada poderia ser mais significativo.
O impeachment de Dilma Rousseff marcou o fracasso final da geração da Constituinte. Do Movimento das Diretas saiu a mais civilizada Constituinte da história. A ditadura deixou uma economia engessada, mas completando a etapa da industrialização.
Mais. Tinha a grande oportunidade de um salto no desenvolvimento. Havia um sistema técnico-científico robusto, uma indústria de base e metal-mecânica em condições de conquistar o mercado externo, mudanças radicais na telemática e na logística, habilitando o país a ser um dos hubs da nova arquitetura de fornecedores globais.
Eram Brasil, China e Índia como candidatos a futuras potências mundiais.
Lembro-me de um gráfico analisando as 10 ciências mais promissoras da época. A China tinha alguns pontos muito altos e outros inexistentes. Já o Brasil está bem colocado em todos os pontos.
Aí sobrevieram os desastres. Primeiro, a teoria do choque, experimentada por Collor e implementada por Fernando Henrique Cardoso, com uma política cambial deliberadamente apreciada para tornar o país um grande negócio para os grandes fundos internacionais – associados aos economistas do Real.
Ano após ano a indústria foi desmilinguindo. As grandes estatais, fundamentais como âncoras da nova etapa – inclusive para garantir o florescimento de empresas, competindo em nível de mercado – foram sendo vendidas. Os recursos ajudavam a fechar o balanço de pagamentos mas deixavam, de herança, um volume cada vez maior de remessas para o exterior, a título de dividendos e royalties.
Ao mesmo tempo, a partir de 1999 subordinou-se o país ao capital financeiro especulativo, com a implantação das metas inflacionárias e de uma ampla desregulação do mercado, que deixou o câmbio à mercê dos humores do capital gafanhoto e a economia subordinada a taxas de juros impossíveis.
Seguiu-se um amplo desgosto da opinião pública, uma falta de sonhos, provisoriamente superada pelo boom das commodities e pelo pique do segundo governo Lula. Quando cessou a bonança, tudo veio abaixo.
Seguiram-se a Lava Jato e o impeachment, um jornalismo de ódio só visto, antes, nos meses que antecederam o suicídio de Vargas e o golpe de 1964. E, uma a uma, as instituições foram sendo varridas do mapa.
A Constituição foi atropelada pelo impeachment sem crime. No Supremo, Ministros que tentaram resistir aos desmandos da Lava Jato morreram em acidentes. Outros se deixaram levar da forma mais sórdida. Deram posse a Michel Temer, prenderam Lula para impedi-lo de participar das eleições de 2018. Jornalistas passaram a agir como policiais.
E, a partir daí, escancarou-se a política para o crime organizado, inicialmente as organizações criminosas localizadas no Rio de Janeiro, no entorno dos Bolsonaro.
Depois, com Bolsonaro no poder, a dupla Roberto Campos Neto-Paulo Guedes, abriu as portas do mercado financeiro ao crime organizado, permitindo que qualquer empresa, até fintechs de porta de quintal, pudessem se tornar canais para a circulação do crime organizado.
O preço pago foi extremamente elevado. Quebrou-se o setor mais dinâmico da economia, das grandes empreiteiras. Permitiu-se a morte de 700 mil pessoas pelo Covid e, principalmente, escancarou-se a viralatice nacional, a ponto de jornais tentarem repetir a Lava Jato.
Não apenas isso. Nenhum dos governos que se seguiram ao infausto governo FHC logrou montar um plano sequer que apontasse o futuro. Houve avanços, é verdade, no Bolsa Familia, nas políticas educacionais, no fortalecimento do SUS. Mas o grande salto, capaz de estimular o pacto nacional, não ocorreu.
O país ficou nas mãos de uma figura política admirável, no plano internacional e como defensora da democracia, mas incapaz de sair da mesmice e escapar das armadilhas impostas pela financeirização de FHC.
O país caminha para as eleições com dois cenários pela frente. Com Bolsonaro ou qualquer um do meio, a destruição do que resta de projeto nacional; com Lula, a democracia salva mas um grande risco de se ter mais do mesmo.
O país anseia pelo novo, anseia por reconstruir o futuro ainda que, inicialmente, no imaginário popular. Lula precisa acordar para sua responsabilidade de, para o quarto governo, criar um plano de metas adequado às possibilidades abertas ao país: terras raras, energia verde, digitalização. Se não conseguir, será o responsável pela última pá de cal na geração das diretas.