UMA SACADA FORA (OB) DA CENA (SCENUS) DO LUGAR DA AÇÃO (TORIUS) DA IMPRENSA

–> A DEMOCRACIA DO COLUNISTA DO ESTADÃO.

Os movimentos de defesa dos homossexuais parecem ter problemas com a democracia”. Assim o colunista do site d’O Estado de São Paulo, Marcos Guterman, explica a reação dos grupos LGBT estadunidenses e internacionais que protestam contra o resultado do referendo sobre a Proposta 8 na Califórnia. Ele cita como exemplo de violência dos grupos LGBT (que ele chama de defesa dos homossexuais) o site antigayblacklist.com, que reúne os nomes dos doadores para a campanha do SIM à Proposta 8, de anônimos a megaempresários. Guterman, quem sabe fiel ao conceito de democracia do Estadão, que apoiou a ditadura militar brasileira e é abertamente de direita, confunde o conceito de democracia com o regime de governo “democracia representativa”. O erro lhe convém, pois permite colocar, graças a um débil estratagema de linguagem, os grupos LGBT no paredão judicativo da boa moral, num falso paradoxo. Se lutam pela democracia, ao contrário, quando são por ela prejudicados, estes grupos não a respeitam, é o que a coluna quis fazer o leitor crer. No entanto, basta uma sinapse para saber que o conceito de democracia não se reduz ao ineficiente sistema de governo que produz no Brasil e na maior parte do mundo, uma ditadura civil-midiótica. Senão vejamos: foi em nome da democracia que a dupla Bush e Blair invadiram o Iraque, a pretexto de proteger o mundo, e até hoje não encontraram as armas de destruição em massa. Também graças à democracia, parte da imprensa brasileira faz verdadeira grita sempre que seus interesses econômicos são ameaçados, mas não hesitam em fazer o necessário para aumentar a audiência, incluindo entrevistar “ao vivo” um sequestrador. O conceito de democracia envolve a confluência das potências de agir dos habitantes da cidade, sendo a própria cidade um corpo-potência, no qual podem predominar afetos democratizantes ou tirânicos. O regime democrático ofendido – segundo Guterman – pelos grupos LGBT é o mesmo que não impede a eleição, via eleição, de um Hitler, ou de um Bush, que não foram democráticos. Fosse uma democracia, o regime jamais permitiria eleger este tipo de gente, não por uma proibição ou restrição, mas porque os afetos e a subjetividade não permitiriam a ascensão e a visibilidade destes afetos tirânicos dos quais se beneficiaram Bush, Hitler e outros ainda por vir. Assim, para o colunista, o direito de restringir os direitos civis dos homoeróticos por parte da sociedade californiana é democrático, mas fazer oposição – não extremada e violenta, que fique claro – à restrição dos direitos civis é anti-democrático. Igualmente, para o colunista, fazer boicote econômico a quem é contra os direitos civis é “violência”. A estratégia de boicote foi usada pelo estadista Mahatma Gandhi na luta pela independência da Índia. Guterman, pela lógica, classificaria como terrorismo. Isso se chama simbiose laboral: Guterman defende hoje o que defenderam os jornalistas do Estadão à época do golpe militar. Restrição das liberdades em nome da liberdade de torturar, matar, censurar. Só perde no quesito intelectual: seus antecessores sabiam, ao menos, escrever e argumentar.

–> A MÍDIA ECOLÁLICA PERDIDA NAS SUAS PRÓPRIAS ILUSÕES

Quando Gilmar Mendes chamou Lula às falas para explicar suposto grampo na sala da presidência do STF – com a ajuda da prestimosa Veja, já não era difícil desconfiar do imbróglio para despistar as descobertas na operação Satiagraha. Com a ausência do áudio, que nunca apareceu, da misteriosa conversa entre Mendes e o senador Demóstenes Torres (ex-PFL/GO), ficou cada vez mais complicado provar que o inexistente existia. Depois, a farsa se desfez (menos para a Veja e para o Jornal Nacional) quando foi descoberto que o “grampeador” do ministro não era ninguém menos que o araponga que costuma vazar informações internas para a revista semanal da Abril. Antes disso, ao completar 90 dias, nenhum grampo havia sido comprovado efetivamente, e a história só servia para mostrar de que lado está a grande mídia nativa. Eis que, no último domingo, no apagar das luzes, o Estadão tentou dar sobrevida ao assunto, ao “noticiar” (eufemismo para insinuar) que Protógenes, na já famosa gravação da reunião com a cúpula da PF que o afastou do caso, teria confessado os grampos. Os dados eram tão subjetivos à fabulação obsessiva de versões esdrúxulas que até um campeonato de audição para ver quem conseguia psico-audio-captar o momento em que Protógenes confessava. Ninguém levou o prêmio. No trecho destacado pelo jornalão, Protógenes fala em “inteligência”. Explicado: o jornal se confundiu, não sabe o que é isso.

–> O ATO FALHO REVELADOR DE RICARDO NOBLAT.

O ato falho, para o companheiro Freud, indica uma manifestação de um conteúdo inconsciente, rejeitado pelo sujeito, mas que se manifesta pela força de sua influência na existência. Assim, aquilo que se pretende ocultar surge inadvertidamente no discurso ou nos atos. Embora todo o país já saiba das relações íntimas entre Gilmar Mendes, setores da chamada oposição, o governo anterior e setores do atual governo. Mas o clima de “imparcialidade” impede que muitos jornalistas revelem o que pensam ou o que sabem realmente sobre essas relações. Eis que a psicanálise freudiana surge e realiza sua função terapêutico-política, auxiliando na compreensão de certas falas professadas ultimamente. Assim, a quem ainda duvidava de que a mídia sabe mais do que diz, ou que crê saber mais do que noticia, o jornalista Ricardo Noblat, em seu blogue, realizou o que muitos gostariam de fazer abertamente e outros nem nos sonhos mais profundos teriam coragem: sequer ele tem, mas o ato falho escapou. Noblat em notícia sobre a descoberta do araponga que “grampeou” o STF se referiu a vossa excelência, ministro do STF, Gilmar Mendes, de GILMAR DANTAS. Touché!

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