O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

“A televisão é decididamente despolitizante” (Muniz Sodré)

“A informação não é um dos aspectos da distração moderna, nem constitui um dos planetas da gláxia divertimento; é uma disciplina cívica cujo objetivo é formar cidadãos.” (Ignacio Ramonet)

.UMA TRISTE PESQUISA.

Uma pesquisa que trate o seu objeto de estudo como algo constituído em um espaço organizado como um dado não produz o estudo como criação e uma experiência do novo no mundo. Apenas constatar o que já é dado como evidente não modifica a existência humana e tampouco realiza um desdobramento da efetividade, produzindo problemas autênticos. Em suma: estudar a realidade já constituída nada produz, logo, nada instrui.

É dessa forma, como um não-estudo, ou como um estudo de expressão e conteúdo vazio, que pode ser considerado o “estudo” dos sociólogos norte americanos John P. Robinson e Steven Martin, da University of Maryland. Eles chegaram à extravagante conclusão, após 30 anos de pesquisa com quase 30 mil adultos, de que as pessoas infelizes assistem mais televisão do que aquelas que se crêem aquém da felicidade. Para tanto, a dupla de sociólogos pesquisou o uso do tempo e o comportamento social das pessoas usadas na pesquisa.

É mais do que evidente o quanto a tevê não produz a informação como alegria e o novo no mundo. Ao contrário, ela confirma o estado de insegurança, de “má igualdade” capitalista, de padronização das emoções, e de engendramentos desonestos com as notícias com seus factóides e espetacularizações da realidade. Assim, a tevê em nada é autônoma. Ela é sim heterônima a partir do instante em que é organizada pela coerção externa da subjetividade capitalística. Então a tevê reproduz em sua programação a necessidade de conservar a tristeza.

O que aparece não aparece no estudo da dupla de sociólogos é esta percepção do médium televisivo. Nem o princípio de identidade (A=A) existente entre capitalismo e tevê, o que faz um cúmplice da outra. É o óbvio que prevalece no então acunhado de estudo.

A tevê, de tanto dilatar a efetividade através de sua hiper-realidade, faz com que todo saber e conhecimento seja esvaziado de sentido. Tal como o estado de tristeza onde o espaço é dilatado e o interesse e sentido da existência deixam de ser relevantes. Tanto a tevê quanto a tristeza não tem a ação efetiva como referentes. Tanto o uso do tempo e o comportamento social, assim como as classificações morais de escolaridade, classe social, faixa etária, entre outras, instituídas pelo capitalismo, segundo a lógica de mercado, convergem para a tevê de forma adequada.

O que, efetivamente, não surge no “estudo” (pesquisa) dos sociólogos é a força da Aletheia (revelação). A revelação do óbvio da constatação de que pessoas infelizes assistem mais televisão, não como um dado constituído, mas como um problema que irrompe a relação entre tevê, comunicação, informação, capitalismo e existência. Ainda mais quando se sabe que a tevê não é simplesmente um dado ou objeto dentro de um espaço constituído, mas uma produção humana que tanto pode ser benéfica ou nociva para a existência das pessoas. E que, hodiernamente, a tevê tem em sua própria estrutura a nocividade do sistema capitalista.

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