A linguagem como realização da práxis social do homem possui variações sígnicas que ora tentam confirmar representações presentes, indicações da dominância real e ora tentam confirmar representações ausentes. Embora a linguagem seja sempre uma abstração do objeto designado como consciência. Todavia, das variações, existe uma que, quando mostrada com muita ênfase, torna-se mais convincente. Se não, pelo menos, mais inquietante. É a tal variação conhecida como sentido simbólico. Às vezes confundida com metáfora. “Estou falando no sentido simbólico, mas estás me entendendo!” Exclamam alguns em busca de entendimento comunicacional.

Em Manaus, existe um signo que dado seu sentido de degenerescência prática e sua contumácia em exclusivas relações sociais, deixa de ser simbólico para ser real. Um valor. É o capacho. Todos sabem que o capacho é um objeto criado pela cultura árabe colocado na entrada das casas para os visitantes limparem seus pés. Alguns são verdadeiras obras de arte. No senso comum, o capacho é conhecido como tapete, mas tem a mesma função. Observando o valor e o uso do capacho, ou tapete, a função é a mesma. Aí ninguém se engana. Não se encontra na ordem do simbólico.

A MALDIÇÃO DO CAPACHO REAL EM MANAUS

A vida social como produção de matérias transportadoras de corpos necessários às relações concretas dos homens como sujeitos históricos, como disse Marx, se realiza fora das abstrações promovidas pela alienação mística representada pelo medo, a submissão, a avareza, o egoísmo, a hipocrisia; todos os estados apaixonados em que o objeto concreto encontra-se ausente. É daí que se extrai o capacho como um estado apaixonado real. Uma afecção nada simbólica. Como alienação mistificada na forma da subserviência que escolheu, o capacho não se livra da realidade. Não é uma metáfora. É um sujeito apaixonado por sua covarde/bajulação. É irmão gêmeo do arrivista. Esse que quer sempre se dar bem. Alguém pode aventar: “Mas nem sempre o capacho se dá bem”. Engano, sempre ganha, mesmo sendo só a satisfação de se sentir humilhado pelo senhor que escolheu lhe pisar. Dado a sua força real, o capacho se tornou uma profissão, um sacerdócio. Tem uma pedagogia que começa em casa, passa por todos os graus escolares, chega nas profissões e se aloja definitivamente nas relações sociais. “Eu sirvo ao meu senhor, amanhã, como senhor, alguém me serve”, a dialética da subserviência. Engloba pobre, professor, juiz, advogado, médico, comerciante, religioso, o escambau. Nisso é uma maldição.

Essa a maldição que historicamente se espalhou pela cidade de Manaus em todos os seus territórios, instâncias e estados de coisas. O que para alguns obnubilados/cognitivos chama-se de educação e hospitalidade do povo Manô. Que sirva o eufemismo, mas é real capachismo. A educação bajuladora que serve aos seus praticantes. O que sem a prática fragmenta o real.

É por tal afecção impotente que Manaus é uma cidade dolorosamente angustiante. Os capachos inclusos nos governos tendem sempre a direcionar suas reações (nunca ações) a satisfazerem os interesses de seus superiores, preterindo os objetivos reais da cidade. Ilusão fervorosa que assegura para si e seus superiores tranquilidade. Triste entendimento. Os capachos são desesperados, desconfiados, inseguros, infelizes, este o espírito de sua maldição, que disseminam em suas funções. O que perpetua o atraso de Manaus, e sua felicidade quimérica.

E nesse estado apaixonado deprimente, só resta à sociedade, com sua potência construtora, tentar liberar as forças capachistas que aprisionam a cidade, e, então, realizar o processual coletivo do Bem Comum onde nenhuma forma de capacho pode se nutrir. Aí, adeus capachos! E nada de tapetes na entrada da casa. Pode servir de tentação real.

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