FILÓSOFO/TEÓLOGO (À MARGEM DA ORTODOXIA) JOSÉ ALCIMAR*: TEOLOGIA HETERODOXA E FILOSOFIA AFINADA AO JEJUM DOS ARTÍFICES DO BEM
Imagem do cinema O Evangelho Segundo São Matheus do revolucionário cinegrafista, Pier Paolo Pasolini. Momento em que ele veste Jesus.
O site AFINSOPHIA, do projeto Associação Filosofia Itinerante (AFIN), tem por princípio – e princípio nunca envelhece – afirmar o vínculo radical entre Filosofia e Vida. É um vínculo ontológico e, por conseqüência, radical.
A melhor definição ontológica do que é ser radical nos foi dada por Marx: “ser radical é tomar as coisas pela raiz, e para o homem a raiz é o próprio homem”. Em seu devir radical a Filosofia antecede, segue florescendo e certamente sucederá à forma acadêmica, oficial, de seu cultivo nem sempre produtivo. Filosofia, sim, como cultivo da sabedoria. Cultivo itinerante, livre, não propriamente doutoral, amparado em títulos. Cultivo inclusive livre da docência do aclamado livre-docente.
Edgar Morin, francês, judeu, ateu declarado e talvez o mais longevo Filósofo em atividade, a completar 100 anos em 2021, inclui Jesus de Nazaré entre seus Filósofos de predileção. Seguramente não fez tal inclusão por força de titulação acadêmica. Por esse critério nem teólogo seria o Nazareno. Tornou-se filósofo e teólogo por cultivar a sabedoria nas terras palestinas. A sabedoria foi a medida de sua vida. Antes de iniciar sua missão foi ao deserto e, por quarenta dias e quarenta noites, recolheu-se, sob a medida da sabedoria, em jejum, silêncio e meditação.
O velho Agostinho, que soube combinar docência acadêmica e vida, assegura que é na sabedoria que se encontra “a medida da alma”. Seja como teólogo, seja como filósofo, Jesus de Nazaré trocou o percurso fácil e falso da ortodoxia pelo caminho conflitivo e verdadeiro da heterodoxia. É o único pensador que se definiu como método, que em grego significa caminho. “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Colocou o Caminho antes da Verdade e ambos a serviço da Vida. “Vim para que todos tenham vida”, disse. Enfrentou até o fim, sob tortura que o levou à morte, a dominação política do Império Romano e o poder religioso dos Doutores da Lei. Combateu os fariseus, o narcisismo de suas práticas, seu jejum cênico e os comparou a “sepulcros caiados”.
Se o Nazareno fosse consultado e ouvido pelos que foram convocados ao jejum
do dia 05 de abril de 2020, penso que indicaria duas leituras: a PRIMEIRA, religiosa, foi escrita pelo Profeta Isaías há quase 2800 anos: “De que serve jejuar, se com isso não vos importais? E mortificar-nos, se nisso não prestais atenção? É que no dia de vosso jejum, só cuidais de vossos negócios, e oprimis todos os vossos operários. Passais vosso jejum em disputas e altercações, ferindo com o punho o pobre. Não é jejuando assim que fareis chegar lá em cima vossa voz. O jejum que me agrada porventura consiste em o homem mortificar-se por um dia? Curvar a cabeça como um junco, deitar sobre o saco e a cinza? Podeis chamar isso um jejum, um dia agradável ao Senhor? Sabeis qual é o jejum que eu aprecio? – diz o Senhor Deus: é romper as cadeias injustas, desatar as cordas do jugo, mandar embora livres os oprimidos, e quebrar toda espécie de jugo. É repartir seu alimento com o esfaimado, dar abrigo aos infelizes sem asilo, vestir os maltrapilhos, em lugar de desviar-se de seu semelhante. Então, tua luz surgirá como a aurora (…)” (58,3-8).
A SEGUNDA, laica, e não menos afinada à ética cristã que a primeira, é uma produção do site AFINSOPHIA. ORG, publicada em 04 de abril de 2020 sob o título: LEMBRANÇA DO SERMÃO DA MONTANHA AO MISTIFICADO FARISEU COM SEU JEJUM. A conferir.
*José Alcimar é filósofo, teólogo (à margem da ortodoxia), escritor, crítico político, doutor e professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).